Como a conjuntura atual pode influenciar a paridade entre o açúcar e o etanol?
Nesta terça-feira (8), os preços do petróleo seguiram em tendência de alta, sustentados pela perspectiva de que novas sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos e Europa contra a Rússia também envolvam o setor energético. As ameaças por parte da administração estadunidense ganharam forma quando o Presidente Biden anunciou, de maneira unilateral, a suspenção das importações de petróleo e derivados da Rússia, como nova medida de contenção da invasão do território da Ucrânia.
Em resposta, o governo russo defendeu a suspensão do fornecimento de gás natural a países europeus, o que aumenta o risco de uma crise energética no continente. Como consequência, os futuros do Brent encontraram suporte nestas tensões, chegando a romper a resistência dos US$ 130/barril.
Tal conjuntura traz riscos ao mercado brasileiro de combustíveis, com as atenções direcionadas à defasagem entre os preços domésticos e internacionais – tendência que pode se intensificar a depender da movimentação do dólar comercial em um ano de eleições presidenciais. De acordo com os cálculos da StoneX, um reajuste positivo de R$ 1,2378/L seria necessário para que o preço da gasolina nas refinarias se equiparasse com o praticado no exterior.
Os prejuízos seguem sendo absorvidos pelas distribuidoras, com o ambiente adverso à importação de combustíveis trazendo complicações acerca do abastecimento interno. Ainda assim, as discussões acerca da política de preços da Petrobras seguem em aberto (veja a análise completa
aqui) – embora revisões menos frequentes pela estatal já resultem na perda de correlação entre os preços domésticos e os internacionais.
Em termos práticos, quais poderão ser os reflexos desta conjuntura sobre o mercado sucroenergético? No caso do etanol, um possível reajuste positivo no preço da gasolina nas refinarias atuaria como fator altista, já que o nível de negociação do biocombustível deve oscilar buscando a paridade nas bombas, e de forma a ganhar atratividade frente ao açúcar. Em meio aos ganhos recentes do petróleo e à recuperação da produtividade dos canaviais no Centro-Sul, parece provável que o hidratado assuma maior protagonismo no consumo de Ciclo Otto em 2022.
Nesta terça-feira (8), por exemplo, o maio/22 do #11 encontrou suporte ao final do pregão da ICE/NY, encerrando as negociações acumulando alta diária de 0,8%, em US¢ 19,43/lb. Em paralelo, o preço PVU do hidratado, com base em Ribeirão Preto/SP, foi negociado a R$ 3,75/L – isto é US¢ 18,02/lb, quando colocado na mesma base de referência que o demerara.
Em meio aos fatos recentes, é interessante avaliar como uma possível revisão dos preços domésticos de combustíveis poderia interferir na decisão de mix produtivo das usinas do Centro-Sul. Levando em consideração a defasagem atual de preços, e assumindo que um reajuste de R$ 0,80/L sobre o preço da gasolina fosse repassado integralmente para as bombas, o etanol teria espaço para se valorizar em R$ 0,55/L, de modo a manter paridade em 69,4% nos postos de São Paulo.
Preços dos combustíveis nos postos de São Paulo (R$/L)
Fonte: ANP. Elaboração: StoneX.
Considerando que tal valorização também fosse observada nas usinas, o hidratado teria margem para ser negociado a R$ 4,30/L, com base em Ribeirão Preto/SP – levando o biocombustível a operar com um prêmio de 5,9% sobre o contrato contínuo do #11. No entanto, parece pouco provável que um reajuste desta proporção seja efetivado, especialmente em um ano de eleições, que já vem sendo marcado pela descapitalização do consumidor final.
Para além disso, tal situação não tenderia a ter impacto significativo sobre a decisão de mix produtivo das usinas, dado que boa parte da produção de açúcar da safra 2022/23 (abr-mar) já se encontra fixada. Até o momento, mais de 76% da oferta prevista se encontra contratada para exportação na ICE/NY, contra 70% no mesmo período do ciclo anterior. Para que haja uma reversão de mix, os preços do biocombustível deveriam ter firme valorização, justamente para compensar os custos envolvidos com a operação.
Sob a ótica dos fundamentos do mercado de açúcar, é preciso lembrar que o ciclo 2021/22 (out-set) deve contar com um déficit no balanço de O&D, o que reforça a necessidade do direcionamento do produto brasileiro ao exterior – ainda que o bom desempenho da safra indiana confira relativo alívio para este contexto (veja a análise completa
aqui).
De qualquer forma, diante da volatilidade observada nos últimos pregões, tais pontos continuarão sendo analisados de perto nos próximos dias. Nesta quarta-feira (9), a Inteligência de Mercado da StoneX divulgará a atualização das estimativas de safra para o Centro-Sul brasileiro, bem como para o saldo global de açúcar, o que ajudará a moldar com maior precisão as perspectivas para o setor.
Tabela de indicadores