HIDRATADO deve assumir maior participação na procura por combustíveis do Ciclo Otto
Neste início de semana (14), o contrato contínuo do Brent voltou a operar mais próximo dos US$ 105/barril, ao passo que o mercado avalia as conversas entre Rússia e Ucrânia. Tal conjuntura traz relativo alívio ao mercado brasileiro de combustíveis, ainda que a defasagem dos preços da gasolina A com o exterior se situe em R$ 0,3134/L, de acordo com monitoramento realizado pela StoneX.
Acompanhando o último reajuste da Petrobras sobre os preços nas refinarias, o valor de negociação nas bombas também encontrou suporte. Segundo dados da ANP referentes à última semana, o hidratado se valorizou em 0,5% nos postos de São Paulo, ao passo que a gasolina apresentou ganhos semanais de 0,7% - levando a paridade entre os dois combustíveis para 69,3%, nível que torna a procura por álcool combustível mais atrativa.
No entanto, os impactos das tensões geopolíticas recentes sobre os preços nos postos poderão ser avaliados com maior precisão a partir desta semana. Vale lembrar que a nossa estimativa é de que o álcool assuma maior participação no consumo de combustíveis do Ciclo Otto nos próximos meses. Diante deste ganho de competitividade do etanol, o PVU do hidratado e do anidro, com base em Ribeirão Preto/SP, já alcançam R$ 4,10/L e R$ 3,90/L, respectivamente.
Sob a ótica do açúcar, o contrato contínuo do #11 encerrou o pregão cotado a US¢ 19,13/lb na ICE/NY, acumulando perdas de 0,6% frente ao fechamento da última sexta-feira (11). A movimentação do demerara parece refletir os próprios fundamentos de O&D, em meio ao otimismo acerca das exportações indianas, o que justifica a desvalorização recente do spread entre as duas primeiras telas, situando-se em uma inversão de US¢ 0,03/lb.
Destaca-se que o diferencial N2-V2 em Nova Iorque se consolidou em um carrego de US¢ 0,09/lb na sessão de hoje – evidenciando o maior conforto no saldo global da commodity em um horizonte de médio prazo. O mercado brasileiro de combustíveis, contudo, é um ponto de atenção nesta análise, já que o hidratado opera em patamares próximos ao maio/22 do #11, enquanto o prêmio do anidro se situa em 3,8%.
Para além da fixação avançada de açúcar para exportação pelo Centro-Sul, a descapitalização do consumidor final tende a pressionar a demanda por combustíveis – o que nos leva a manter a nossa estimativa de que o mix açucareiro seja de 45,5% em 2022/23 (abr-mar). Até o momento, mantivemos nossa projeção de que a procura por Ciclo Otto no Centro-Sul tenha crescimento anual de apenas 0,2%, estimada em 38,6 milhões de m³.
Ainda que a ANP não tenha divulgado dados oficiais para o mês de fevereiro, os números da UNICA mostraram um consumo de 1,9 milhão de m³ de etanol pela região – volume que representa uma alta mensal de 13,9%. Especificamente, a procura por anidro alcançou 842 mil m³, enquanto a demanda por hidratado totalizou 1,1 milhão de m³ (+5,9% e 20,8%, respectivamente).
É evidente, contudo, que a valorização recente dos combustíveis deve afetar negativamente a mobilidade urbana – tendência que irá depender das perspectivas para o Brent, bem como das discussões em torno de políticas para amenizar os impactos sobre o poder de compra do consumidor final – a exemplo do projeto de lei que zerou os tributos federais e alterou a cobrança de ICMS sobre o diesel na última sexta-feira (11). Caso a mesma estratégia fosse utilizada para a gasolina, a redução nos preços poderia chegar a R$ 0,69/L.
Os estoques confortáveis de etanol no Centro-Sul também devem limitar altas mais expressivas em seu nível de negociação. Até a segunda quinzena de fevereiro, por exemplo, a tancagem de hidratado e de anidro se posicionava 7,0% e 47,6% acima do volume registrado no mesmo período do ciclo 2020/21 (abr-mar).
Variação dos estoques totais de etanol em relação ao ciclo 2020/21 no centro-sul do brasil (%)
Fonte: MAPA. Elaboração: StoneX.
Para além desta conjuntura, o mercado também se atenta ao avanço da Covid-19 na China, o que pode pressionar o consumo de petróleo e outras commodities no curto prazo, em meio à intensificação da política de isolamento social para o controle da doença. A evolução do quadro pandêmico será acompanhada de perto, de modo a traçar perspectivas mais claras para o setor sucroenergético.
Tabela de indicadores