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Diário Sucroenergético

By: StoneX Intelligence Brazil, StoneX Intelligence Brazil

Estoques de açúcar devem continuar apertados na União Europeia
 
Filipi Cardoso
Arthur Machado
Marcelo Di Bonifácio
Safra 2022/23 na França deve ter novo corte de área plantada da beterraba
A safra 2021/22 (out-set) da beterraba-sacarina na Europa continua marcada pela recuperação produtiva, após a quebra expressiva no ciclo anterior. Por outro lado, mesmo com esse alívio nos estoques domésticos, o aumento no consumo de açúcar no continente e o fortalecimento dos preços internacionais mantiveram os prêmios internos fortalecidos, permitindo que os preços físicos na União Europeia (UE) se encontrem nas máximas dos últimos 10 anos.
Do lado da oferta, apesar do aumento de 10,6% no comparativo safra-a-safra, os estoques de passagem para o ciclo atual acabaram por manter limitada a disponibilidade do adoçante ao longo dos últimos meses. A produção de açúcar na temporada 2020/21 teve uma perda de mais de 10% frente à temporada anterior por conta da infestação do vírus amarelo em diversas lavouras europeias, especialmente na França, que responde pela maior parcela produtiva da UE.
Essa doença é comumente combatida com pesticidas neonicotinoides, prática proibida desde 2018 em uma série de países europeus pela pressão de ambientalistas, que apontam os danos à população de abelhas e outros insetos polinizadores. Sem o combate químico, contudo, o produtor europeu não encontrou alternativas para combater o vírus no ciclo 2020/21, que acabou prejudicando significativamente a produção de beterraba, como mencionado. Esse cenário, considerado desastroso pelo mercado, fez com que alguns governos recuassem, mesmo que parcialmente, na decisão de barrar o uso dos inseticidas – já em 2021, o Reino Unido aprovou seu uso emergencial.
O decorrer da safra 2021/22 nos principais produtores da beterraba (França e Alemanha) foi favorável em termos climáticos e deve acabar se encerrando, em setembro/22, com boa recuperação frente à quebra do ano anterior. Já para o ciclo 2022/23, algumas incertezas ainda rondam o desenvolvimento dos campos europeus. As primeiras projeções para a área plantada da França apontam queda pela quinta temporada seguida. O plantio do tubérculo deve perder espaço para outras culturas mais lucrativas, como a cevada, em um momento de custos de produção elevados e inflação por todo o mundo – contexto propício para uma maior cautela na hora de o produtor planejar suas safras.
Produção de açúcar na União Europeia (milhões de toneladas)
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* Estimativa. Fonte: Comissão Europeia. Elaboração: StoneX.

De todo modo, o plantio para 2022/23 (out-set), iniciado em meados de março deste ano, tem sido beneficiado pela ótica do clima – ainda que algumas regiões da França receberam temperaturas abaixo do normal no início de março/22, podendo afetar o avanço da semeadura. Notícia positiva para os produtores franceses é a liberação do uso emergencial dos neonicotinioides, seguindo as medidas adotadas no Reino Unido – decisão não seguida pela Alemanha, no entanto. No geral, as pragas biológicas que podem afetar o plantio costumam surgir quando há temperaturas acima do normal no período de desenvolvimento das raízes. No momento, não existem previsões climáticas que apontem para esse cenário, mas sempre há o risco para o produtor, que busca manejar suas lavouras de forma mais eficiente e poder usar, mesmo que com restrições, o defensivo, fato que traz menos chances das quebras de 2020/21 ocorrerem novamente.

Para o mercado europeu de açúcar, a produção em 2022/23 não deve ter incremento anual e os estoques continuarão em ritmo lento de recuperação depois do recuo forte de dois anos atrás. Nessa perspectiva, não devem vir da Europa potenciais aumentos de produção do adoçante, diferentemente de Índia, Tailândia e Brasil, por exemplo. No continente europeu, portanto, o sentimento altista para os preços pode permanecer como tem sido no ciclo 2021/22, pelos fundamentos de oferta e demanda da região, mas também pelo fator de custos de produção em toda a cadeia da commodity.

O plantio da beterraba, assim como de outras culturas, já está acontecendo sob preços altíssimos dos fertilizantes, o que impacta nos preços ao produtor. Outro ponto importante relacionado aos custos é o processamento do açúcar, que encareceu frente à escalada das cotações dos combustíveis. Na Europa, muitas fábricas dependem do gás natural como fonte de energia, cujos preços entraram em aceleração no ano de 2021 e se encontram nos maiores patamares da história. Por isso, já no ciclo atual, a fabricação do adoçante a partir da beterraba teve maior dispêndio neste sentido, fato que pode se repetir em 2022.

As perspectivas para o mercado do gás natural dependem diretamente dos desdobramentos da guerra entre Ucrânia e Rússia, principal fornecedora do produto ao mercado europeu. Apesar de não haver sanções diretas ao gás russo, as importadoras promovem atualmente uma política de “auto sancionamento”, de modo a reduzir as compras do produto devido às questões de imagem dessas companhias ou por medo de possíveis punições a serem feitas por países ocidentais. Dessa forma, a extensão da guerra no Leste Europeu deve manter os preços do energético sustentados, mesmo com o fim do inverno europeu – momento em que, sazonalmente, há aumentos dos estoques no continente e cotações tendendo para quedas. Caso o conflito se resolva e a Rússia mantenha os níveis de exportação para a Europa, a tendência é de arrefecimento dos preços no médio prazo, até que retorne a demanda sazonal no final do ano. Assim, a depender do cenário, o processamento da beterraba-sacarina será mais ou menos encarecido pelos combustíveis, que estão de qualquer forma em patamares historicamente elevados.

 

Tabela de indicadores
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