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Especial | Contradições de Kevin Warsh prejudicam credibilidade do Federal Reserve

Leonel Mattos
Leonel Mattos

Market Intelligence Analyst • BRAZIL PRS

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Contradições de Kevin Warsh prejudicam credibilidade do Federal Reserve

  • Resumo: Este texto analisa o questionamento de investidores à credibilidade do Federal Reserve em função da desconexão entre o discurso do presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, e as ações do banco central americano, focando nos ruídos provocados pelo seu estilo de comunicação.

    Por que isso é importante: Uma correta compreensão do funcionamento do Federal Reserve sob Kevin Warsh é fundamental para antecipar mais precisamente a trajetória dos juros e da política monetária americana nos próximos anos.

FOMC mantém juros estáveis: Na última quarta-feira (28), o Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) do Federal Reserve (Fed) manteve sua taxa básica de juros inalterada no intervalo entre 3,75% e 4,00% ao ano, com dois dissensos a favor de uma alta de juros.

  • Embora a decisão tivesse sido largamente antecipada, a coletiva de imprensa do presidente do Fed, Kevin Warsh, mais uma vez causou má-impressão entre investidores.

Tese oficial: Tanto no Comunicado da decisão do FOMC como na coletiva de imprensa, a justificativa para manter os juros estáveis foi de que o Comitê deseja acumular mais dados antes de decidir seus próximos passos.

  • Warsh descreveu que “o período à nossa frente será rico em informações”.
  • Contudo, o período será pobre em informações, pois haverá apenas mais uma leitura inflacionária antes da decisão de juros de dezembro (referente ao mês de outubro), ou seja, pouca informação adicional no tópico mais importante.

Desconexão entre discurso e ação: A tese de manutenção da taxa de juros é perfeitamente plausível, porém pressupõe algumas premissas, como que o balanço de riscos não está tão inclinado para a inflação ou que se prefere uma estabilização mais suave e mais lenta dos preços, a fim de se evitar impactos negativos desnecessários sobre a atividade econômica e o mercado de trabalho.

  • Contudo, esse não é o discurso de Kevin Warsh, que repetidamente afirma que a inflação está acima da meta há tempo demais (quase seis anos) e que o Federal Reserve está comprometido, acima de tudo, com a recuperação da estabilidade de preços.
  • Além disso, em seu discurso de agosto em Jackson Hole, Warsh definiu como condição necessária para que o Fed não aumentasse os juros uma queda da inflação “de forma clara e a uma velocidade suficiente” – critério claramente não atendido pelos dados recentes.
  • Ele também afirma repetidamente que as condições financeiras americanas não estão restritivas, sugerindo implicitamente que é necessário aumentar juros para conseguir amenizar a inflação.
  • Adicionalmente, o balanço de riscos apresentado pelo Comunicado da decisão é claramente inclinado para a inflação, afirmando que a economia cresce a um ritmo forte, que o mercado de trabalho está estável e que a inflação está elevada.
  • Também não há perspectiva de melhora no curto prazo para os choques de custos recentes, especialmente os relacionados à escassez de oferta de petróleo e derivados e à escassez global de semicondutores.
  • Neste cenário, é contraditório manter os juros estáveis se existisse tamanho desconforto com a inflação como Warsh afirma.
  • Na prática, os operadores do mercado financeiro acabam duvidando do compromisso do Fed em perseguir estabilização de preços, interpretando que o banco central americano apresenta uma postura paciente para dados desfavoráveis para inflação e uma baixa disposição em elevar sua taxa de juros.

Comunicação obscura: A percepção de postura contraditória e de menor credibilidade do Federal Reserve é amplificada pelo estilo de comunicação evasivo, impreciso, obscuro, vago e sintético de Kevin Warsh, que abusa de expressões genéricas e que trata sua audiência como alunos de um jardim de infância.

  • Na coletiva de imprensa, ele mais uma vez se recusou a avaliar a conjuntura econômica, a explicar os fundamentos da decisão anunciada e a discutir possibilidades para a condução de política monetária (“foward guidance”).
  • Por exemplo, questionado por que o Comitê decidiu não aumentar os juros, Warsh falou que o Fed “está aplicando um novo remédio monetário”, baseado na definição de uma meta de inflação firme e no compromisso com a estabilidade de preços.
  • Além de não haver de nada novo nisso, isso não responde à pergunta.

Fed cada vez menos transparente: Pouco a pouco, Warsh implanta mudanças no estilo de comunicação do Federal Reserve de forma a torná-la mais resumida, imprecisa e evasiva.

  • Desde a primeira decisão de juros com Warsh no comando do Fed, o Comunicado foi encurtado expressivamente, informando muito pouco sobre a decisão de política monetária.
  • Além disso, nas quatro decisões de juros com Warsh como presidente do banco central, investidores não obtiveram boas respostas sobre as justificativas de cada decisão até a divulgação da ata, três semanas depois.
  • Adicionalmente, o banco central americano reformulou a coletiva de imprensa, reduzindo seu tempo de duração e proibindo mais de uma pergunta por jornalista.
  • Na decisão da última quarta, Warsh anunciou que o número de decisões de política monetária do Federal Reserve será reduzido de oito para sete, em 2027, e depois para seis, em 2028, dando espaço para “reuniões de estratégia para a condução ampla da política monetária”.
  • Warsh também é um crítico das Projeções Econômicas Sumarizadas e não participa delas.
  • Por isso, especula-se que tanto as coletivas de imprensa quanto as Projeções possam ser modificadas ou eliminadas após dezembro, prazo previsto para a conclusão dos trabalhos da força-tarefa que avalia a comunicação do Fed.
  • Embora o presidente do Fed afirme que este novo estilo de comunicação diminuiria os ruídos para os mercados financeiros, o resultado até aqui é o oposto, com amplificação da incerteza e da volatilidade dos ativos.

Questionamentos internos ao presidente: Kevin Warsh repetidamente fala que “nós”, do Federal Reserve, “não estamos mais no negócio de orientação futura (foward guidance)”.

  • Porém, enquanto o presidente do Fed se recusa a analisar e discutir o panorama econômico americano, os demais integrantes do Fed intensificaram suas participações em eventos, palestras e entrevistas, buscando ocupar o papel de direcionamento sobre a condução da política monetária abandonado por Warsh.
  • Por exemplo, mesmo com números mais aquecidos para a inflação e das repetidas declarações firmes de Warsh pela busca da estabilização de preços, havia praticamente consenso de que o Fed não aumentaria os juros na decisão da última quarta em função de falas de lideranças seniores do Federal Reserve, como o presidente do Fed de Nova Iorque, John Williams, o vice-presidente do Fed, Philip Jefferson, e o membro do Conselho de Governadores do Fed, Christopher Waller, que defenderam não haver urgência em aumentar os juros nos EUA e que o Fed possuiria tempo para reunir mais informações antes da próxima alta de juros.
  • Como resultado, investidores passaram a dar maior importância para as falas de outros integrantes do FOMC para calibrarem suas expectativas para a trajetória dos juros americanos, reduzindo o peso dado às declarações de Warsh.

Em síntese: A incerteza sobre a trajetória dos juros nos Estados Unidos permanecerá mais elevada enquanto permanecerem o estilo de comunicação e as mudanças implantadas por Kevin Warsh no Federal Reserve.

  • Enquanto isso, a ata da decisão, divulgada três semanas depois, e as falas de outros integrantes do FOMC ganham importância para a formação das expectativas sobre a condução da política monetária para investidores.
  • Moedas

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