
Dólar deve refletir perspectivas para Lula 4, decisão do Copom, dados americanos e eleições nos EUA
- Altista
- A expectativa de uma política fiscal expansionista no novo governo Lula tende a elevar a percepção de risco fiscais de ativos brasileiros, enfraquecendo o real.
- Leituras aquecidas para dados americanos devem aumentar as apostas de aumentos de juros pelo Federal Reserve nos próximos meses, o que tende a elevar o rendimento dos títulos do Tesouro americano (Treasuries) e favorecer a atração de capitais estrangeiros para o país, fortalecendo o dólar globalmente.
- Baixista
- A interrupção do ciclo de cortes à taxa básica de juros (Selic) deve elevar o rendimento dos títulos domésticos, o que tende a favorecer a atração de capitais externos para o país e fortalecer o real.
- Freios aos gastos públicos ou ao setor de tecnologias de inteligência artificial podem desacelerar o crescimento econômico americano, diminuindo a atratividade de investimentos no país e prejudicando o desempenho global do dólar.
Resumo da semana passada
- Na semana, o principal fato foi a vitória surpreendente de Lula no segundo turno das eleições presidenciais, que provocou uma brusca reversão do posicionamento de investidores, que apostavam majoritariamente em Flávio Bolsonaro.
- Com o resultado, na segunda-feira (26) o real teve a sua maior desvalorização diária desde 2002, fechando em R$5,40 (+8,8%), e sua maior desvalorização semanal desde 2008, fechando em R$ 5,45 (+9,2%).
- Nos dias seguintes, a perspectiva de uma continuidade da condução da política fiscal de forma expansionista no quarto mandato de Lula elevaram a percepção de riscos, mantendo o real pressionado.
- No cenário externo, o Fed manteve os juros entre 3,75% e 4,00%. Kevin Warsh manteve o discurso firme contra a inflação, mas não explicou de forma clara porque o Fed não subiu os juros, mantendo seu estilo de comunicação enigmático. Para mais detalhes, leia nossa análise especial.
Dólar comercial (US$/R$) e Dollar Index (pontos)
Fonte: StoneX cmdtyView. Elaboração: StoneX.
Variações do dólar comercial | Diária: +1,12% | Semanal: +9,16% | Mensal: +5,31% | Anual: -0,49% | Em 12 meses: +1,31%
Variações do dollar index | Diária: -0,07% | Semanal: +0,13% | Mensal: +0,42% | Anual: +3,67% | Em 12 meses: +2,39%
O MAIS IMPORTANTE: Perspectivas para governo Lula 4
Impacto esperado na taxa de câmbio do real: altista
O mercado de divisas deve repercutir o ambiente de pessimismo e ceticismo com as políticas econômicas no quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, monitorando atentamente por sinalizações sobre a condução da política fiscal e da composição de sua equipe econômica.
- Na semana passada, a vitória inesperada de Lula provocou um intenso reajuste no posicionamento de investidores, o que levou à maior desvalorização semanal do real desde novembro de 2008.
Por que isto é importante: Investidores antecipam uma política fiscal mais expansionista no novo governo Lula e, com isso, uma aceleração mais rápida do nível de endividamento nacional.
- Como resultado, há um aumento na percepção de risco fiscais de ativos brasileiros e elevação na exigência de prêmios de risco de investidores, o que tende a enfraquecer o real.
Reajuste fiscal? Reportagens afirmam que Lula avalia realizar um ajuste fiscal gradual, que seria baseado na ampliação da parcela do Orçamento sujeita a contingenciamento, melhoria da eficiência dos programas sociais e contenção das despesas que crescem acima dos limites do arcabouço.
- Este conjunto de medidas teria como objetivo alcançar um superávit primário de 1,5% do PIB até o seu último ano do próximo mandato.
- Contudo, há resistências internas à possibilidade de ajustes, como a declaração da semana passada do ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, de que “quem está defendendo que Lula faça ajuste fiscal (...) não entendeu nada do que foi essa eleição”.
- Nesse contexto, os investidores se mostram pessimistas quanto à realização de um ajuste profundo sobre as contas públicas, o que deve elevar os prêmios de risco exigidos por eles.
Aumento da tributação: Apesar das preocupações com a contenção dos gastos públicos, na última semana surgiram notícias de que o governo estaria estudando novas medidas para favorecer as contas públicas pelo lado da receita, o que foi mal-recebido pelos investidores.
- Reportagens de imprensa afirmaram que o governo estaria estudando tributar títulos com isenção de imposto de renda, como LCAs, LCIs, CRAs, CRIs e debêntures incentivadas.
- A medida seria feita através da mudança da alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras por meio de decreto, o que dispensaria a votação no Congresso Nacional e uma possível derrubada da decisão.
- Adicionalmente, o Tribunal de Contas da União (TCU) definiu uma alíquota de 11,3% para a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), um dos novos tributos criados pela reforma tributária e que entra em vigor em 2027.
- O valor foi considerado acima do esperado por tributaristas.
Decisão de juros do Copom
Impacto esperado na taxa de câmbio do real: baixista
No cenário econômico doméstico, os investidores acompanham a decisão da taxa básica de juros (Selic) pelo Comitê de Política Monetária (Copom), em meio a dúvidas se o Comitê continuará sua sequência de cortes ou se a interromperá.
- As opções do Copom negociadas na B3 apontam para 66,5% de chances de manutenção dos juros nos atuais 13,75% ao ano, uma rápida elevação ante a chance de 17,5% registrada no dia 23 de outubro.
Por que isso é importante? A interrupção do ciclo de cortes à taxa básica de juros (Selic) deve elevar o rendimento dos títulos domésticos, o que tende a favorecer a atração de capitais externos para o país e fortalecer o real.
Quadro inflacionário desafiador: A leitura de setembro do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) indicou uma alta dos preços de 0,82%, o que acelerou a inflação acumulada de 4,22% para 4,58%, acima das margens de tolerância da meta inflacionária.
- O núcleo do indicador, que elimina bens voláteis, como alimentação e energia, também avançou de 0,22% para 0,35% no mês, reforçando a percepção de pressões inflacionárias mais disseminadas.
- Além disso, as pressões inflacionárias devem ser intensificadas em meio a um El Niño muito forte, que tende a aumentar os preços de alimentos, e da recente alta dos preços do petróleo, cujo contrato Brent voltou a operar acima de US$ 110 por barril.
- O quadro inflacionário se tornou ainda mais desafiador após a vitória inesperada de Lula nas eleições, que levou a taxa de câmbio do real acima da faixa de R$ 5,40, nível mais elevado desde o começo do ano.
- Este cenário de encarecimento das produções agrícolas, de petróleo e seus derivados e das importações tende a fortalecer as pressões inflacionárias pelo lado dos custos.
Mercado de trabalho aquecido: Outro fator de risco altista para o cenário inflacionário é o mercado de trabalho aquecido, com a taxa de desemprego reduzindo de 5,3% para 5,2% no trimestre móvel encerrado em setembro.
- O desemprego próximo das mínimas históricas eleva a média de rendimento por trabalhador, que atingiu R$ 3.790 no trimestre encerrado em setembro.
- Isto, por sua vez, eleva o poder de compra do trabalhador e acelera a demanda, o que tende a gerar pressões inflacionárias.
Economia em desaceleração: Apesar da resiliência do mercado de trabalho e da inflação, dados mostram um arrefecimento da atividade econômica desde o primeiro trimestre de 2025.
- Em termos de crescimento acumulado, em 2024 a economia doméstica cresceu 3,4%, e nos últimos 4 trimestres do período encerrado em junho essa expansão se reduziu para 1,9%.
- Adicionalmente, o ritmo de crescimento do crédito tem desacelerado, indicando um esgotamento da capacidade de endividamento e limitando o potencial de expansão da economia.
Dúvida sobre a decisão: Por isso, há dúvidas sobre quais serão os próximos passos do Copom.
- Se, por um lado, o cenário inflacionário desafiador e o mercado de trabalho aquecido sugerem a necessidade de interrupção do ciclo de cortes, por outro, os sinais recentes de desaquecimento da atividade econômica sugerem a necessidade de juros mais baixos para recuperar a economia.
- Já o ceticismo e pessimismo de investidores com a política fiscal do novo governo Lula aumenta as expectativas de uma postura mais conservadora na condução da política monetária, visto que o Copom deve querer evitar um descolamento das expectativas inflacionárias.
- Além da decisão em si, os investidores devem acompanhar o tom adotado pelo Copom no Comunicado, buscando calibrar suas expectativas para a firmeza no combate contra a inflação.
Dados econômicos americanos
Impacto esperado na taxa de câmbio do real: altista
O mercado de divisas deve repercutir a divulgação de indicadores econômicos para os Estados Unidos, buscando calibrar expectativas para a trajetória dos juros no país.
- O Relatório da Situação do Emprego deve mostrar um mercado de trabalho saudável, enquanto os Índices Gerente de Compras (PMI) devem apontar para uma atividade produtiva aquecida.
Por que isso é importante: Leituras aquecidas para os dados americanos devem reforçar a percepção de um balanço de riscos inclinado para a inflação, aumentando as apostas de aumentos de juros pelo Federal Reserve nos próximos meses.
- Isto, por sua vez, tende a elevar o rendimento dos títulos do Tesouro americano (Treasuries) e favorecer a atração de capitais estrangeiros para o país, fortalecendo o dólar globalmente.
Mercado de trabalho estável: A mediana das estimativas para o Relatório da Situação do Emprego aponta que a geração líquida de empregos deve avançar de 29 mil em setembro para 65 mil em outubro, em leve recuperação.
- Adicionalmente, projeta-se que a taxa de desemprego permanecerá estável em 4,2%.
- Números recentes apontam para um quadro de “low hire, low fire”, isto é, de um número pequeno de contratações aliado a um número pequeno de desligamentos.
- Por exemplo, os dados semanais de novos pedidos de auxílio-desemprego sugerem que o ritmo de demissões se encontra em patamares historicamente baixos.
- Já os pedidos continuados de auxílio-desemprego, isto é, o número de pessoas que continuam recebendo o benefício após a primeira semana, apresenta trajetória de desaceleração, sugerindo que o número de pessoas que não encontram emprego tem se reduzido.
- Esse quadro de estabilidade é considerável saudável ao se considerar o crescimento mais lento do número de trabalhadores disponíveis.
Novos pedidos semanais (esquerda) e pedidos continuados semanais (direita) de auxílio-desemprego nos Estados Unidos
Fonte: U.S. Department of Labor (DOL), Federal Reserve Bank of St. Louis. Elaboração: StoneX.
Produção em alta: Já a mediana das estimativas para os Índices Gerente de Compras (PMI) mensurados pelo instituto ISM aponta leve avanço do índice industrial, de 54,5 pontos em setembro para 54,7 pontos em outubro, e leve recuo do índice de serviços, de 54,9 pontos para 54,8 pontos no mesmo período.
- Esses números são condizentes com uma expansão mais forte da atividade produtiva, em linha com a primeira prévia do Produto Interno Bruto americano do terceiro trimestre, que acelerou sua taxa anualizada de crescimento trimestral de 2,2% para 3,4%, impulsionado pela elevação do consumo e do investimento.
Taxa de crescimento trimestral anualizada do PIB americano

Fonte: U.S. Bureau of Economic Analysis (BEA), Federal Reserve Bank of St. Louis. Elaboração: StoneX.
Eleições legislativas nos EUA
Impacto esperado na taxa de câmbio do real: baixista
Adicionalmente, investidores devem monitorar as eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos (“midterms”), que pode terminar com o partido Democrata assumindo o controle tanto da Câmara quanto do Senado.
- De acordo com pesquisas de intenção de voto, os Democratas possuem chances superiores a 90% de conquistar a maioria da Câmara dos Representantes e de cerca de 65% de conseguir a maioria do Senado.
- Essa nova configuração do Legislativo pode resultar em bloqueios à agenda econômica do presidente americano, Donald Trump, do partido Republicano, bem como em novas regulamentações desfavoráveis ao rápido avanço das tecnologias de inteligência artificial.
Por que isso é importante: Freios aos gastos públicos ou ao setor de tecnologias de inteligência artificial podem desacelerar o crescimento econômico americano, diminuindo a atratividade de investimentos no país e prejudicando o desempenho global do dólar.

TABELA DE INDICADORES ECONÔMICOS

Fontes: Banco Central do Brasil; B3; IBGE; Fipe; FGV; MDIC; IPEA e StoneX cmdtyView.