Ao longo dos últimos meses, um ponto que tem atraído a atenção do mercado e que é um dos responsáveis pela elevada volatilidade dos grãos é o conflito entre Ucrânia e Rússia. A região do Mar Negro é de grande importância para diversas commodities, e os danos causado à logística, infraestrutura e produção da Ucrânia já afetaram, direta ou indiretamente, o nível de preços e a oferta de produtos em diversos países.
Mais recentemente, foi viabilizado um acordo entre Ucrânia e Rússia intermediado pela ONU e a Turquia para a criação de um corredor de exportação ucraniano pelo Mar Negro. Sua assinatura foi motivo de grande euforia, visto que contribuiria para um aumento na oferta global de grãos, o que poderia aliviar os preços e a preocupação relacionada à disponibilidade de alimentos em algumas regiões, com destaque para o norte da África e o Oriente Médio, que dependem significativamente de cereais importados da Ucrânia.
Contudo, mesmo com a assinatura, um grande nível de incerteza rondava o mercado, já que muitos ainda se questionavam se a Rússia realmente iria cumprir o acordo. No dia 23 de julho, em menos de 24 horas após a assinatura do tratado, a Rússia atacou a cidade portuária de Odessa, na Ucrânia, já violando um dos termos do acordo, que determinava a passagem segura de qualquer navio carregado com grãos que saísse de três portos da Ucrânia, dentre eles o de Odessa.
Apesar do ataque, os preparativos para as exportações continuaram sendo realizados e, no dia 1º de agosto, a primeira embarcação com cereais saiu da Ucrânia, após o início do conflito com a Rússia. O navio possuía como destino o Líbano, mas a operação não foi concluída, visto que o comprador se recusou a receber o produto, alegando um atraso de mais de 5 meses em sua entrega. Foi relatado que o ofertante estava procurando um novo comprador na região do Oriente Médio e Norte da África e agora está a caminho de um porto ucraniano.
Contudo, mesmo com essas adversidades iniciais, a questão dos embarques ucranianos tem apresentado um desenrolar mais otimista e o ritmo das exportações pelo Mar Negro têm avançado. É verdade que o volume observado até então ainda é bem inferior ao registrado antes do conflito, mas à medida que novas embarcações deixam os portos da Ucrânia e não se têm registros de descumprimento do acordo, cresce a esperança de que o país possa retomar o importante papel que detinha no mercado internacional de grãos.
Até a manhã de terça-feira (dia 23), 33 cargueiros deixaram os portos ucranianos sob o acordo com a Rússia, transportando 720 mil toneladas de produtos alimentícios, volume muito abaixo do potencial do país, lembrando que ainda tem muito produto que deixou de ser exportado após o início da guerra e que está entrando uma safra nova no mercado. Até essa data, havia ainda 18 navios carregando ou esperando autorização nos portos ucranianos.
Desde o início do conflito, a Ucrânia procurou escoar sua produção para o mercado externo por rotas alternativas à marítima, pelo Mar Negro. Contudo, os volumes embarcados caíram consideravelmente pós 24 de fevereiro. Em junho e julho, período que antecede a entrada da safra nova no mercado e quando usualmente as exportações estão mais baixas, os embarques de milho e óleo de girassol até registraram bons volumes, utilizando-se vias alternativas. Já as exportações de trigo continuaram bastante reduzidas.
No caso do milho, as exportações entre janeiro e julho de 2022 somam 13,8 milhões de toneladas, contra média para o mesmo período em 18,6 milhões. Destaca-se que em janeiro e fevereiro deste ano as exportações do cereal ucraniano estavam muito aquecidas, superando o registrado em 2021 e a também a média.
Exportações mensais de milho - Ucrânia (mil toneladas)
Fonte: Bloomberg. Elaboração: StoneX.
Para o trigo, as exportações nos sete primeiros meses de 2022 alcançam 3,2 milhões de toneladas, contra média dos últimas três anos no mesmo período em 6,1 milhões. Assim como no caso do milho, em janeiro e fevereiro, os embarques do cereal estavam bastante aquecidos. É importante observar, também, que de agosto a novembro é o período de maiores exportações de trigo. Assim, é preciso acompanhar o andamento dos embarques nos próximos meses, mas que ainda devem ficar aquém do usual.
Exportações mensais de trigo - Ucrânia (mil toneladas)
Fonte: Bloomberg. Elaboração: StoneX.
Para o óleo de girassol, a situação é semelhante. Foram embarcadas 2,1 milhões de toneladas entre janeiro e julho deste ano, contra média entre 2019 e 2021 de 3,7 milhões. No caso do óleo vegetal os maiores volumes tendem a ser embarcados no último trimestre do ano e também em janeiro.
Exportações mensais de óleo de girassol - Ucrânia (mil toneladas)
Fonte: Bloomberg. Elaboração: StoneX.
Assim, com a manutenção do acordo de passagem segura pelo Mar Negro, é preciso acompanhar os volumes que serão embarcados nos próximos meses, quando a oferta ucraniana estará maior.