Apesar das perdas de safra na América do Sul estarem atualmente no centro das atenções, o planejamento da safra de primavera dos EUA, que vai ser semeada a partir de abril, também está no radar do mercado.
Um dos indicadores sempre acompanhado é o ratio entre os preços da soja e do milho na CBOT, que sinalizaria para o produtor qual a cultura com maior rentabilidade, podendo indicar migrações de área entre os grãos. O indicador representa a relação entre as cotações das duas commodities, sendo sempre acompanhado entre os meses de dezembro e março, período de tomada da decisão de plantio. Historicamente, observa-se a relação entre o contrato de novembro da soja e o de dezembro do milho, que representam o preço da entrada da safra no mercado, após a colheita. Um ratio mais elevado (acima de 2,35/2,4) indicaria um retorno mais vantajoso da soja em comparação ao milho. Já uma relação mais baixa seria favorável a uma ampliação da área do cereal. É importante destacar que esse nível de referencial de ratio pode variar ao longo dos anos, em decorrência dos custos de produção, da produtividade etc. Numa séria histórica longa, observa-se que os ratios tendem a oscilar ao redor de 2,5.
Durante a maior parte de 2021, os ratios ficaram em patamares mais elevados, com os preços da soja ganhando sustentação nas perspectivas de estoques limitados nos EUA. Contudo, esse cenário se alterou a partir de setembro passado, com os EUA colhendo uma excelente safra e com as exportações de soja mais baixas do país. Além disso, a situação do balanço de milho também não é tranquila, oferecendo suporte aos preços do cereal. Mais recentemente, os ratios voltaram a subir, situando-se acima de 2,4, com destaque para as quebras de safra na América do Sul. Esse patamar não ofereceria grande “vantagem” a nenhuma das duas commodities, mas é preciso destacar que a situação atual de perdas da soja é mais preocupante, uma vez que o Brasil colhe a maior parte do milho na safrinha. Por outro lado, é sempre bom lembrar que o produtor norte-americano tem tradição no cultivo do milho e gosta de plantar o cereal, o que acaba conferindo certa predileção, mesmo em momentos em que os ratios não estão favorecendo essa escolha.
Ratios entre a soja e o milho na CBOT (SX2/CZ2)
Fonte: CME. Elaboração: StoneX.
Além do fator rentabilidade, traduzido através dos ratios, para este ciclo 22/23, para tomar sua decisão, o agricultor também precisa levar em conta a questão dos custos de produção, especialmente dos fertilizantes. Por ser uma cultura mais dependente do uso de adubos para o bom desenvolvimento, o milho historicamente demanda uma despesa mais elevada para sua produção, uma grande desvantagem neste momento em que as relações de troca se encontram em níveis bastante degradados para os agricultores. De acordo com o USDA, para a soja, historicamente os fertilizantes representam cerca de 6% dos custos de produção, para o milho esta representatividade sobe para cerca de 17%.
Ao longo dos últimos meses, as cotações dos fertilizantes registraram forte escalada de preços, aproximando-se das máximas históricas no início deste ano. No entanto, no que tange o fator de competitividade entre milho e da soja atualmente, os fertilizantes nitrogenados deverão ser o ponto de atenção para a safra de primavera do ciclo 22/23 nos Estados Unidos.
As aplicações de nitrogenados, por sua vez, são essenciais para a semeadura do milho, diferentemente da soja, que fixa o nitrogênio naturalmente pelo solo. Apenas no segundo semestre do ano passado, o indicador de preço da ureia na região do Golfo dos EUA chegou a saltar 80%, cotado atualmente a US$590/tonelada, 56% mais caro que há um ano. Vale ressaltar que, desde a virada do ano, a ureia vem sofrendo correções importantes, de todo modo, as relações de troca seguem em patamares bastante elevados e ruins para o agricultor.
Relação de troca entre ureia e milho nos EUA (tonelada de milho/tonelada de ureia)
Fonte e elaboração: StoneX.
Quando se observa o mercado de P, por exemplo, importante para a semeadura da soja, a situação é também de preços mais elevados, mas em magnitude menos acelerada se comparado aos nitrogenados. O DAP nos EUA registrou alta de 19% no segundo semestre de 2021, sendo precificado na região de US$ 738/tonelada CFR na primeira semana deste mês. O agricultor deve encontrar, assim, preços 33% maiores se comparados a fevereiro/21, uma situação menos alarmante se comparado a ureia.
Considerando a necessidade nutricional de cada cultura, e o comportamento de preços dos fertilizantes nos últimos meses, há um incentivo econômico para o plantio da soja, ao menos sob a ótica dos custos de produção. Com o desenrolar da escalada de preços dos fertilizantes no ano passado, muito se discutiu sobre a possibilidade de substituição de área de milho por soja na próxima safra americana, no entanto, como foi discutido, essa decisão depende de diversas outras variáveis, como o próprio preço das commodities, o ratio e fatores culturais intrínsecos em cada região.
De qualquer forma, apesar de que as discussões sobre a área norte-americana ainda vão permanecer por bastante tempo, a situação de um balanço mundial sem muita folga tanto para a soja quanto para o milho deve direcionar uma área plantada que tenha potencial de evitar grandes racionamentos pelo lado da oferta.
Considerando a situação atual, em que a quebra na América do Sul preocupa mais para a soja (que tem a produção extremamente concentrada), que para o milho, os EUA precisariam plantar cerca de 90 milhões de acres (36,4 milhões de hectares) de soja e 91 milhões de acres (36 milhões de hectares) de milho para amenizar os problemas no sul do continente. O que significaria um crescimento da área da oleaginosa e uma queda para o cereal, em relação ao ano passado. Além disso, é preciso assumir que as produtividades ficariam dentro da média histórica. No ciclo passado, foram semeados 93,4 milhões de acres de milho e 87,2 de soja no país, segundo o USDA.