No final de março, o USDA divulgou seu relatório de Intenções de Plantio, que trazia as primeiras estimativas baseadas em informações qualitativas, coletadas junto aos produtores. Os números foram surpreendentes, com uma área esperada para a soja em 2022/23 de 36,8 milhões de hectares, consideravelmente acima das expectativas médias do mercado, de 35,9 milhões, e de 36,2 milhões de hectares para o milho, 1 milhão a menos que o esperado pelo mercado.
É verdade que o levantamento das intenções de plantio foi realizado em um período que não captou totalmente o conflito entre Rússia e Ucrânia. Desde o final de fevereiro, quando a guerra teve início, os preços do milho em Chicago avançaram proporcionalmente mais que os da soja, o que favoreceria o cereal em relação à oleaginosa ao se comparar as cotações em Chicago dos vencimentos para o final de 2022, quando a safra nova norte-americana entrará no mercado.
Em meio a um cenário de grande incerteza, com a quebra da safra 2021/22 de soja na América do Sul e o conflito entre Rússia e Ucrânia impactando a disponibilidade de milho e trigo, o andamento da safra norte-americana será outra questão que poderá trazer mudanças para a área final dos grãos no país no ciclo 2022/23. Desse modo, o mercado vem acompanhando cada vez mais de perto as questões climáticas e o avanço do plantio dos cultivos de primavera nos EUA, já que pode haver migrações de última hora entre as culturas.
Neste período inicial de trabalho de semeadura da soja e do milho nos EUA, o clima mais chuvoso e frio em partes importantes do país não tem favorecido o avanço da semeadura dos grãos, em especial do cereal. O plantio da soja alcançou 8% até o dia 1º de maio, 5 p. p. abaixo da média de 5 anos e 14 p. p. a menos que o registrado um ano antes. No caso do milho, o atraso observado é ainda mais acentuado. Até o início deste mês, 14% da área do cereal havia sido semeada, 19 p. p. a menos que a média de 5 anos e 28 p. p. abaixo do observado no mesmo período de 2021.
Assim, esses atrasos trazem mais indefinição para a área final dos grãos norte-americanos. Caso o plantio do cereal continue atrasado, é possível que haja algum incentivo ao redirecionamento de parte da área destinada ao milho para a semeadura da soja, visto que a janela ideal de plantio da oleaginosa se encerra um pouco após o final do período ideal para o cereal.
Períodos* de plantio de milho e soja por estado - EUA
Fonte: USDA. *Obs: As janelas de plantio podem ter variações de alguns dias e também relacionadas a áreas diferentes de cada estado.
Modelos climáticos apontaram para um clima mais favorável ao avanço do plantio de grãos nos EUA na primeira semana de maio. Desse modo, o acompanhamento de safra divulgado pelo Departamento nesta segunda-feira, 09 de maio, será muito importante, já que informará se o ritmo do plantio no país realmente foi beneficiado durante a última semana.
Não só a questão climática nos EUA, mas também fundamentos de O&D em importantes players deverão continuar afetando a dinâmica dos preços dos grãos, o que pode provocar avanços na área destinada aos grãos como um todo e/ou a reconfiguração da área direcionada a cada cultura.
O conflito no Mar Negro e seus impactos sobre a logística e o plantio da safra 2022/23 de primavera, deve continuar influenciando o mercado e, consequentemente, ainda pode gerar alguma mudança na decisão de plantio dos agricultores norte-americanos. Além disso, a preocupação com o aumento dos casos de covid-19 na China e um impacto negativo sobre a economia do país, assim como as baixas margens de esmagamento e da suinocultura trazem alguns questionamentos sobre a demanda chinesa por grãos. Nesse sentido, como as importações do país têm uma relevância muito maior no mercado internacional da soja do que do milho, a percepção de uma menor demanda chinesa poderia favorecer o plantio do cereal nos EUA neste caso. Não se pode deixar de comentar também sobre a segunda safra 2021/22 de milho no Brasil, que, apesar de apresentar estimativa de produção recorde, também está cercada de incertezas, visto que a falta de chuvas na região Centro-Oeste pode impactar de foram relevante seu desempenho.
Outro ponto que vem sendo acompanhado é a situação do mercado mundial de óleos vegetais, que já não estava com uma situação tranquila e o conflito na Ucrânia traz muitas dúvidas pelo lado da oferta, uma vez que o país, juntamente com a Rússia, é o principal produtor e exportador de óleo de girassol. Além disso, diante da escalada inflacionária ao redor do mundo, a Indonésia baniu as exportações de óleo de palma, lembrando que o país é o maior produtor e exportador mundial. Não se sabe até quando essa medida ficará em vigor, mas essas questões dos óleos vegetais acabam sendo um fator positivo para se plantar mais soja.