Exportações de óleo de soja tendem a cair e esmagamento deve continuar crescendo
Desde a implementação da mistura obrigatória de biodiesel no diesel no Brasil, a cadeia do biocombustível vem apresentando uma constante evolução. Os avanços mais expressivos da mistura obrigatória, que saíram do B3 (3% de mistura do biodiesel) em 2008, para fechar 2023 com um B12, provocaram uma evolução significativa na produção. Nos últimos dez anos, a produção de biodiesel saiu de 2,9 milhões de m³ em 2024 para totalizar cerca de 7,4 milhões de m³, um crescimento de 156%.
Após uma redução dos mandatos em função da desaceleração econômica causada pela pandemia e da elevação dos preços dos óleos vegetais e seus impactos inflacionários, o retorno da evolução da mistura junto de um desempenho recorde nas vendas de diesel B promoveram forte aumento da demanda e produção em 2023, padrão que deve se estender para 2024. De acordo com as estimativas da StoneX, a demanda por biodiesel deve fechar 2023 em cerca de 7,3 milhões de m³, avanço anual de 18,3%. Já 2024, com o novo mandado para o B14 a partir de abril, junto de um provável novo recorde nas vendas de diesel B, espera-se um crescimento anual de 20,3% na demanda por biodiesel, chegando a 8,8 milhões de m³.

O crescimento do uso e produção de biodiesel exigiu ao longo da última década a expansão da disponibilidade de matérias-primas para este fim, e, nesse contexto, o óleo de soja conquistou cada vez mais espaço. Devido a sua ampla disponibilidade, o óleo de soja passou de um uso para biodiesel de 880 mil toneladas em 2012 para cerca de 5,7 milhões no ano passado. Já para o consumo de 8,8 milhões de m³ de biodiesel que estimamos em 2024, o uso do óleo deve marcar um avanço de mais 28,9%, devendo chegar a 7,3 milhões de toneladas em 2024. A participação do óleo de soja como matéria-prima para o biodiesel saiu de 29% em 2012 para ser responsável por mais de 82% de toda a produção do biocombustível no Brasil, podendo atingir até 89% neste ano. Diante do aumento esperado da produção de biodiesel, o óleo de soja é a matéria-prima que pode mais facilmente fazer frente a esse crescimento, ampliando sua participação no total.

O aumento do uso do óleo para o biodiesel contribuiu para impulsionar também o esmagamento da soja em grão, que resulta em farelo e óleo vegetal, com o aumento da mistura obrigatória sempre trazendo questionamentos sobre os impactos no processamento da oleaginosa.
Considerando que serão necessárias 7,3 milhões de toneladas de óleo de soja, para a produção de biodiesel em 2024, o esmagamento de soja somente para atender o biocombustível ficaria em 36,6 milhões de toneladas, ou 67% da expectativa de processamento da soja no Brasil em 2024, estimada pela StoneX atualmente em 54,5 milhões de toneladas.
Mesmo assim, é importante destacar que o aumento da mistura de biodiesel não tem um impacto linear no aumento do esmagamento. Espera-se que o consumo de óleo de soja para biodiesel cresça 28,9% de 2023 para 2024, com a mistura obrigatória subindo para 14%, mas não significa que o esmagamento avançará na mesma proporção.
Outros fatores devem ser considerados ao se olhar para os impactos do aumento da mistura de biodiesel no esmagamento de soja.
Primeiramente, é importante considerar que o Brasil tem exportado bastante óleo de soja nos últimos anos, com os embarques atingindo o volume de 2,3 milhões de toneladas em 2023, abaixo do alcançado em 2022, quando ficou em 2,6 milhões. Destaca-se que o país registrava volumes de embarques de óleo de soja acima de 2 milhões de toneladas por ano antes da implementação da mistura obrigatória de biodiesel nos anos 2000. Entretanto, com o aumento da produção do biocombustível, as exportações do óleo vegetal passaram a ficar mais baixas, situação que deve se repetir em 2024, com uma maior proporção sendo direcionada ao mercado interno. Considerando que o consumo de óleo para biodiesel deve crescer 1,6 milhão de toneladas em 2024, para atender o aumento da mistura obrigatória, o volume que o país exporta seria mais que suficiente para fazer frente a esse incremento de demanda. Além do mais, o Brasil vai voltar a enfrentar uma maior concorrência da Argentina no mercado exportador de óleo de soja, com a recuperação da safra do país no ciclo 2023/24.

De qualquer forma, não se espera que esse aumento do uso de óleo de soja será atendido totalmente pelos volumes que iriam para exportação. A expectativa é de crescimento do esmagamento, como vem sendo tendência nos últimos anos, mas não na mesma proporção que o aumento do uso do óleo no setor de biocombustíveis. Ademais, é preciso monitorar a disponibilidade de soja neste ano, uma vez que a produção vai ser menor que o esperado, devido às questões climáticas, havendo uma maior “competição” pelo grão. As exportações tendem a ser afetadas mais diretamente, em meio à menor disponibilidade, mas uma oferta menor também poderia ser um fator limitante para o avanço do consumo doméstico.
Independentemente do número final de esmagamento em 2024, o cenário de aumento da mistura é positivo para o consumo doméstico de soja, num ano em que o Brasil deve caminhar para um balanço de oferta e demanda mais restrito do grão, em meio às perdas de safra.



