Desde o final do ano passado, uma das principais questões que tem ocupado o centro das atenções no mercado brasileiro de milho é a incerteza em relação à primeira safra 2021/22. Por mais que ela tenha registrado um início bastante promissor, com bons volumes de chuvas ao longo de setembro e outubro e um rápido avanço do plantio, as perspectivas atuais já não são mais tão otimistas para sua produção.
O baixo volume e a irregularidade das precipitações no Sul do Brasil nos últimos dois meses de 2021, justamente em momentos cruciais para o desenvolvimento do cereal, prejudicou consideravelmente a primeira safra na região. Desse modo, após chegar a estimar a produção da safra de verão em 30,4 milhões de toneladas no início de novembro, a StoneX reduziu seu número para 26,8 milhões de toneladas no início de janeiro, uma queda de 11,9% em relação ao estimado antes dos problemas com a estiagem.
Evolução da produção da primeira safra de Milho no Brasil (milhões de toneladas)
Fonte: StoneX e Conab. *Estimativa StoneX.
Por mais que a safra de verão seja bem menor em comparação com a de inverno, ela é de grande importância para a disponibilidade do cereal na primeira metade do ano, epecialmente após temporadas marcadas pela quebra da safrinha, como foi a safra 2020/21, cuja produção no inverno ficou em 59,2 milhões de toneladas, enquanto as estimativas iniciais da StoneX apontavam para um volume acima de 82 milhões de toneladas.
Simplificadamente, a oferta de milho no primeiro semestre é composta pelo estoque de passagem e pelo colhido na primeira safra do cereal. Com isso, se a disponibilidade do milho no primeiro semestre de 2022 estava estimada anteriormente em 42,7 milhões de toneladas (12,25 milhões de estoques iniciais em 2021/22 + 30,4 milhões de produção da primeira safra 2021/22), atualmente, está estimada em 36,6 milhões de toneladas (9,8 milhões de estoques iniciais em 2021/22 + 26,8 milhões de produção da primeira safra 2021/22).
Se compararmos a situação atual com a observada no primeiro semestre de 2021, pode-se até ter a impressão de que o cenário seja levemente melhor atualmente, já que a disponibilidade do cereal no período ficou estimada em 36,4 milhões de toneladas (10,6 milhões de estoques iniciais em 2020/21 + 25,8 milhões de produção da primeira safra 2020/21).
Disponibilidade de milho no Brasil no 1º semestre (milhões de toneladas)
Fonte: StoneX e Conab. *Estimativa StoneX.
Porém, ao incorporarmos o lado da demanda na análise, fica mais evidente o maior aperto neste semestre em comparação com o mesmo período do ano anterior. Como as exportações brasileiras se concentram no segundo semestre, quando o produto obtido da safrinha entra no mercado, iremos fazer uma simplificação e considerar apenas a demanda doméstica para ilustrar o balanço no primeiro semestre.
Aqui faremos outra simplificação. Supondo que o consumo doméstico é igual nos dois semestres, teríamos um consumo de 37,75 milhões de toneladas na primeira metade de 2022 (considerando a estimativa atual da StoneX de 75,5 milhões para a temporada 2021/22), contra um consumo de 35,75 milhões no primeiro semestre de 2021.
Desse modo, a diferença entre a disponibilidade do cereal e o consumo doméstico na primeira metade deste ano ficaria em -1,1 milhão de toneladas, enquanto no ano passado, essa diferença ficou em +0,6 milhão de toneladas.
Disponibilidade de milho vs. demanda doméstica no Brasil no 1º semestre (milhões de toneladas)
Fonte: StoneX e Conab. *Estimativa StoneX.
Assim, em meio à expectativa de uma produção menos robusta – sendo que novos cortes não estão fora de cogitação, dada a continuidade do clima seco na região Sul ao longo de janeiro – a tendência é de que os preços continuem sustentados no país, ao menos até a entrada da próxima safrinha no mercado, o que só ocorrerá em meados do ano.
Além do impacto sobre os preços, esse balanço mais apertado de oferta de demanda pode impactar também as importações brasileiras. A incerteza em relação à produção da safra de verão tem começado a levantar questionamentos sobre uma maior necessidade de importação do cereal nesses próximos meses. No primeiro semestre do ano passado, o Brasil importou 0,9 milhão de toneladas e não seria nenhuma surpresa caso o país registrasse um maior volume de compras ao longo desses próximos meses.