Com a colheita avançando, a safra norte-americana continua sendo acompanhada de perto, com novas estimativas ainda por vir. Ao mesmo tempo, o balanço de oferta e demanda 2020/21 caminha para sua consolidação, com o relatório do USDA de outubro devendo trazer novos ajustes, além de incorporar o resultado da posição trimestral dos estoques em 01/09/2021, divulgada no dia 30 de setembro.
Soja
Para a soja, a posição dos estoques ficou em 6,97 milhões de toneladas, nível consideravelmente acima da média das expectativas do mercado, que estavam em 4,74 milhões, e também da última estimativa do USDA, uma vez que esse resultado equivale aos estoques finais da safra 2020/21.
Contudo, não foi o resultado dos estoques em si que foi o mais surpreendente, mas o motivo desse aumento, já que houve a revisão da produção, com um aumento de 2,2 milhões de toneladas, ficando em 114,75 milhões de toneladas.
A tendência de queda dos preços da soja em Chicago nos últimos meses já era um sinal de que o balanço de oferta e demanda dos EUA poderia não estar tão apertado como vinha sendo estimado. Contudo, a falta dessa informação, de que a produção foi maior que o esperado, também afetou o comportamento do mercado. Por exemplo, os níveis esmagados de soja ficaram abaixo do esperado em vários meses, o que indica um certo racionamento em meio às perspectivas de baixa disponibilidade.
Considerando esse nível de estoques finais para a safra 2020/21, que também reforçariam a oferta do ciclo 2021/22, observa-se que, mesmo sem mudanças em variáveis de demanda, que ainda podem passar por ajustes consideráveis, a situação do balanço de oferta e demanda norte-americano não fica exatamente folgada, com uma relação estoque uso ao redor dos 6%.
Estoques finais de soja e relação Estoque/Uso nos EUA
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX. *Estimativa.
Como a produção e o consumo mundial de soja são muito concentrados em poucos países, qualquer mudança pode alterar essa disponibilidade maior de soja norte-americana. Atualmente, por exemplo, a safra da América do Sul passa a ser central, com possibilidade de ocorrência de La Niña. Além disso, o USDA está com uma estimativa de produção para a Argentina, em 52 milhões de toneladas, mais otimista em comparação ao divulgado por instituições do país, com previsões abaixo de 50 milhões, com continuidade da queda da área plantada.
Pelo lado da demanda, as possibilidades de alterações nas estimativas também são significativas. Por exemplo, as vendas de exportação dos EUA estão consideravelmente mais fracas que no mesmo período do ano passado, com destaque para menores volumes de compras da China. Além disso, a preocupações com o consumo de ração no país asiático, em meio aos preços baixos dos suínos.
Outro ponto muito importante é o mercado de biocombustíveis, com possíveis mudanças na mistura obrigatório nos EUA, além de cortes em outros países, em meio aos preços fortalecidos dos óleos vegetais.
Milho
No caso do milho, a posição trimestral dos estoques ficou em 31,4 milhões de toneladas, nível também mais baixo que a média das expectativas do mercado, em 29,21 milhões, e próxima ao limite superior do intervalo das estimativas, que variavam entre 25,35 e 31,80 milhões de toneladas. Assim como no caso da soja, foi a revisão da produção 2020/21, com ajustes de área e produtividade, que condicionou esses estoques mais elevados para o final do ciclo.
Além de virem acima do esperado pelos agentes, os estoques finais superaram a estimativa do WASDE de setembro em 1,26 milhão de toneladas, ou 4,2%. Ainda assim, não se pode dizer que a situação do balanço norte-americano está exatamente folgada, visto que esse é o menor estoque final desde a safra 2013/14, quando o número foi de 31,29 milhões.
Com os estoques de passagem um pouco mais confortáveis, e mantendo as estimativas de setembro O&D do USDA para a safra 2021/22 dos EUA, espera-se também que o balanço norte-americano fique menos apertado ao final desta temporada, com os estoques finais alcançando 37,03 milhões de toneladas. Porém, novamente, é importante reforçar que, mesmo crescendo, o cenário para o balanço ainda não é “tranquilo”, com a relação estoque/uso se mantendo ao redor dos 9%, nível que usualmente indica bastante volatilidade no mercado.
Estoques finais de milho e relação Estoque/Uso nos EUA
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX. *Estimativa.
A safra 2021/22 ainda está em seu início e muita coisa ainda pode acontecer, não podendo se descartar expressivas mudanças no balanço norte-americano. Por mais que com o avanço da colheita nos EUA a produção fique menos sujeita alterações, o lado da demanda não está definido.
Da mesma forma que a China passou a adquirir expressivos volumes do milho norte-americano na safra 2020/21, o oposto pode acontecer. Por mais que as estimativas do USDA indiquem que o país importará 26 milhões em 2021/22, mesmo patamar de 2020/21, os EUA deverão enfrentar uma maior concorrência da Ucrânia, que deverá registrar uma safra expressivamente mais robusta que na última temporada, muito prejudicada pela seca na região do Mar Negro.
Outro fator, ainda envolvendo a China, é o receio de uma possível redução na demanda por milho para ração no país. Os preços e as margens de suínos na China se encontram em níveis muito baixos, o que pode desestimular o uso do cereal na alimentação dos animais.
Outra questão que pode impactar o mercado é uma mudança na política de biocombustíveis nos EUA. O setor de etanol é responsável por grande parte do consumo do milho norte-americano e uma revisão do RFS poderia gerar um expressivo impacto na demanda pelo cereal.