A não renovação do acordo de exportações pelos portos do Mar Negro e o ataque a estruturas no Rio Danúbio, importante rota para as exportações ucranianas, aumentaram as preocupações com o abastecimento mundial de cereais (principalmente trigo e milho) e com possíveis reflexos inflacionários. Para o mercado de óleos vegetais, a situação dos embarques do óleo de girassol também preocupa, já que a Ucrânia se destaca mundialmente.
As notícias indicam que as exportações via Rio Danúbio não devem sofrer maiores prejuízos devido ao ataque ocorrido, mas essa ação abre um precedente, já que essa via não tinha sido afetada desde o início da guerra, em fevereiro de 2022.
Por outro lado, a falta do corredor de exportações pelo Mar Negro preocupa mais. O Acordo Iniciativa de Grãos, que entrou em vigor em julho de 2022, foi fundamental para manter os níveis de exportação da Ucrânia (no acumulado anual) em níveis próximos aos que eram registrados antes da guerra.
Quando o conflito começou, especulava-se qual seria o impacto não somente nas exportações ucranianas, mas também na produção do país. Realmente, houve uma queda importante da produção: a safra de milho caiu de 42 para 27 milhões de toneladas na passagem do ciclo 2021/22 para o 2022/23, enquanto a produção de trigo recuou de 33 para 21,5 milhões e a de girassol passou de 17,5 para 12,5 milhões de toneladas, segundo dados do USDA. Contudo, as perspectivas para as exportações não apontavam para uma queda expressiva, com o país recorrendo aos estoques para manter seu nível de embarques na safra 2022/23. Por outro lado, para a safra 2023/24, além de as estimativas indicarem mais um recuo da produção de milho e trigo, as exportações também cairiam em decorrência da menor disponibilidade dos grãos ucranianos. Para o girassol, o USDA estima uma estabilidade da produção de girassol e óleo no ciclo 2023/24.


Além da disponibilidade de estoques para garantir os volumes exportados no ciclo 2022/23, a recuperação das quantidades embarcadas foi condicionada pela possibilidade de se utilizar os portos marítimos do Mar Negro. Sob a vigência do acordo, foram embarcadas desde julho de 2022, quase 17 milhões de toneladas de milho, cerca 8,9 milhões de trigo e 1,65 milhão de toneladas de óleo de girassol, volumes que complementaram o que foi exportado por outras vias, destacando-se a do Rio Danúbio.




Assim, por mais que se espere que a produção de milho e trigo na safra 2023/24 continue caindo, assim como as exportações, já que não há estoques tão relevantes para garantir embarques semelhantes aos registrados antes da guerra, a falta da opção de se usar os portos do Mar Negro é o que mais preocupa em termos de escoamento dos produtos ucranianos.
Diante desse cenário, o mercado passou a olhar também para as alternativas, que poderiam “substituir”, pelo menos parcialmente, os cereais da Ucrânia.
Por exemplo, no caso do trigo, a situação do equilíbrio do balanço de oferta e demanda mundial tenderia a se agravar consideravelmente caso a Rússia, maior exportadora do cereal, não consiga escoar sua produção. Atualmente, o trigo russo está com preços baixos, e tem registrado descontos significativos em relação ao cereal norte-americano, mesmo com a alta recente.
Já a safra brasileira recorde de milho, que está pesando sobre os preços domésticos, seria uma alternativa de origem aos importadores, pois além da elevada disponibilidade, é uma fonte mais estável atualmente em relação à Ucrânia.
De qualquer forma, mesmo havendo algumas alternativas para os importadores originarem o que necessitam fora da Ucrânia, o país é um player muito importante no mercado mundial de grãos e óleos vegetais e o tamanho de suas exportações e produção continuarão sendo acompanhadas de perto. Uma preocupação que voltou a ganhar força é a questão inflacionária, uma vez que a queda dos preços das commodities agrícolas, muito ajudada pelo Acordo Iniciativa de Grãos, foi um fator relevante para o arrefecimento dos preços.


