A China possui uma grande importância no mercado global de commodities, sendo a principal importadora de diversos produtos agropecuários. Desse modo, o nível de atividade econômica chinesa e sua demanda são sempre fatores cruciais para o mundo, principalmente para os países que mais fornecem para a gigante asiática.
Desde o início da pandemia, a China tem adotado medidas muito restritivas para conter o avanço do coronavírus, o que, por diversas vezes, impactou negativamente a economia do país, trazendo preocupações em relação às importações chinesas para o mercado. Recentemente, o Departamento de Alfândegas da China (GAAC, sigla em inglês) divulgou seus dados de maio, que serão abordados no decorrer deste material.
Soja
Assim como pelo lado da oferta, a demanda de soja também é muito concentrada, com destaque para a China, país que já chegou a importar quase 100 milhões de toneladas da oleaginosa no ciclo 2020/21.
Já na safra 2021/22 as compras chinesas estão sendo acompanhadas ainda mais de perto, uma vez que o país adota uma postura muito restritiva no combate à Covid-19, colocando um grande número de pessoas em confinamento sempre que surgem novos casos, além de as vendas dos EUA com destino ao país asiático estarem consideravelmente atrás do registrado no ciclo anterior.
As importações de soja da China nos dois primeiros meses do ano safra 2021/22 (outubro e novembro de 2021) ficaram consideravelmente mais baixas que um ano antes, em 13,7, contra 18,3 milhões de toneladas. Nos meses seguintes, houve uma recuperação, mas ao se considerar o acumulado entre outubro de 2021 e maio de 2022, o país recebeu 60,6 milhões de toneladas do exterior, frente a 64 milhões no ano anterior.
Esse resultado não traria preocupações, ao se levar em conta que as estimativas de importação para o ano safra 2021/22 como um todo estão mais baixas que os 99,7 milhões de toneladas registrados em 2019/20. O USDA estima as importações chinesas em 92 milhões de toneladas. Além disso, no ciclo 2019/20, até maio, a China tinha importado 57,9 milhões de toneladas e encerrou o ano safra com um total recebido de 98,5 milhões.
Contudo, o contexto atual é diferente. Por mais que a China tenha relaxado as medidas de confinamento em Xangai e outras localidades, a política de tolerância zero contra a Covid-19 continua e, mesmo com esse relaxamento, há dúvidas sobre o desempenho da economia do país.
No complexo de soja, com a demanda mais fraca, as margens de esmagamento chinesas passaram para o campo negativo e as margens da indústria de suínos constantemente também registram desempenho fraco. Além disso, os estoques de farelo de soja estão elevados.
Assim, a demanda do país está no centro das atenções, com qualquer indício que aponte para um desempenho pior que o esperado afetando negativamente os preços internacionais da soja.
Importações mensais de soja - China (milhões de toneladas)
Fonte: Alfândega Chinesa. Elaboração: StoneX.
Milho
A China, que até a safra 2018/19 (out-set) não era uma grande importadora de milho, começou a mudar completamente sua presença no mercado internacional do cereal a partir de 2019/20. Segundo dados do GAAC, as importações do grão pela gigante asiática passaram de 4,5 milhões de toneladas em 2018/19, para 7,6 milhões em 2019/20 e para 29,5 milhões em 2020/21. Grande parte desse movimento pode ser explicado principalmente por dois fatores. O primeiro foi a ocorrência de problemas na safra doméstica e o segundo foi o aumento da demanda por ração pelo setor da pecuária no país, em especial pela suinocultura. Após os surtos de Peste Suína Africana e a expressiva redução do rebanho de suínos, o governo tem adotado uma política em prol da tecnificação da suinocultura, o que contribuiu para a intensificação da utilização de ração e consequentemente para o aumento da demanda por milho. Além da maior tecnificação, a recuperação do rebanho de suínos também aumentou a demanda pelo cereal, que não foi acompanhada pela produção chinesa, exigindo maiores importações.
Além da variação no volume adquirido, observou-se também uma mudança na origem das importações. Entre as temporadas 2017/18 e 2019/20, a Ucrânia foi a origem de cerca de 80% do milho importado pela gigante asiática, enquanto os EUA tiveram participação média de 14% no período. Contudo, em 2020/21 esse cenário foi radicalmente alterado, com 69% do cereal importado pela China tendo como origem o país norte-americano e 29% o país do leste europeu.
Para compreender a razão dessa mundança na origem do grão, é importante entender que a Ucrânia não costuma manter elevados estoques do cereal, o que dificultaria o suprimento de um aumento repentino da demanda chinesa, fazendo a China intensificar sua relação com outros players. Além disso, em 2020, o país do Mar Negro foi atingido por um clima significativamente mais quente e seco que o usual, resultando em uma expressiva redução da produção ucraniana e do seu excedente exportável, contribuindo para a redução na representatividade do país nas importações da gigante asiática.
Após atingir uma produção recorde em 2021/22, de 42,1 milhões de toneladas segundo o USDA, esperava-se que a Ucrânia poderia voltar a fortalecer seus laços com a China. Contudo, não é isso o que deve acontecer nesta temporada. Apesar de um início promissor, com o país asiático importando 5,7 milhões de toneladas entre outubro de 2021 e abril de 2022, contra 5 milhões no mesmo período da temporada anterior, o conflito no Mar Negro e a disrupção da cadeia logística ucraniana prejudicaram expressivamente as exportações de grãos do país. Em maio (primeiro mês em que observou-se visivelmente um impacto da guerra no volume adentrado de milho na China), apenas 127 mil toneladas do milho ucraniano foram internalizadas pela gigante asiática, contra 1,26 milhão no mesmo período do ano passado.
Por mais que, após o forte aumento das compras chinesas observado nos últimos anos, a tendência é que na temporada 2021/22 o país apresente uma redução em suas importações, o volume não deverá ser baixo, estimado pelo USDA em 23 milhões de toneladas. Para 2022/23, o Departamento estima um volume importado de 18 milhões de toneladas.
Em meio a perspectivas de uma manutenção das importações chinesas em elevados patamares, o governo asiático parece estar adotando estratégias para se proteger de possíveis novos problemas de oferta do cereal. Nesse sentido, vale destacar a assinatura do protocolo fitossanitário para liberar as exportações de milho brasileiro para o país asiático.
A expectativa desse acordo já existia há bastante tempo, mas destaca-se que as exportações não passarão a ocorrer de maneira imediata, pois a China precisa realizar a habilitação de estabelecimentos exportadores e regularizar as variedades de milho permitidas. Já houve relatos de compra do milho brasileiro pela China para entrega em setembro. A informação não foi confirmada por nenhuma fonte oficial, mas pode demonstrar um certo interesse chinês em acelerar os trâmites. O mais provável é que um volume mais intenso de embarques do milho brasileiro com destino à China só comece a ser observado a partir do próximo ano, mas ainda é difícil estimar qual será o volume desses embarques e se haverá alguma mudança na estrutura dos principais fornecedores do cereal para a China.
Importações mensais de milho - China (milhões de toneladas)
Fonte: Alfândega Chinesa. Elaboração: StoneX.
Trigo
A preocupação quanto à capacidade de oferta global de trigo tem sido motivo de comoção de países e organizações mundiais. A forma como os agentes irão se posicionar em meio à busca por rotas comerciais para o trigo continua como centro das atenções desde o início do conflito no Mar Negro e com a intensificação de problemas em relação às condições climáticas ao redor do mundo.
A China foi um importante player pelo lado da demanda desde o início da pandemia de Covid-19, uma vez que marcadamente se preocupa com a segurança alimentar, dada suas proporções territoriais e populacionais. Sua demanda doméstica, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês), cresceu 14% no comparativo entre as safras 2019/20 e a estimativa para a safra 2022/23, passando de 126 para 144 milhões de toneladas. Parte desta demanda reflete no aumento da produção nacional de trigo, com um avanço de 1,4 milhão de toneladas para o mesmo período de comparação.
Apesar de ser o maior país produtor deste grão, a China também tem relevância como importadora, justamente para manter a demanda interna citada. O volume importado no mês de março de 2022 praticamente duplicou em relação ao mesmo período em 2021, passando de 439 mil toneladas para 861 mil toneladas. A média de volume importado indica uma tendência de queda para os próximos meses, mas com ressalvas, uma vez que a atividades econômica chinesas vem sendo retomada com a flexibilização de medidas rígidas para o combate ao vírus.
Em relação aos parceiros comerciais, se destaca a participação da Austrália e Estados Unidos dentre os principais exportadores. A Austrália subiu de quinta para a primeira maior exportadora de trigo, passando a originar aos chineses cerca de 1,9 milhão de toneladas em 2017, para 2,74 milhões de toneladas em 2021 (+44%). Enquanto os Estados Unidos exportavam 1,55 milhão de toneladas em 2017 e alcançaram 2,72 milhões de toneladas em 2021 (+75%). Os demais países inseridos nessa cadeia de suprimento, França, Canadá e Cazaquistão, se mantiveram dentre os cinco principais mercados de exportação para China, apenas perdendo posições para Austrália e Estados Unidos.
Importações mensais de trigo - China (milhões de toneladas)

Fonte: Alfândega Chinesa. Elaboração: StoneX.
Com os recentes lockdowns na China em regiões como Xangai e províncias próximas, entre o final de março e junho deste ano, a atividade do setor têxtil chinês enfrentou dificuldades logísticas que atrasaram a produção. Entre elas, em especial, havia o crescimento dos custos de frete e dos gastos com mão de obra decorrentes das restrições impostas pela política de “Covid zero” no país.
Ademais, atrasos nas entregas de matérias primas e possível queda do consumo de bens derivados da pluma devido à paralisação da circulação de pessoas em cidades com importantes centros urbanos, também contribuíram para uma piora no desempenho da indústria, afetando os níveis de importação do algodão.
Segundo um levantamento da Jiangsu Textile and Apparel Industry Association com dados referentes a abril e maio, período do isolamento das províncias, ao menos 99% das empresas têxteis da região de Jiangsu tiveram um declínio da produção de pelo menos 20%, decorrentes das dificuldades logísticas e de mão de obra dos últimos meses, sendo que por volta de 25% dos entrevistados reduziram a produção pela metade. Apesar de se tratar de uma província, é crível assumir que esses problemas afetem outras regiões, causando impactos semelhantes pelo restante do país.
A partir de dados da balança comercial da China, observa-se que a quantidade de algodão importada em maio (182 mil toneladas) conseguiu superar a média dos últimos 5 anos e o valor registrado em 2021 (+5%). Até então, os níveis de importação da pluma estavam superando a média para o período, mas ainda não ainda não alcançavam o patamar de 2021 (em abril, houve uma queda de 25% da internalização da fibra em relação ao ano anterior e de 15% quando comparado à março). Os dados de maio indicam, assim, uma retomada no ritmo de importações, que provavelmente é resultado do relaxamento progressivo do isolamento em diferentes províncias ao longo do mês, engatilhando a retomada do consumo pelo setor têxtil.
Até o momento, a China importou 972 mil toneladas, e é possível que as importações voltem a crescer ainda mais a partir da flexibilização em junho. Segundo estimativas do USDA para a safra 21/22, a China deve apresentar uma queda na produção do algodão em quase 9% (-500 mil toneladas), o que provavelmente irá impulsionar as aquisições no mercado externo ao longo do ano. Além disso, dados de vendas e exportação de algodão divulgados pelo USDA em junho indicam uma retomada intensa de compras chinesas da safra 21/22 norte-americana, maior ofertante da pluma para o país (58% do market-share em 2022).
Apesar da expectativa da expansão das importações de algodão em 2022, ainda existem incertezas se o montante deve seguir em alta. Entre elas se tem a preocupação com a demanda global e doméstica por produtos derivados da fibra. Não é possível avaliar ainda se o período em isolamento chegou a impactar a renda das famílias - ou outros indicadores sociais como o desemprego - no curto-prazo, mas caso o tenha, é possível que a compra desses bens seja postergada, com os agentes priorizando bens essenciais. Além disso, possíveis novos lockdowns em Beijin e em Xangai decorrentes de aumento do número de casos de Covid-19, podem impactar novamente o setor têxtil e a taxa de internalização.
Importações mensais de algodão - China (mil toneladas)
Fonte: Alfândega Chinesa. Elaboração: StoneX.