Os relatórios de área plantada e posição trimestral dos estoques dos EUA, divulgados no último dia útil de junho, são sempre muito aguardados pelo mercado, além de usualmente movimentarem bastante as cotações dos grãos.
Em 2022, não foi diferente, com um cenário de atrasos no plantio nos EUA, falta de chuvas em algumas regiões, excesso em outras, conflito na Ucrânia, além de o relatório de intenções de plantio, de março ter surpreendido ao trazer uma área maior para a soja em relação ao milho.
Soja
Para a soja, as expectativas eram de um recuo da área plantada em relação a março, mas com uma queda leve, de cerca de 200 mil hectares, frente à estimativa de 36,8 milhões. Contudo, a revisão de junho trouxe a área de soja em 35,7 milhões de hectares, mais de um milhão abaixo do número anterior e voltando a ficar abaixo da área de milho.
É importante destacar que ainda podem ocorrer revisões nessa área, ainda mais nesse ano, já que o USDA deve coletar novamente informações das Dakotas e de Minnesota, estados que mostraram atrasos mais consideráveis no plantio, devido ao excesso de chuvas. Mesmo assim, caso haja alguma revisão para cima, não deve ser muito significativa.
Além disso, por mais que a área seja relevante, é central acompanhar a produtividade, uma vez que pequenas variações têm o potencial de trazer grandes mudanças na produção. No caso da soja, o mês de agosto concentra a maior parte do enchimento de grão dos EUA, fase em que não pode faltar água para as lavouras.
De qualquer forma, ao se incorporar essa menor área plantada no balanço atual do USDA, sem fazer alterações na produtividade e na demanda, o cenário seria de aperto, com os estoques finais em 3,9 milhões de toneladas e uma relação estoque/uso de 3,1%.
Mesmo com a possibilidade de um balanço apertado, com a menor área plantada, as cotações da soja não sustentaram a alta logo após o relatório, uma vez que há preocupações pelo lado da demanda, num momento de possibilidade de recessão e com dúvidas quanto à força do consumo chinês.
Fontes: USDA e StoneX. Elaboração: StoneX.
O dado de posição trimestral dos estoques da safra 2021/22 acabou ficando em segundo plano, diante da surpresa com a área plantada, mesmo porque o resultado veio em linha com a média das expectativas do mercado (levemente acima), indicando que os EUA possuíam 26,4 milhões de toneladas da oleaginosa em 01/06.
Milho
Ao contrário dos números da soja, que vieram bem diferentes do esperado pelo mercado, o relatório de área plantada não trouxe grandes surpresas para o mercado do milho. Ao passo que a média das estimativas apontava para uma área semeada de 36,41 milhões de hectares em 2022/23, 190 mil hectares acima do último número do USDA, o relatório trouxe uma área total de 36,39 milhões de hectares, praticamente em linha com o esperado pelos agentes.
Considerando a nova área e a última estimativa de rendimento do USDA, a produção norte-americana em 2022/23 seria elevada para 369,2 milhões de toneladas, 0,5%, ou 1,9 milhão de toneladas, acima do número reportado no WASDE de junho.
Em relação aos estoques de milho, o USDA informou que sua posição em 1º de junho de 2022 ficou em 110,39 milhões de toneladas, 5,97 milhões de toneladas acima do registrado 1 ano antes e apenas 70 mil toneladas acima da média das estimativas do mercado.
Mantendo-se a demanda total estimada pelo USDA no relatório de junho, de 378,2 milhões de toneladas (consumo doméstico em 316 milhões e exportações em 62,2 milhões de toneladas), os estoques finais da safra 2022/23 ficariam em 37,5 milhões de toneladas, contra 35,6 milhões no último WASDE, com uma relação estoque/uso de 10,1%, 0,5 p.p. acima da última estimativa.
Com a questão da área plantada de milho deixando de ser uma das principais incógnitas para o mercado no momento, começam a ganhar cada vez mais destaque as condição das lavouras nos EUA. À medida que os grãos entram em importantes fases de desenvolvimento, esse será um ponto crucial para a precificação do cereal. O último relatório de acompanhamento de safra do USDA mostrou que 67% da safra do milho se encontrava em condição boa ou excelente no dia 26 de junho, contra 64% no mesmo período do ano passado. O mês de julho será fundamental para o desempenho da safra norte-americana, e, por mais que as previsões apontem atualmente para um clima favorável para o desenvolvimento das lavouras do cereal, não é incomum vermos mudanças repentinas nos modelos climáticos e, portanto, será essencial acompanhá-los de perto.
Fontes: USDA e StoneX. Elaboração: StoneX.
Trigo
As expectativas para o trigo dos Estados Unidos eram de um recuo significativo da área plantada, por causa das severas condições climáticas enfrentadas pelas regiões produtoras e do atraso no plantio. Entretanto, a revisão trouxe a área de trigo em 19,06 milhões de hectares, apenas 120 mil hectares a menos em relação ao relatório de Perspectivas para o Plantio, divulgado em março.
Na temporada passada, 18,9 milhões de hectares foram semeados com trigo, o que indica que a estimativa para a safra atual aumentou em 1% a área plantada em comparação a 2021. Para o trigo de inverno, se espera uma área de 13,76 milhões de hectares, enquanto para o trigo de primavera a perspectiva é de cerca de 4,50 milhões de hectares. Sobre os estoques, o USDA informou que em 1º de junho o volume totalizava 17,96 milhões de toneladas, uma queda de 22% em relação ao ano passado.
Os dados de área plantada e estoque aguardados com entusiasmo pelo mercado foram acompanhados pelo movimento direto nos preços. O possível aumento da oferta de trigo influenciada pela maior área plantada levou à queda imediata nos preços na sessão principal da quinta-feira (30).
Apesar da relevância da área plantada e do efeito imediato sobre os preços no mercado futuro nas dos Estados Unidos, a produtividade é uma variável essencial para ponderar as expectativas para a safra, dado que qualquer mudança altera a produção da safra.
Os relatórios de acompanhamento de safra divulgados pelo USDA semanalmente vêm chamando a atenção pois tem indicado percentuais abaixo da média para as condições boas ou excelentes. Para as regiões do Texas, Oklahoma e Colorado, principalmente, parte considerável da safra está sendo avaliada em termos de condições ruins, o que preocupa produtores em relação ao saldo da safra de inverno.

Fontes: USDA e StoneX. Elaboração: StoneX.
A safra 22/23 de algodão norte-americana está passando por um momento excepcionalmente desfavorável. As secas ao Sul do país em maio e junho não foram revertidas, o que é prejudicial para o desenvolvimento da pluma nos estágios iniciais, e afetaram de forma mais intensa o Texas, maior ofertante dos EUA e responsável por cerca de 40% da produção doméstica. Além da falta de chuvas, as altas temperaturas, acima da média para a primavera, agravaram ainda mais o estresse hídrico.
Dessa forma, mesmo com as cotações do algodão perto das máximas históricas em NY, a expectativa do mercado era de que houvesse uma redução na área plantada do país, influenciada pelas adversidades climáticas supracitadas. No entanto, o que se verificou foi um aumento no valor divulgado pelo USDA na sexta feira (01), passando de 4,9 para 5,05 milhões de hectares, uma variação de 2% entre os reportes. A expansão da área cultivada no Texas foi responsável por esse resultado (+4,4%), enquanto estados como Arkansas e Mississippi, por exemplo, tiveram reduções (-3,8% e -2%, respectivamente).
Apesar de surpreender os agentes, o resultado não impactou de forma significativa as cotações da pluma na ICE, pois a percepção é de que esse aumento na área plantada será superado pelo crescimento da taxa de abandono em 2022/23. Normalmente, essa taxa já é alta, a média dos últimos 5 anos está em torno de 20% para o nível nacional e 32% para o Texas. Logo, a partir dos novos valores e das estimativas do USDA de queda da produção para o próximo ciclo, é provável que esse indicador aumente significativamente.
Os reportes de acompanhamento de safra divulgados semanalmente pelo órgão também reforça essa projeção, pois a porcentagem do algodão que está em condições boas ou excelentes está muito abaixo da média para todos os estados produtores, especialmente o Texas. Todos esses fatores, somados à falta de perspectivas quanto ao alívio das secas, devem impulsionar as taxas de abandono e reverter os ganhos do aumento da área plantada.
Fontes: USDA e StoneX. Elaboração: StoneX.