O Brasil enfrenta um período seco bem marcado no centro-sul durante os meses de inverno, com as chuvas retornando a partir de setembro e permitindo o início da safra de soja em vários estados, incluindo o Mato Grosso. Contudo, em 2020, houve demora na regularização das chuvas, o que prejudicou o plantio no estado, postergando também a colheita da oleaginosa.
Como as segundas safras de algodão e de milho no estado, que em ambos os casos respondem por grande parte da produção (cerca de 85% do algodão mato-grossense e quase 100% do milho), são implantadas nas mesmas áreas onde a soja é colhida, o andamento da safra da oleaginosa é fundamental para os ciclos do cereal e da pluma.
Esse atraso na soja 2020/21 impactou diretamente a semeadura da safrinha de algodão, cuja janela ideal de plantio é entre dezembro e janeiro, com 68% do plantio realizado fora desse período ótimo. Além disso, essa conjuntura desfavorável obrigou os agricultores a reordenar as suas áreas de cultivo, deixando de plantar parte do algodão ou trocando por outras culturas, como o milho, que apresentava um cenário consideravelmente mais atrativo que o da pluma naquela época.
Uma das questões que melhor ilustra o momento favorável vivenciado pelo cereal na ocasião era o ritmo de comercialização. Segundo acompanhamento da StoneX, cerca de 67% da safrinha 2020/21 de milho havia sido negociada até o final de 2020, enquanto até o final de 2019, 57% da safrinha 2019/20 tinha sido comercializada. Por outro lado, segundo dados do Imea, o algodão vivia situação oposta. Cerca de 54% da safra 2020/21 da pluma havia sido negociada no Mato Grosso, ao passo que, até o final de 2019, a comercialização da safra 2019/20 tinha atingido 73%.
Essa diferença no rimo de comercialização indicava um maior apetite de compra pelo milho, cujo balanço já estava restrito em função da demanda aquecida, resultando em estoques de passagem apertados para a safra 2019/20. Para o algodão, por outro lado, seu consumo foi intensamente impactado em 2020 pela queda da atividade têxtil no Brasil e nos principais polos internacionais, em função da crise causada pela pandemia da COVID-19, que resultou em estoques recordes do algodão brasileiro ao final da temporada 2019/20.
Outra questão que ajuda a ilustrar o bom momento do cereal frente à pluma era a questão dos preços. Por mais que a pluma fosse cotada, em média, a R$ 122,91/@ no Mato Grosso em dezembro de 2020, apresentando uma valorização de 36% no comparativo anual, o preço do cereal alcançava R$ 59,94/sc, 50% a acima do observado em dezembro de 2019, o que aumentou a atratividade do grão em relação ao algodão.
Como resultado, depois de uma safra 2019/20 favorável para o cotonicultor mato-grossense, que plantou mais de um milhão de hectares e produziu 2,1 milhões de toneladas de algodão, a área plantada na temporada seguinte caiu para 942 mil hectares, segundo dados do IMEA e da Conab. Ainda segundo a Conab, a produtividade no estado saiu de 1.799 kg/hectare para 1682 kg/hectare nesse período, resultando assim numa produção 400 mil toneladas menor.
No caso do cereal, os atrasos no plantio, cujo melhor período fica entre janeiro e fevereiro, também contribuíram para a quebra observada na safrinha 2020/21, destacando que as chuvas abaixo da média impactaram mais fortemente as lavouras semeadas mais tarde. De acordo com a estimativa da StoneX, o rendimento médio em Mato Grosso foi de 5,3 toneladas/ha, uma queda de 19% frente à safra 2019/20, o que, mesmo com o aumento de 12% na área plantada, resultou em uma produção de 30,8 milhões de toneladas, 9% menor em comparação com a safra anterior.
Em 2021, por outro lado, o início favorável do plantio na soja no Mato Grosso deve afastar a possibilidade de um cenário parecido com o ano passado, inclusive, com as previsões de chuva acima da média em outubro e com estimativas de crescimento das áreas da soja, do algodão e do milho.