Aguardado após os impactos do fenômeno de El Niño, principalmente no Brasil, o último relatório de 2023 da Secretaria de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) manteve um panorama favorável para a produção mundial de soja. Apear de um ligeiro ajuste entre no comparativo mensal, com uma diminuição de 1,5 milhão de toneladas, ainda se espera um recorde mundial para 2023/24. Desta forma, a safra ficaria em 398,88 milhões de toneladas, o que significa uma variação anual positiva de 6,5%. Assim, apesar de o potencial de produtividade ter sido afetado pelo excesso ou escassez das chuvas, a produção mundial ainda cresceria ano a ano.
As projeções para o Brasil, maior produtor mundial da oleaginosa, eram especialmente aguardadas pelo mercado. Perdas no potencial produtivo por consequências climáticas já tinham sido anunciadas, o que foi confirmado pelo USDA, com uma redução de 2 milhões de toneladas. No entanto, mesmo com esse corte, se espera um novo recorde para a safra brasileira, que seria de 161 milhões de toneladas.
Para os Estados Unidos, as projeções se mantiveram inalteradas em comparação ao mês anterior. A produção esperada é de 112,37 milhões de toneladas, enquanto o esmagamento alcançaria 62,6 milhões de toneladas.
A Argentina, que deve se recuperar dos resultados do ano passado, também manteve inalteradas suas projeções quando comparadas ao mês anterior. A produção quase se duplicaria entre uma safra e outra, com 48 milhões de toneladas, frente às 25 milhões de toneladas, resultado de uma das maiores secas já registradas no país.
Assim, o consumo mundial em 2023/24 ficaria em 383,96 milhões de toneladas demandadas, volume mais de 15 milhões abaixo da produção. Contudo esse cenário depende do resultado na América do Sul, que ainda pode mudar.

Para o milho, houve um aumento de 5,6% na produção mundial quando comparada ao mês anterior, ficando em 1222,07 milhões de toneladas. O consumo projetado também indica um aumento, com 1206,95 milhões de toneladas, representando uma variação anual positiva de 3,4%.
A produção estadunidense se manteve inalterada, mas houve um crescimento de 1,2% nas exportações com uma redução também de 1,2% nos estoques finais. Enquanto para o Brasil, onde ainda existe uma preocupação pela possível perda da janela ideal da safrinha, face ao atraso no plantio da soja, as projeções se mantiveram estáveis. Ainda é cedo para fazer os ajustes correspondentes, mas a produção brasileira estimada já está 5,8% menor que no ano passado.
A produção de milho foi ajustada para cima na Ucrânia e Rússia, em 1 milhão de toneladas para cada, assim como na União Europeia, com um aumento de 300 mil toneladas. Em sentido contrário, a diminuição produtiva para o México também foi de 1 milhão de toneladas. Este último dado explica as importações mexicanas maiores que o normal de milho estadunidense.

A produção mundial de trigo foi revisada para cima, com um aumento de 1 milhão de toneladas, com melhoras das colheitas esperadas no Canadá e na Austrália, que compensaram a diminuição no Brasil. Já para a Argentina, as projeções se mantiveram inalteradas. Outro destaque foi que, para a União Europeia, não houve alterações em relação à produção, mesmo após os anúncios de que excessos de chuvas na França, principal produtor da região, afetariam a produção de trigo europeu.
Diferentemente da soja e do milho, cujas produções superariam o consumo, as projeções para o trigo indicam o contrário, com o consumo (794,66 milhões de toneladas) sendo superior à produção (783,01 milhões de toneladas).
Para os Estados Unidos não se observaram grandes surpresas, mantendo-se estáveis as previsões para a produção, a importação e o consumo doméstico. Uma novidade foi o ajuste nas exportações esperadas. Após um recorde de compras da China de trigo estadunidense, que representou o maior volume observado desde julho de 2014, as exportações norte-americanas foram corrigidas para cima, passando de 19,05 milhões de toneladas em novembro/23 para 19,73 toneladas em dezembro/23 (aumento de 3,6%).
Para o Brasil, conforme esperado devido às excessivas chuvas no Sul do país, a produção foi reduzida em 1 milhão de toneladas para a safra 2023/24, passando a corresponder a 8,4 milhões de toneladas. Dessa forma, as exportações foram diminuídas em 500 mil toneladas. A redução da produção e da qualidade dos grãos tenderia a aumentar as importações e a moagem interna, mas essas duas variáveis permaneceram inalteradas no relatório. O aumento anual esperado para a importação é de 19,7%.

Quando se refere ao mercado de algodão, o WASDE registrou quedas tanto na oferta quanto na demanda pela pluma. Do lado da oferta, o relatório repercutiu dados mais fracos para a produção estadunidense, puxados principalmente por mais uma queda na produtividade média das lavouras do país. O fato vem na esteira de dados mais consolidados sobre a safra no Texas, conforme o beneficiamento avança no estado, que é o principal produtor da pluma nos EUA. Dessa forma, a produção estadunidense foi reduzida em cerca de 70 mil toneladas no comparativo mensal. Além disso, outros países, como Turquia e México, também sofreram revisões em suas projeções produtivas, o que fez com que, no agregado mundial, a produção fosse revisada para 24,59 milhões de toneladas (-110 mil toneladas).
Lançando o olhar para a demanda, o relatório trouxe o enfraquecimento do consumo doméstico, que vem pautando o mercado nos últimos meses. A revisão veio principalmente relacionada à China e aos EUA. O gigante asiático teve sua demanda revisada em 210 mil toneladas para baixo, enquanto nos EUA a revisão foi de -40 mil toneladas. No agregado, a projeção de dezembro traz um consumo 340 mil toneladas menor do que o reporte de novembro. Dessa forma, as projeções para os estoques de passagem mundiais cresceram de 17,74 para 17,94 milhões de toneladas. O fato contribui para uma imagem ainda mais confortável para o balanço mundial de algodão, o que pode ser um fator de resistência dos preços.
O comércio internacional de algodão se mostra mais prejudicado nessa última fotografia publicada pelo USDA. Austrália e Brasil, dois países que são importantes exportadores da fibra, sofreram revisões para baixo nos carregamentos, influenciadas justamente pelo já citado desaquecimento da indústria do algodão no mundo.
Dessa forma, o Relatório de Oferta e Demanda de dezembro do USDA traz um cenário baixista para a pluma, com as perdas na oferta sendo ofuscadas e até superadas pelas perdas na demanda, o que contribui para um balanço relativamente mais confortável no mundo, o que pode pressionar os preços do algodão.



