Com os preços da soja tendo apresentado tendência de queda no último mês, o relatório WASDE era aguardado para medir as expectativas principalmente em relação à oferta. A nível mundial, a projeção para a produção se manteve inalterada, com uma colheita de 398,98 milhões de toneladas na safra 2023/24. Já tratando da demanda, as estimativas para o consumo doméstico sofreram uma revisão para baixo de 0,1% em relação ao último relatório, apesar do patamar atual, de 383,66 milhões de toneladas, ainda significar um aumento de 5,2% no comparativo anual.
O efeito da queda da demanda pôde ser sentido nas estimativas dos estoques finais da safra corrente, que sofreram uma revisão de 0,3% (400 mil toneladas) para cima em comparação com o relatório de dezembro, para 114,6 milhões de toneladas. Apesar do número não representar um avanço tão expressivo em relação à última divulgação, ele ficou 3 milhões de toneladas acima da médias da expectativas do mercado, trazendo efeitos diretos nos preços da oleaginosa, que fecharam em baixa no dia de divulgação dos dados (12/jan).
O Brasil foi o país que sofreu o corte mais acentuado na produção esperada, porém o balanço mundial foi compensado pelos ganhos em outros importantes produtores, como EUA, Argentina, Paraguai e China.
O Brasil foi o responsável pela maior revisão de oferta da oleaginosa, que foi estimada, nesse reporte, em 157 milhões de toneladas, 4 milhões a menos do que o o número de dezembro, 1,9% a menos que na temporada passada. Já para os EUA, a correção mensal foi de 0,9%, o que eleva a produção para 113,35 milhões de toneladas. Com um esmagamento sem variações, os estoques tiveram um ajuste positivo de 14,3% em relação aos números de dezembro, ficando em 7,62 milhões de toneladas.
Além disso, os resultados para a Argentina são otimistas, com uma produção estimada em 50 milhões de toneladas (+4,2% na comparação mensal), o que implicaria uma produção duas vezes maior com relação à safra passada, em que o país sofreu uma importante quebra de safra, que resultou em uma oferta de 25 milhões de toneladas na safra 2022/23. Já para o Paraguai, embora tenha sido observado uma correção da produção, a magnitude desse reajuste foi menor, passando de 10 para 10,3 milhões de toneladas nesta safra (+3.00%). Finalmente, para a China, a projeção de produção foi de 20,84 milhões de toneladas, contra 20,50 milhões de toneladas nos dados de dezembro.

As perspectivas para uma oferta maior de milho na safra 2023/24 continuam se consolidando. Por mais que a demanda tenha sido ajustada no relatório, com um aumento para 1.211,07 milhões de toneladas (crescimento mensal de 0,3%), o ajuste na oferta foi maior, totalizando 1.235,73 milhões de toneladas (variação mensal de 1,1%, que implica um crescimento anual de 6,9%). Dessa forma, o balanço de oferta e demanda para o grão está significativamente mais folgado nesta safra, com estoques finais sendo estimados em 325,22 milhões de toneladas, 3,2% a mais do que apontava o número de dezembro.
O maior corte mensal foi para o Brasil, onde as estimativas colocam a produção para a safra corrente em 127 milhões de toneladas, 2 milhões a menos do que apontava a projeção passada. Já para a Argentina (55 milhões de toneladas), a Ucrânia (30,5 milhões de toneladas) e a União Europeia (60,1 milhões de toneladas), as estimativas de produção permaneceram estáveis, sem correções. No entanto, condições climáticas adversas por excessos de chuvas em solos europeus e na região do Mar Negro podem abrir espaço para um ajuste produtivo nos próximos relatórios. Já no caso argentino, o país recuperará o seu nível de produção normal, já que o volume produzido totalizou somente 34 milhões de toneladas na safra passada.
O resultado positivo no balanço mundial foi dado pelos aumentos nas projeções dos EUA e da China. No caso estadunidense, apesar da queda na área plantada, que baixou 0,3% quando comparado ao relatório do mês anterior, totalizando 38,28 milhões de hectares, ainda assim a produção foi ajustada para 389,7 milhões de toneladas, o que representa um crescimento mensal de 0,7% e uma variação interanual positiva de 12,4%. No caso da China, o ajuste mensal foi de 11,84 milhões de toneladas a mais, fazendo com que a estimativa de oferta do país fosse de 288,84 milhões de toneladas.

Inversamente ao observado na soja e no milho, o balanço mundial para o trigo indica uma demanda maior do que a oferta. O consumo foi ligeiramente elevado, em 0,2%, totalizando 796,44 milhões de toneladas. A produção também foi ajustada para cima, em 0,2%, alcançando o patamar de 784,91 milhões de toneladas.
No que tange a produção nos principais players, as variações no relatório ocorreram basicamente na região do Mar Negro, já que as projeções para EUA, Canadá, Brasil e Argentina permaneceram inalteradas.
Para a Ucrânia, a produção é estimada em 23,4 milhões de toneladas (acima das 22,5 milhões de toneladas projetadas em dezembro passado). Mas em sentido contrário, as autoridades do país realizaram cortes na produção estimada pelas consequências do excesso de neve em regiões produtoras relevantes para o país. Por isso, e dependendo dos acontecimentos climáticos nas próximas semanas, é possível que o USDA precise realizar novos ajustes para baixo.
Já para a Rússia, as estimativas apontam para uma colheita de 91 milhões de toneladas, 1 milhão a mais do que era estimado no último mês. Esse resultado está em linha com as divulgações do governo russo de um novo recorde de safra, o que continua posicionando o país como forte competidor no mercado do cereal, pressionando os preços internacionais.

O relatório de O&D trouxe novas orientações dos fundamentos do mercado de algodão. De maneira geral, o reporte trouxe uma perspectiva altista para o algodão estadunidense e baixista em uma perspectiva internacional mais ampla.
Do lado dos EUA, foi registrado, conforme esperado, uma redução da produção no nível de 70 mil toneladas, conforme a colheita avança e os dados vindos do campo passaram a sugerir que os números anteriores estavam relativamente superestimados. Com um consumo doméstico inalterado e exportações revisadas para baixo em apenas 30 mil toneladas, os estoques finais para a safra 23/24 passaram a ser estimados em 630 mil toneladas (-6,5%), 40 mil a menos do que o relatado no reporte de dezembro. O cenário de balanço mais apertado contribui para uma pressão altista da pluma norte-americana.
Olhando o balanço mundial, a produção pôde, apesar dos EUA, registrar uma oferta maior. O fato é puxado principalmente por uma produção maior na China, estimada em 5,99 milhões de toneladas (110 mil toneladas a mais do que o reportado no relatório anterior). Olhando para a demanda, o cenário se deteriorou ainda mais, com Índia, Indonésia, Paquistão, Uzbequistão e Turquia puxando as revisões para baixo, fazendo com que o consumo doméstico global fosse estimado em 24,48 milhões de toneladas na safra 23/24 (-280 mil toneladas, ou –1,1%). Dessa forma, com uma oferta global ligeiramente maior e uma demanda ainda menor, os estoques ficaram mais confortáveis, o que desenha um cenário baixista da perspectiva global.



