Na quarta-feira, dia 09/11, o USDA atualizou seu relatório mensal de oferta e demanda, sempre muito aguardado pelo mercado, indicando as perspectivas para o balanço mundial das commodities agrícolas.
Soja
Para a soja, o destaque foi a pequena elevação da produtividade média da safra 22/23 norte-americana, para 3,38 toneladas por hectares, com a produção estimada passando de 117,38 para 118,27 milhões de toneladas. Os estados de Iowa, Nebraska, Dakota do Norte, além do Missouri, foram destaques do ajuste positivo do rendimento.
Esse aumento da produção condicionou um avanço dos estoques finais estimados para o ciclo 22/23 no país, passando de 5,44 para 6 milhões de toneladas. Por outro lado, houve também uma pequena elevação do esmagamento, para 61,1 milhões de toneladas, limitando marginalmente o aumento dos estoques.
Ainda pelo lado da oferta, entre os principais players do mercado, destaca-se o corte da estimativa de produção argentina 22/23, que passou de 51 para 49,5 milhões de toneladas, diante do predomínio de um clima mais seco no país, que tem afetado, inclusive, o início do plantio da soja. Como o La Niña está presente pelo terceiro ano consecutivo, há preocupações com a queda do volume de chuvas no sul da América do Sul e, atualmente, a situação da Argentina é a que indica maiores riscos para as lavouras.
Para a China, não houve mudanças nos números de oferta e demanda da safra 22/23, mas as importações mais aquecidas em setembro foram incorporadas no acumulado do ciclo 21/22, fechando o ano em 91,57 milhões de toneladas, acima das 90 milhões que o USDA estimativa anteriormente, impactando os estoques iniciais da safra nova.
De qualquer maneira, o balanço mundial sinaliza uma situação mais folgada, com a produção superando o consumo. Contudo, esse equilíbrio menos apertado se baseia totalmente em uma produção brasileira acima de 150 milhões de toneladas e numa safra argentina sem grandes perdas.
Mundo | Produção de soja (milhões de toneladas)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX. *Estimativa USDA.
Milho
No caso do cereal, o mercado esperava uma manutenção da safra 22/23 dos EUA em um patamar próximo do trazido em outubro. Contudo o USDA elevou sua estimativa. O Departamento estima que a produção norte-americana totalize 353,8 milhões de toneladas, um número cerca de 900 mil toneladas acimo do apontado pelo Departamento em seu relatório passado.
A revisão foi motivada por expectativas mais favoráveis para a produtividade norte-americana, agora estimada em 10,81 toneladas por hectare. Vale destacar também o aumento no consumo doméstico, que passou de 304,8 milhões para 305,5 milhões de toneladas.
Mesmo com um aumento do consumo doméstico, esse incremento não foi capaz de compensar o aumento na oferta, resultando em estoques levemente acima dos 29,8 milhões estimados em outubro, em 30 milhões de toneladas.
Em relação aos demais players, vale destacar a redução na estimativa de produção da União Europeia, que passou de 56,2 milhões de toneladas em outubro para 54,8 milhões em novembro.
A nível mundial, o Departamento elevou o consumo de 1.174,6 milhões de toneladas para 1.175,3 milhões. Em meio a uma redução marginal na produção total, os estoques finais mundiais recuaram para 300,8 milhões de toneladas, contra 301,2 milhões no relatório anterior, um pouco acima da média das estimativas do mercado, de 300,6 milhões.
O USDA não realizou nenhuma mudança em suas estimativas para a safra 22/23 do Brasil e da Argentina. Contudo, nos próximos meses, esses países deverão passar a receber maior atenção, visto que se terá cada vez mais uma melhor noção do andamento da safra no continente sul-americano, que, como já comentado, presenciará o terceiro ano consecutivo de La Niña, questão que tem sido motivo de preocupação no mercado.
EUA | Produção de milho (milhões de toneladas)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX. *Estimativa USDA..
Trigo
As estimativas de novembro do USDA não trouxeram grandes ajustes para o trigo, se concentrando em mudanças principalmente na América do Sul, como já esperado pela StoneX. Em termos de saldo global, a relação entre produção e consumo continua a preocupar diversos países que sofrem com dificuldades em acessar o trigo. Cerca de 782,7 milhões de toneladas são previstas para a produção da safra 22/23, frente a 791,2 milhões de toneladas esperadas para o consumo. A diferença no balanço global entre a produção e consumo continua elevada, na ordem de 8,5 milhões de toneladas.
Para o mercado doméstico dos Estados Unidos, se mantém a expectativa de 44,9 milhões de toneladas, com pequena revisão do consumo que passou de 29,61 para 29,75 milhões de toneladas. No saldo de oferta e demanda de outros players internacionais, se destaca a Argentina e o Brasil, que atuaram com ajustes opostos.
Na Argentina, os efeitos do terceiro ano seguido de La Niña não perdoaram a safra 22/23 de trigo da Argentina. O país que é o sétimo maior exportador de trigo no mundo, poderá ter a menor safra dos últimos 6 anos, de acordo com o USDA. Nas novas estimativas, a produção caiu de 17,5 para 15,5 milhões de toneladas. Tal ajuste afetou também o nível de exportações, que caiu de 12 para 10 milhões de toneladas. A potencial escassez para o mercado doméstico e inflação elevada no país aumentam a possibilidade de restrições para a exportação do cereal.
Para o Brasil, o USDA aumentou 200 mil toneladas para a produção, alcançando 9,4 milhões de toneladas. Apesar do ajuste positivo o clima favorável durante o ciclo 22/23 poderá levar a uma safra ainda maior de acordo com a StoneX, da ordem de 10 milhões de toneladas, 20,8% maior que a safra anterior.
Argentina | Produção de trigo (milhões de toneladas)

Fonte: USDA e Bolsa de Cereales de Buenos Aires (BCBA). Elaboração: StoneX. *Estimativa USDA.
As projeções do WASDE de novembro para o algodão chamaram a atenção dos agentes ao trazer importantes revisões tanto para a demanda, quanto para a oferta da safra 22/23. O volume estimado para a produção global da pluma diminuiu cerca de 352 mil toneladas (-1,4%) comparado ao relatório de outubro, ficando em 25,3 milhões de toneladas.
Tal corte foi reflexo da retração produtiva australiana (-109 mil toneladas), causada pelo impacto das inundações no plantio do país, como também pela revisão ainda maior no cultivo do Paquistão, -152 mil toneladas, também impactado pelo forte volume de chuvas no início da sua safra. Além disso, a queda da produção resultou em uma diminuição dos estoques finais, recuando 0,7% ante ao projetado anteriormente. No entanto, o valor ainda é 1,9% superior à safra 21/22, sendo um dos indícios da menor demanda pela fibra natural no ciclo corrente.
Outro indicativo que evidencia tal movimento baixista é a redução do consumo global, cerca de 142 mil toneladas em relação ao relatório anterior, totalizando em uma demanda projetada em 25,03 milhões de toneladas (-2,1% comparado à safra passada). Essa retração foi influenciada por dois importantes players do mercado da pluma: Paquistão, apresentando uma queda de 3% no esperado para o seu consumo doméstico, e Bangladesh, com um recuo de 3,5%.
Ainda sob a ótica da demanda, o USDA não indicou variações para outros importantes países, como China e Índia, fazendo com que os agentes desconfiem de tais resultados, uma vez que eles não parecem refletir completamente os impactos do atual cenário econômico pessimista sobre o consumo da commodity. Desse modo, o mercado entende que há espaço para novas revisões nos próximos relatórios, uma vez que ainda é possível observar uma desaceleração de economias relevantes aos fundamentos do algodão, como também a crescente preocupação com novas ondas do Covid-19 ameaçando o funcionamento normal do comércio – como é o caso da China.
Por fim, a queda na oferta global, impulsionando um aperto nos estoques finais, tenderia a oferecer suporte aos preços da commodity. Contudo a desconfiança dos agentes quanto aos resultados para a demanda, os quais estão acima do esperado, fez com que o balanço dos Estados Unidos possuísse maior peso na análise de novembro. O destaque do país se deve ao acréscimo de 50 mil toneladas referentes à sua produção, sendo 1,6% maior em comparação a outubro. Somado a isso, a ausência de variações positivas na demanda norte-americana condicionou um avanço de 7,1% nos estoques dos EUA – agora projetado em 650 mil toneladas –, atribuindo aos resultados um caráter baixista para a precificação da pluma.
Principais revisões no consumo doméstico da safra 22/23 (em milhões de toneladas)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX. *Estimativa USDA.