Na última sexta-feira (dia 10/06), o USDA divulgou seu relatório mensal de oferta e demanda, que é sempre muito aguardado pelo mercado. Como esperado o relatório não trouxe grandes surpresas, com o número de área plantada dos EUA 2022/23 a ser divulgado no dia 30/06, passando a ser incorporado no balanço de oferta e demanda somente no relatório de julho.
Já o conflito na Ucrânia continua trazendo incertezas para os mercados de trigo e milho.
Soja
Para os EUA 2022/23, como não houve mudanças na área plantada e a produtividade deve ser revisada somente em agosto, a produção continuou estimada em 126,3 milhões de toneladas, o que seria um volume recorde para o país. Também não foram ajustadas as variáveis de demanda. Mesmo assim, os estoques finais recuaram de 8,43 para 7,61 milhões de toneladas, refletindo o estoque inicial menor.
Esse estoque inicial menor foi resultado de mais uma elevação das exportações 2021/22 do país, para 59 milhões de toneladas, em meio a vendas aquecidas, principalmente para outros destinos, que não a China, o que impactou os estoques finais do ciclo atual, que caíram para 5,6 milhões de toneladas.
Para a América do Sul, destaca-se que o Departamento subiu a produção brasileira 2021/22 de 125 para 126 milhões de toneladas e a argentina passou de 42 para 43,4 milhões.
Diferentemente do divulgado nos relatórios anteriores, não houve novos ajustes nas estimativas de importação da China, com o balanço de oferta e demanda do país ficando estável para ambas as safras, 2021/22 e 2022/23.
Balanço de O&D de soja - EUA (milhões de toneladas)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.
Milho
Em relação ao milho, o principal destaque no balanço norte-americano foi a redução das exportações referentes à safra 2021/22 dos EUA, de 63,5 para 62,2 milhões de toneladas. Em contrapartida, o Departamento compensou parcialmente a redução na demanda externa com um leve aumento do consumo doméstico para alimentação, sementes e uso industrial, de 127 mil toneladas, para 173,1 milhões de toneladas. Com isso. Os estoques finais da temporada 2021/22 foram elevados em 1,1 milhão de toneladas, para 37,7 milhões, resultando em uma relação estoque/uso de 10%, contra 9,6% no relatório de maio.
Como já comentado, não houve mudança na produção dos EUA em 2022/23, que, no caso do milho, segue estimada em 367,3 milhões de toneladas, visto que o Departamento aguarda o relatório de área plantada para realizar maiores mudanças na oferta de grãos do país. Em relação ao consumo, foi mantida inalterada a estimativa de exportações para o próximo ciclo, em 61 milhões de toneladas, ao passo que trouxe um aumento marginal no consumo doméstico para alimentação, sementes e uso industrial, que passou de 173,1 para 173,2 milhões de toneladas. Assim, os estoques finais da temporada 2022/23 avançaram de 34,5 para 35,6 milhões de toneladas, com uma relação estoque uso de 6,9%, 0,3 p.p. acima do registrado no último relatório, o que ainda configura um cenário de estoques apertados nos EUA.
Em relação aos principais players do mercado de milho, o USDA não trouxe alterações em seus balanços do Brasil, Argentina e China, mas realizou mudanças nos números da safra 2022/23 ucraniana. A produção do país foi elevada em 5,5 milhões de toneladas, para 25 milhões. Essa revisão, segundo o Departamento, foi motivada por dados mais otimistas em relação à área plantada no país, que foram reportados pelo governo ucraniano.
Evolução das exportações de milho dos EUA (milhões de toneladas)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.
Trigo
O trigo recebeu novamente a atenção do mercado de grãos após mudanças nas estimativas para a oferta e demanda global divulgada pelo USDA. O conflito no Mar Negro segue como protagonista dos efeitos no saldo global, acompanhado pelas mudanças climáticas.
No mercado doméstico dos Estados Unidos, a perspectiva para a safra de 2022/23 é de aumento da oferta, uso interno estável, exportações inalteradas e maior volume de estoques. A oferta é estimada com um pequeno aumento de aproximadamente 200 mil toneladas e o rendimento do trigo tenderá a 46,9 bushels por acre, um aumento de 0,3 bushels em relação à estimativa do mês passado. As projeções para o trigo divididas por classificações para a safra 2022/23 começarão a ser publicadas a partir do próximo relatório, em 12 de julho.
Em relação ao mercado global, as mudanças foram mais contrastantes e movimentam o mercado desde a divulgação dos dados. A perspectiva segue com pressão sobre a oferta de trigo para 2022/23, mesmo com o consumo mais baixo, resultando em leve queda dos estoques finais. A produção mundial sofreu redução de 1,4 milhão de toneladas, passando de 774,83 para 773,43 milhões de toneladas.
Destacam-se os números da Índia e da Rússia para a safra 2022/23, enquanto não houve alterações para a Ucrânia. A Índia teve a produção reduzida em 2,5 milhões de toneladas, saindo de 108,5 para 106,0 milhões, em consequência das condições climáticas severas registradas em março e abril. A produção da Rússia aumentou 1,0 milhão de toneladas, alcançando 81,0 milhões para o trigo de inverno que está sob condições climáticas favoráveis.
O comércio global projetado para 2022/23 tende a diminuir 0,3 milhão de toneladas, chegando a 204,6 milhões, à medida que o menor volume de exportações da Índia não é totalmente compensado pelas maiores exportações da Rússia.
A reconfiguração dos fluxos comerciais de trigo provavelmente manterá os preços em patamar elevado, especialmente enquanto os russos tentam contornar as sanções e os suprimentos ucranianos permanecem presos no país.
Produção de trigo - Rússia e Ucrânia (milhões de toneladas)

Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.
O relatório do WASDE de junho não trouxe grandes alterações nas projeções para o algodão, especialmente para a safra 22/23, não gerando tanta volatilidade no mercado, como já era esperado. As maiores revisões se concentraram no ciclo 21/22, com impactos nas produções brasileira e indiana. Ademais, o USDA não trouxe nenhuma mudança nas projeções para a safra norte-americana e, com isso, as exportações do país seguem estimadas em 3,2 milhões de toneladas e os estoques finais em 740 mil toneladas.
A respeito da safra 21/22, a Índia foi um dos países que mais sofreu revisões, especialmente quanto à produção, que passou de 5,55 para 5,33 milhões de toneladas (-3,9%). A quebra de safra indiana tem forçado mudanças nas projeções do WASDE nos últimos meses, e no relatório de junho ela voltou a impactar as exportações (-8,5% em relação a maio) e o consumo doméstico. O Brasil também sofreu algumas revisões, consequência da redução da produção nacional em 3,8% devido ao clima desfavorável nos principais estados produtores de algodão. Com isso, sua oferta passou de 2,87 para 2,77 milhões de toneladas. Apesar da queda, o resultado continua melhor do que no ciclo anterior - 18% maior do que aquele verificado em 20/21.
Apesar do menor impacto no mercado, é possível afirmar que o relatório recente possui uma tendência baixista, uma vez que todos os indicadores globais de demanda para a safra 22/23 foram revisados para baixo, ao passo que a produção sofreu um aumento marginal, estimada em 26,4 milhões de toneladas. Devido à queda da produção global em 21/22, estima-se que os estoques iniciais dos países para o ciclo 22/23 irão diminuir. A queda nos estoques iniciais em 22/23 foi acompanhada por uma leve redução no consumo doméstico global, que passou de 25,6 para 25,5 milhões de toneladas, mantendo os estoques finais em 22/23 praticamente estáveis, em 18 milhões de toneladas.
Vale notar, entretanto, que mesmo com uma queda na demanda para o ciclo 22/23, esta ainda segue maior do que a oferta total em 100 mil toneladas, mas a expectativa de uma desaceleração da economia mundial e avanço da inflação pode fornecer uma margem para nova queda do consumo na próxima safra. Além disso, apesar das chuvas recentes no Texas, ainda restam inúmeras incertezas quanto ao resultado norte-americano, que podem forçar revisões nas projeções do WASDE na produção global.
Evolução das estimativas de consumo e produção globais 2021/22 (milhões de toneladas)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.