Mais uma vez, o relatório de oferta e demanda do USDA era muito aguardado pelo mercado, diante da incorporação de ajustes na safra 2021/22 dos EUA e com possíveis novas revisões da safra 2022/23. Para o algodão, destaca-se o cenário econômico pessimista.
Soja
Para a soja, o USDA trouxe mais um corte da produção norte-americana 22/23, que ficou em 117,38 milhões de toneladas, caindo mais que o esperado pelo mercado, com uma produtividade média em 3,35 toneladas por hectare. Com isso, os estoques da safra nova permaneceram em 5,44 milhões, mesmo com o aumento dos estoques iniciais, após o relatório de posição trimestral, no último dia 30/09.
O relatório de estoques do mês passado revisou a safra norte-americana 21/22 para 121,5 milhões de toneladas, resultando em uma folga um pouco maior no ciclo anterior, mas cujo impacto na safra nova foi ofuscado pela queda da produção 22/23.
De qualquer forma, os resultados para os EUA podem ser considerados altistas para os preços, uma vez que indicam um balanço da safra 22/23 apertado no país. Contudo, olhar o contexto mais geral e considerar a oferta e demanda mundial da oleaginosa.
A oferta da safra 21/22 aumentou em 2,4 milhões de toneladas de produção (sendo 800 mil toneladas dos EUA e 1 milhão do Brasil), impactando diretamente os estoques mundiais, que avançaram 2,7 milhões de toneladas.
No caso da safra 22/23, a queda de 1,8 milhão de toneladas na produção dos EUA foi mais que compensada pelo aumento da produção brasileira, para 152 milhões de toneladas.
Pelo lado da demanda, destaca-se que o USDA elevou as importações chinesa 2022/23, mesmo com as preocupações com o ritmo do consumo no país, que mantém a política de tolerância zero contra a Covid-19, para 98 milhões de toneladas.
Em resumo, de maneira geral, o relatório reforçou a perspectiva da produção mundial superando o consumo no ciclo 2022/23, mesmo com as perdas nos EUA. Contudo, para esse cenário se confirmar, é preciso que a safra brasileira alcance o recorde esperado, acima de 150 milhões de toneladas e a Argentina tenha uma safra dentro da normalidade, num momento de ocorrência do La Niña pelo terceiro ano consecutivo. O fenômeno climático tende a resultar em precipitações abaixo do normal no sul da América do Sul e foi responsável pelas perdas registradas no ciclo passado no Brasil, na Argentina e no Paraguai.
Mundo | Produção e Consuo (milhões de toneladas)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX. *Estimativa USDA.
Milho
No caso do milho, umas das principais surpresas trazidas no último relatório do USDA foi o corte no rendimento da safra 2022/23 dos EUA, estimado agora em 10,79 ton/ha, número abaixo dos 10,83 ton/ha estimados no mês anterior. A queda na produtividade resultou em um corte na produção, que passou de 354,2 para 352,9 milhões de toneladas. Além disso, os estoques de passagem da safra 2021/22 também foram reduzidos, de 38,7 para 35 milhões de toneladas.
Mesmo com a revisão na estimativa de exportação para 2022/23 em função de um início mais lento das vendas na atual temporada, que foi reduzida de 57,8 para 54,6 milhões de toneladas, a mudança na demanda não foi capaz de compensar os cortes realizados no lado da oferta. Desse modo, os estoques finais em 2022/23 foram reduzidos, para 29,8 milhões de toneladas, contra 31 milhões no relatório anterior.
No que tange a demanda doméstica por milho dos EUA, vale destacar que, em razão da menor demanda por gasolina, o consumo para produção de etanol no ciclo 2022/23 foi reduzido em 1,3 milhão de toneladas, para 134 milhões. Contudo, esse corte foi compensado por um aumento de mesmo volume no uso para ração e residual, que ficou também estimado em 134 milhões de toneladas.
Pelo lado dos demais players, vale destacar a redução nas importações chinesas em 2021/22, de 23 para 22 milhões de toneladas, contudo, o número referente à temporada 2022/23 foi mantido em 18 milhões de toneladas.
Importante ressaltar também o aumento nas exportações ucranianas em 2022/23, de 13 para 15,5 milhões de toneladas, mesmo com a produção do país continuando estimada em 32,5 milhões de toneladas. Contudo, vale destacar que, com a escalada do conflito no Mar Negro, a continuidade do acordo de exportação de grãos pelos portos marítimos ucranianos foi colocada em xeque e, portanto, os embarques ucranianos são motivo de muita incerteza.
EUA | Rendimento (ton/ha) e produção (milhões de toneladas) de milho
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX. *Estimativa USDA..
Trigo
O trigo apresentou revisões importantes nas estimativas divulgadas pelo USDA em outubro, mas sem indicar surpresas. A publicação do Sumário Anual de Grãos Pequenos no final de setembro já havia dado indicativos das perspectivas para o mercado de trigo dos Estados Unidos.
Para o mercado doméstico, o USDA apontou mudanças no campo negativo para a oferta da safra 2022/23 norte-americana. A produção caiu de 48,52 para 44,9 milhões de toneladas, sendo acompanhada pelo nível de exportações previstas, que passou de 22,45 para 21,09 milhões de toneladas, também refletindo o ritmo lento de vendas e preços pouco competitivos.
No balanço de outros players importantes, o destaque ficou para a América do Sul. Não é novidade que a Argentina vem passando por uma crise caracterizada por secas severas em suas regiões produtoras. A produção ficou estimada em 17,5 milhões de toneladas, uma perda de 1,5 milhão de tonelada em relação a estimativa de setembro. A preocupação com sua produção recebe foco do governo e de investidores, que estão atentos a possíveis mudanças para um limite mais apertado de exportações, ou seja, alterações que possam ser implementadas para reduzir o limite atual de 10 milhões de toneladas que podem ser exportadas, para assim amenizar a possibilidade de oferta doméstica apertada.
Para o Brasil, o USDA aumentou a projeção de 8,7 para 9,2 milhões de toneladas a serem produzidas na safra 2022/23, seguindo a mesma tendência de maior produção já apontada pela StoneX em setembro. Diferente da Argentina, as condições de clima favoráveis ao bom desenvolvimento das lavouras e o volume de chuvas e geadas ainda em estágios pouco prejudiciais, contribuíram para um cultivo que poderá ser recorde.
Para a StoneX, a expectativa é que cerca de 10,05 milhões de toneladas sejam produzidas no Brasil, frente a estimativa de setembro de 9,67 milhões de toneladas. O aumento previsto para a produção também impactou as exportações, que foram elevadas de 2,5 para 2,8 milhões de toneladas.
Em termos de saldo global, a relação entre produção e consumo ficou mais ajustada, o que poderá aumentar as dificuldades em acessar o trigo. Cerca de 781,7 milhões de toneladas são previstas para a produção da safra 2022/23, frente a 790 milhões de toneladas esperadas para o consumo. A relação de estoque/uso ficou em 33,86%, reforçando a redução nos estoques finais.
Estimativas de O&D 2021/22 e 2022/23 (milhões de toneladas)

Fonte: USDA. Elaboração: StoneX. *Estimativa USDA.
O WASDE de outubro alimentou a tendência baixista do mercado de algodão ao apresentar projeções pessimistas para a demanda global da pluma no ciclo 22/23. O USDA estimou uma queda mais acentuada do consumo global, ficando agora em 25,2 milhões de toneladas, enquanto a produção apresentou um recuo menor em relação ao reporte de setembro, com 25,7 milhões de toneladas. Os maiores cortes de demanda originaram da China (-2,7%) e Índia (-4%), o que se traduziu em um aumento dos estoques finais e queda das exportações.
Os investidores já aguardavam revisões sobre a estimativa de consumo global da pluma, uma vez que o aperto monetário de bancos centrais de diversos países avançou no terceiro trimestre e os últimos relatórios não apresentaram mudanças significativas nas projeções da demanda. O WASDE de outubro, no entanto, realizou um ajuste mais agressivo do que o mercado esperava, o que resultou em um balanço de oferta e demanda superavitário, com o consumo global retraindo 1,5% em relação ao ciclo 21/22.
O mercado entende que ainda haveria margens para redução do consumo nos próximos reportes, dado que a desaceleração da economia em importantes mercados demandantes da pluma deve se intensificar no quarto trimestre e reverberar no início de 2023. Com uma piora da economia, a renda das famílias tende a contrair, o que leva ao corte de gastos discricionários, com produtos derivados do algodão tendo o consumo adiado em favorecimento de bens de primeira necessidade, como alimentos e energia. Algumas fiadoras da Ásia, como na China e Paquistão, já vêm operando em capacidade reduzida diante de aumento dos estoques e quedas nas vendas do varejo.
Do lado da oferta também se observou uma queda na expectativa de produção global, resultado de leves recuos da oferta do Paquistão e Estados Unidos. O Paquistão deve produzir 1,1 milhão de toneladas, 13,3% a menos do que no ciclo 21/22, resultado das enchentes que afetaram as lavouras do país em agosto. Os Estados Unidos, por sua vez, não apresentaram grandes cortes de produção mesmo com o furacão Ian impactando alguns estados que compõem o Cotton Belt em setembro.
Com as novas estimativas, os estoques finais apresentaram um aumento nos principais países exportadores da pluma.
Evolução do balanço de oferta e demanda globais (em milhões de toneladas)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX. *Estimativa USDA.