Na segunda-feira (dia 12), o USDA divulgou o seu relatório mensal de oferta e demanda, muito aguardado por causa dos possíveis ajustes na safra norte-americana 2022/23, além de revisões em números da Ucrânia, diante da incerteza frente ao contexto de conflito.
Soja
A safra de soja norte-americana esteve no centro das atenções no último mês, uma vez que agosto concentra a fase chave de enchimento de grãos das lavouras no país e o oeste da região produtora vinha registrando um clima mais seco.
Nesse contexto, o USDA reduziu a estimativa de produtividade para a safra dos EUA 2022/23, mas trazendo um recuo acima do esperado, com a média nacional ficando em 3,4 toneladas por hectare. Além disso, houve um corte da área colhida, de cerca de 243 mil hectares. Assim, a produção estimada de soja foi reduzida para 119,16 milhões de toneladas, nível que já não configura um recorde.
Outro destaque foi o corte das exportações das safras 2021/22 e 2022/23 dos EUA para, respectivamente, 58,38 e 56,74 milhões de toneladas. De qualquer forma, o recuo pelo lado da demanda não compensou totalmente o corte da produção, com os estoques finais 2022/23 diminuindo para 5,44 milhões de toneladas, com uma relação estoque/uso de 4,5%.
Para Brasil e Argentina, o Departamento não trouxe alterações nas estimativas de produção, lembrando que, com uma menor safra nos EUA, aumenta ainda mais a dependência do resultado na América do Sul para garantir um balanço de oferta e demanda mais confortável, uma vez que a produção da oleaginosa é muito concentrada. Com isso, o mercado estará atento ao clima nos próximos meses, com perspectivas de La Niña pelo terceiro ano consecutivo, que tende a resultar em níveis mais baixos de chuvas no sul da América do Sul.
No caso da China, o USDA cortou a estimativa de importações no ciclo 2022/23 para 97 milhões de toneladas, queda de 1 milhão frente ao relatório anterior, num momento em que há dúvidas sobre qual será o consumo do país, em meio a indicadores mostrando um desempenho econômico mais fraco e com a manutenção da política de tolerância zero contra a Covid-19.
No balanço mundial, houve recuo dos estoques finais estimados 2022/23 para abaixo de 100 milhões de toneladas, com a produção caindo de forma mais acentuada que o consumo.
EUA | Evolução da produção (milhões de toneladas) e da produtividade (ton/ha)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.
Milho
Apesar de julho ser o mês que mais recebe atenção dos agentes quando se fala do clima e do seu impacto na produtividade da safra norte-americana de milho, o tema ainda foi motivo de muita discussão ao longo das últimas semanas. Importantes regiões produtoras do país apresentaram um padrão mais quente e seco que o normal durante fases cruciais para o desenvolvimento do cereal, fazendo com que o mercado aguardasse por mais uma revisão para baixo na estimativa de produtividade do USDA para a safra 2022/23 dos EUA. A média das estimativas dos agentes apontava para um recuo de 11 t/ha em agosto para 10,8 t/ha em setembro, o que se confirmou com a divulgação do relatório.
Apesar de uma revisão na produtividade em linha com o esperado pelo mercado, o corte na produção surpreendeu os agentes. Isso porque o Departamento reduziu sua estimativa de área colhida em 421 mil hectares, para 32,7 milhões, ao passo que a média das estimativas apontava para uma área de 33,06 milhões de hectares, número muito próximo do trazido no relatório de agosto.
Com isso, a estimativa de produção do USDA para a safra 2022/23 dos EUA recuou de 364,7 para 354,2 milhões de toneladas, ficando abaixo da média das estimativas do mercado, de 357,8 milhões de toneladas. Em meio ao corte de 10,5 milhões de toneladas na produção, espera-se também um racionamento no consumo.
As exportações e o consumo para ração, recuaram 2,5 milhões, passando de, respectivamente, 60,3 milhões para 57,8 milhões de toneladas e de 135,3 milhões para 132,7 milhões de toneladas. Outra redução pelo lado do consumo foi na demanda pelo cereal para a produção de etanol, que passou de 136,5 para 135,3 milhões de toneladas. Contudo, no caso do biocombustível, pode-se dizer que seu corte foi motivado mais por uma menor demanda por gasolina do que pelo racionamento causado pela menor produção.
Como resultado dessas revisões, os estoques finais norte-americanos em 2022/23 foram reduzidos em 4,3 milhões de toneladas, para 31 milhões, o menor patamar desde 2012/13, levando a uma relação estoque/uso de 8,5%, o segundo menor nível desde 2012/13.
Em relação aos demais players, vale destacar o aumento de 3 milhões de toneladas na produção chinesa 2022/23, para 274 milhões e a manutenção das importações e do consumo doméstico em, respectivamente, 18 milhões e 295 milhões de toneladas, visto que não seria uma surpresa observarmos cortes nessas variáveis em meio aos impactos negativos na economia chinesa causados pela política de covid-zero no país.
Vale enfatizar também as mudanças nas estimativas para a safra ucraniana 2022/23. Apesar de todas as incertezas em meio ao conflito, a produção do país foi elevada de 30 para 31,5 mihões de toneladas, revisão que foi acompanhada por um aumento de 1 milhão de toneladas no consumo doméstico, para 12,7 milhões, e de 500 mil toneladas nas exportações, para 13 milhões.
EUA | Evolução da produção e dos estoques finais (milhões de toneladas)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX. *Estimativa USDA..
Trigo
O trigo quase não sofreu alterações nas estimativas divulgadas pelo USDA em setembro. Em termos de saldo global, a relação entre produção e consumo continua a preocupar diversos países que sofrem com dificuldades em acessar o trigo. Cerca de 783,9 milhões de toneladas são previstas para a produção da safra 2022/23, frente a 791 milhões de toneladas esperadas para o consumo.
Apesar do aumento de 4,3 milhões de toneladas na produção em relação à estimativa de agosto, a diferença no balanço global entre a produção e consumo continua elevada, na ordem de 7,1 milhões de toneladas.
Para o mercado doméstico dos Estados Unidos, não foram feitos ajustes em nenhum parâmetro para a safra 2022/23. No balanço de outros players importantes, se destaca o aumento da produção estimada para Rússia e Ucrânia. É válido lembrar que tanto a Rússia, quanto a Ucrânia, são peças-chave nas exportações de grãos do mundo. Para o trigo russo, a perspectiva de produção passou de 88 para 91 milhões de toneladas, enquanto para o trigo ucraniano o aumento foi de 1 milhão de toneladas, passando de 19,5 para 20,5 milhões de toneladas. Esse incremento traz certo alívio para balanço global de oferta e demanda, entretanto, o volume que efetivamente será ofertado a partir destes territórios é sujeito a muita incerteza, dado o cenário geopolítico.
Para o Brasil, o USDA aumentou em 1 milhão de toneladas a projeção de agosto em relação a julho, mas neste mês de setembro manteve a projeção para a produção em 8,7 milhões de toneladas. Ao acompanhar as condições de clima favoráveis ao bom desenvolvimento das lavouras e o volume de chuvas e geadas ainda em estágios pouco prejudiciais, a StoneX divulgou sua estimativa para a safra de trigo brasileiro em que se espera uma produção mais otimista, na ordem de 9,67 milhões de toneladas. É importante indicar que o mês de setembro será importante para regiões mais ao sul do Paraná e para os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, pois o clima pode ainda ter efeitos sobre os rendimentos da safra.
Variação das estimativas de produção da safra 2022/23 (em milhões de toneladas)

Fonte: USDA. Elaboração: StoneX. *Estimativa USDA.
Em setembro, as projeções do WASDE surpreenderam o mercado de algodão mais uma vez. O órgão estimou um aumento em 10% na produção norte-americana, compensando as perdas das lavouras no Paquistão no ciclo 2022/23. A demanda, por sua vez, apresentou quedas menores do que os agentes esperavam, com o USDA reduzindo o consumo global para 25,8 milhões de toneladas. O relatório pode ser considerado baixista para a pluma, especialmente por conta do crescimento da produção mundial, mas o mercado analisa os números com cautela.
Entre os destaques do relatório de setembro está o aumento da oferta dos Estados Unidos. Em agosto, o WASDE havia reduzido as projeções da safra 22/23 do país em 28% em decorrência da seca no Cinturão de Algodão, o que alarmou o mercado na época. No entanto, a atualização do relatório de área plantada do FSA revelou que o país cultivou algodão em 5,5 milhões de hectares, cerca de 500 mil a mais do que nos relatórios iniciais, aumentando a expectativa da produção dos EUA. Dessa maneira, as novas projeções do WASDE apontam uma safra de 3 milhões de toneladas nesse ciclo, valor ainda 20% menor do que aquele registrado em 21/22.
Outro ponto de atenção foi a queda das projeções de produção do Paquistão. O país é um dos maiores consumidores da pluma globalmente, e se esperava uma safra de quase 1,3 milhão de toneladas em 22/23. Com níveis de chuvas acima do normal para a região e alagamento de diversas cidades do país, o mercado especulava que parte significativa das lavouras de algodão fosse afetadas. No entanto, o USDA reduziu a oferta do Paquistão para 1,2 milhão de toneladas, 11,3% a menos do que o número de agosto.
A surpresa para o mercado, por sua vez, se concentra nas projeções de consumo global. Com a escalada de preços e desaceleração econômica em importantes mercados consumidores da pluma, a expectativa era de que o USDA reduzisse a demanda no ciclo 22/23. O órgão realizou esse reajuste, mas em magnitude menor do que esperado, considerando o consumo global em 25,8 milhões de toneladas, nível apenas 0,7% menor do que aquele em 21/22. A revisão foi consequência da queda do consumo no Paquistão e Vietnã, mas países como China não tiveram o indicador alterado, mesmo com sinais de que o setor têxtil esteja operando em capacidades reduzidas e desaceleração do mercado físico. Assim, o mercado espera que o WASDE faça revisões maiores nos próximos meses, influenciado agora por novos apertos monetários de Bancos Centrais da Europa e Estados Unidos.
Evolução consumo global de algodão (em milhões de toneladas)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.