Na última sexta-feira (dia 12), o USDA divulgou seu relatório mensal de oferta e demanda, muito aguardado por ser o primeiro em que ocorrem revisões de produtividade da safra nova dos EUA com base em pesquisas com os produtores, para a soja e o milho. Além disso, culturas com calendários diferentes, no geral, também registram revisões.
Soja
Para a soja, o USDA realmente trouxe ajustes para o rendimento norte-americano 2022/23, mas para cima, na direção contrária do esperado pelo mercado, ficando em 3,49 toneladas por hectare. Esse nível seria um recorde, levando a produção para 123,3 milhões de toneladas, maior volume já alcançado pelo país. Destaca-se que houve uma pequena revisão para baixo na área plantada, em decorrência dos atrasos no início do plantio, sendo que o número de área divulgado em 30 de junho não captou totalmente os resultados dos estados mais ao norte do cinturão.
Essa perspectiva para a safra nova norte-americana surpreendeu, uma vez que o clima nos EUA tem registrado um padrão mais seco e quente, principalmente no oeste da região produtora. Contudo, como o mês de agosto é muito importante para a soja, por concentrar a fase de enchimento de grão, os relatórios dos próximos meses ainda devem trazer mudanças
Produtividade da safra de soja – EUA (toneladas por hectare)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.
Em relação às variáveis de demanda, o destaque foi o pequeno corte das exportações da safra 2021/22 dos EUA, que ficou em 58,8 milhões de toneladas, lembrando que o ciclo se encerrada agora no final de agosto.
Não houve ajustes significativos para os números de Brasil, Argentina e China.
Já o balanço mundial estimado para o ciclo 2022/26 continua mostrando a produção acima do consumo, com os estoques finais ficando em 101,4 milhões de toneladas.
Milho
Assim como no caso da soja, o USDA também ajustou a produtividade do milho dos EUA. O rendimento da safra 22/23 foi reduzido de 11,11 ton/ha para 11,01 ton/ha, contra a média das estimativas do mercado de 11,04 ton/ha. Em função do atraso no plantio, o mercado esperava também por uma revisão na área dos EUA. Contudo, a área colhida do cereal não sofreu grande alteração e recebeu um leve corte, de 0,1% em comparação com o número anterior, para 33,1 milhões de hectares.
Desse modo, a produção 22/23 dos EUA sofreu uma queda de 1% em relação à estimativa de julho, para 364,7 milhões de toneladas, número que surpreendeu o mercado, já que a média das estimativas apontava para uma produção de 365,6 milhões de toneladas, mas em linha com o estimado pela StoneX no início deste mês (364,5 milhões de toneladas).
Pelo lado da demanda, o Departamento promoveu ajustes tanto na safra atual (21/22) como na próxima. Começando pela safra 21/22, o USDA reduziu o consumo doméstico em 0,5 milhão de toneladas, para 314,8 milhões, corte puxado pela expectativa de uma menor demanda pelo cereal para a produção de etanol. Em relação à safra 22/23, a redução na demanda pelo milho norte-americano ocorreu tanto pelo lado do mercado doméstico como do externo. Dessa vez motivada por uma perspectiva de queda no uso para ração, o consumo interno foi reduzido também em 0,5 milhão de toneladas, para 308,6 milhões. Já as exportações receberam um corte de 635 mil toneladas, para 60,3 milhões.
Produtividade (ton/ha) e produção (milhões de toneladas) da safra de milho – EUA

Fonte: USDA. Elaboração: StoneX. *Estimativa USDA..
Em meio a esses ajustes, os estoques finais da safra 22/23 caíram cerca de 5,6% em relação à estimativa de julho, para 35,3 milhões de toneladas, abaixo da média das estimativas do mercado, de 35,6 milhões de toneladas, mas acima das 33,2 milhões de toneladas estimadas pela StoneX.
Em relação aos demais players, destaca-se o aumento na estimativa de produção ucraniana 22/23, de 25 para 30 milhões de toneladas, que foi acompanhado por uma revisão positiva nas exportações, de 9 milhões para 12,5 milhões de toneladas, e no consumo doméstico ucraniano, de 10,7 milhões para 11,7 milhões de toneladas. Após o acordo firmado recentemente para a criação de um corredor de exportação ucraniano pelo Mar Negro, observou-se a retomada do fluxo de grãos ucranianos pelos portos do Mar Negro. O volume observado até então ainda é bem inferior ao registrado antes do conflito, mas à medida que novas embarcações deixam os portos da Ucrânia e não se têm registros de descumprimento do acordo, cresce o otimismo em torno de um aumento na oferta de milho no mercado internacional.
O USDA trouxe uma queda na produção da União Europeia, que passou de 68 para 60 milhões de toneladas. A Europa tem passado por uma seca severa, fator que motivou o corte citado. Em meio à menor produção, o Departamento espera que as importações totalizem 19 milhões de toneladas em 22/23, 3 milhões de toneladas a mais que o previamente estimado.
No balanço mundial, os estoques finais esperados para os ciclos 2021/22 e 2022/23 caíram para, respectivamente, 311,8 milhões de toneladas e 306,7 milhões, números inferiores à média das estimativas do mercado.
Trigo
Além da soja e milho, o trigo também chamou a atenção ao ter suas estimativas para a produção revisadas. No mercado doméstico dos Estados Unidos, a produção da safra 2022/23 sofreu sútil ajuste, passando de 48,47 para 48,52 milhões de toneladas, o que acompanhou o ganho nos rendimentos que alcançaram 47,50 bushels por acre. Entretanto, o aumento na estimativa para o volume produzido ainda ficou abaixo do esperado pelo mercado, cerca de 48,74 milhões de toneladas. Mesmo assim, vale destacar que ainda se trata de uma quantidade superior em relação a safra anterior do país, da ordem de 44,79 milhões de toneladas.
Para a perspectiva mundial, a estimativa de produção saltou de 771,64 milhões de toneladas (divulgadas no WASDE de julho), para 779,60 milhões de toneladas na safra 2022/23, se mostrando assim mais promissora. Apesar disso, o consumo continua sendo maior que a produção, chamando, portanto, atenção para a tendência de patamares elevados para os preços de alimentos. O consumo foi estimado em 788,60 milhões de toneladas, 9 milhões superior a produção. Além disso, os estoques finais sofreram pequena queda, assim como a relação de estoque/uso.
No balanço de outros players importantes, se observa queda de 2 milhões de toneladas estimadas para a produção da União Europeia e redução de 500 mil toneladas para a produção da Argentina. Na contramão, houve aumento de 1 milhão de toneladas para a produção do Canadá e 200 mil toneladas para o Brasil.
De forma mais contrastante, a Rússia obteve aumento surpreendente de 6,5 milhões de toneladas para a produção da sua safra 2022/23, chegando a 88 milhões de toneladas, enquanto China e Austrália tiveram aumento de 3 milhões de toneladas, alcançando uma produção estimada em 33 e 138 milhões de toneladas respectivamente.
Evolução da produção de trigo a nível global (milhões de toneladas)

Fonte: USDA. Elaboração: StoneX. *Estimativa USDA.
O relatório do WASDE de agosto ocasionou um evento sem precedentes para o mercado de algodão na sexta-feira (12). O reporte trouxe novas projeções para o ciclo 2022/23 norte-americano com revisões que podem ser consideradas até mesmo agressivas, o que impulsionou as cotações dos futuros da pluma para as máximas diárias na sexta, e os impactos do reporte continuam ecoando no mercado no começo dessa semana. Além disso, as quedas no consumo global têm ocorrido de maneira mais lenta do que a produção, mesmo com os sinais da estagflação global ainda presentes. Logo, o consumo global está em 25,9 milhões de toneladas enquanto a produção gira em torno de 25,5 milhões, um déficit que alimentou o sentimento altista.
Os Estados Unidos devem ter uma safra 2022/23, 28% a menos do que a anterior e o pior resultado desde 2009/10, produzindo apenas 2,7 milhões de toneladas. Em relação ao relatório de julho, o USDA fez um corte na oferta do país em 3 milhões de fardos, reajuste mais intenso do que é de costume para o reporte, e muito mais agressivo do que o mercado esperava. Isso derivou uma queda de 18% das exportações (2,6 milhões de toneladas) e um dos menores volumes de estoques finais da história do país, com apenas 1,8 milhões de toneladas.
Tudo isso é consequência da seca excepcional que abrangeu grande parte do cinturão de algodão do país, especialmente o Texas, responsável por 60% da oferta nacional. Com o estresse hídrico, intensificado com as altas temperaturas do verão, as lavouras não irrigadas estão produzindo muito pouco, chegando a serem abandonadas pelos agricultores. Dessa maneira, a taxa de abandono do país já atinge 43% para o ciclo atual, contrastando com os 8% registrados na safra anterior (apenas no Texas esse índice já alcança 68% das lavouras). Assim, apesar da quebra de safra já ser antecipada pelo mercado, o WASDE surpreendeu ao mostrar que ela seria mais acentuada do que se previa anteriormente.
Considerando o balanço global, os reajustes da safra dos Estados Unidos lideraram as variações. Dessa forma, indicadores de produção, estoques finais e exportações reduziram praticamente na mesma medida que os EUA. O consumo doméstico também foi reajustado para baixo, nos principais países importadores da pluma, como Bangladesh, Vietnã e Paquistão, mas de maneira mais tímida, consequência da desaceleração da economia mundial e avanço da inflação. A China teve um corte mais expressivo nas importações em relação ao valor projetado em julho, uma queda de 10%, mas o volume internalizado ainda deve ser maior do que aquele registrado em 2021/22.
Produção (milhões de toneladas) e taxa de abandono (%) da safra de algodão – EUA
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.