Na quinta-feira (dia 12), o USDA divulgou seu relatório mensal de oferta e demanda, que sempre é muito aguardado, mas com destaque para os primeiros números para a safra 2022/23.
Apesar de ser cedo e muita coisa ainda vai mudar ao longo do novo ciclo, o relatório forneceu insights sobre o que o departamento espera para os próximos meses, num momento de várias indefinições, como as relacionadas ao conflito na Ucrânia.
Soja
Para a safra nova dos EUA, o USDA manteve a área divulgada nas intenções de plantio no final de março e a produtividade do Fórum Agrícola. Como se espera um grande crescimento da área, a produção foi estimada no recorde de 126,3 milhões de toneladas. Com uma perspectiva de aumento do consumo interno e das exportações, os estoques finais ficaram em 8,4 milhões de toneladas, o que significa um balanço ainda restrito. Para o ciclo 2021/22, destaca-se o novo aumento das exportações, para 58,2 milhões de toneladas, com os estoques finais caindo um pouco mais, para 6,4 milhões de toneladas.
No caso do balanço da safra 2022/23, é importante fazer um paralelo com o que foi divulgado para o milho e está detalhado na seção sobre o cereal, a seguir. Ao mesmo tempo em que o USDA estima um aumento do consumo da soja norte-americana e também mundial, foi estimado um recuo da demanda pelo milho dos EUA e uma queda do consumo do cereal também no mundo, o que configura um cenário de certa forma conflitante, uma vez que a demanda por ambos está estritamente relacionada no mercado de ração. Dessa forma, essa dinâmica entre os dois mercados também deve passar por alterações ao longo do tempo, com a revisão dos números de oferta e demanda.
Já em relação à América do Sul, destacam-se os números da safra 2021/22, com a produção brasileira mantida em 125 milhões de toneladas, enquanto a argentina caiu para 42 milhões.
Pelo lado da demanda chinesa, as importações do ciclo atual foram elevadas para 92 milhões de toneladas, após alguns meses de revisões para baixo. Destaca-se, também, a perspectiva de que o país volte a comprar volumes maiores da oleaginosa na safra 2022/23, com a estimativa de importação ficando em 99 milhões de toneladas.
Para o balanço mundial, destaca-se que se espera um crescimento dos estoques finais no ciclo 2022/23, para 99,6 milhões de toneladas, enquanto o número da safra atual foi cortado para 85,2 milhões.
Balanço de O&D de soja - EUA (milhões de toneladas)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.
Milho
Em relação à nova safra norte-americana do cereal, o Departamento trouxe uma produção de 367,3 milhões de toneladas, 4,3% a menos que o estimado no ano anterior, reflexo de uma contração de mesma intensidade na área colhida, estimada em 33,1 milhões de hectares. A produtividade utilizada foi de 11,1 t/ha, o mesmo rendimento médio obtido na temporada 21/22, mas diferente do trazido no Fórum Agrícola (11,4 t/ha), o que representa uma mudança na metodologia utilizada pelo Departamento. Nos últimos 8 anos o USDA utilizou um modelo para o cálculo preliminar do rendimento conhecido como modelo de rendimento W-J, cujo resultado era divulgado no Fórum Agrícola e reutilizado no relatório de maio.
O Departamento declarou que essa redução de 0,3 t/ha na produtividade é uma forma de ajustar o resultado obtido no modelo utilizado para o Fórum com o ritmo significativamente atrasado do plantio, que deve limitar o potencial produtivo do país. Com isso, o USDA “antecipou” um corte de 8,3 milhões de toneladas, ou 2,2% em sua estimativa de produção.
Em meio à menor produção norte-americana, o USDA reduziu também o consumo do cereal no país. A demanda doméstica ficou estimada em 309 milhões de toneladas, recuo de 2,2% em comparação com a safra anterior, enquanto as exportações foram reduzidas para 61 milhões de toneladas, uma contração de 4% no comparativo anual.
Mesmo com o racionamento do consumo, o Departamento estima um recuo nos estoques finais dos EUA, para 34,5 milhões de toneladas, volume 5,6% menor que o estimado para 2021/22. Com isso, a relação Estoque/Uso caiu para 9,34%, 0,3 p. p. abaixo da safra anterior.
Em relação à safra 2022/23 dos demais países, os principais destaques foram a estimativa de produção do Brasil, que ficou em 126 milhões de toneladas, 10 milhões a mais que o número estimado para a safra atual, e de produção da Ucrânia, que ficou em 19,5 milhões de toneladas, contra 42,1 milhões em 21/22, refletindo a preocupação com os impactos da guerra sobre a safra do país.
Em relação à demanda global pelo cereal, assim como observado no caso dos EUA – e como já destacado na seção da soja -, o USDA estima uma queda no consumo global de milho em 2022/23, para 1.185 milhões de toneladas, contra 1.199,4 milhões em 2021/22. Era de se esperar uma redução na demanda, visto que o Departamento projeta uma contração ainda maior na produção global, passando de 1215,6 milhões em 2021/22 para 1180,7 milhões em 2022/23. Porém, como já comentado, esse cenário diverge da tendência apontada para a oleaginosa e da complementariedade dos dois grãos no uso para ração, visto que o cereal é uma das principais fontes de energia para os animais, ao passo que a soja é a principal fonte de proteína.
Balanço de O&D de milho - EUA (milhões de toneladas)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.
Trigo
Em sua primeira estimativa para a safra 2022/23, o USDA chamou a atenção para a redução dos estoques mundiais de trigo, estimados com uma queda de 12 milhões de toneladas (-4%). Esta projeção reflete a alta demanda, condições climáticas desfavoráveis que permeiam diferentes regiões produtoras e a continuidade do conflito no Mar Negro.
Para o trigo no cenário doméstico dos EUA, o USDA indicou fundamentos altistas para a safra de 2022/23, cuja oferta interna continua em patamar relativamente reduzido e com menor uso doméstico, além de preços mais altos. A produção de trigo para 2022/23 está projetada em 47,05 milhões de toneladas, já que os rendimentos mais altos compensaram a diminuição na área colhida.
A safra 2021/22 de trigo de inverno dos EUA foi prevista com uma queda de 6% em relação ao ano passado. Para o trigo de inverno vermelho duro, principal variedade nos EUA, a queda seria de 21%, para um total de 16 milhões de toneladas, por causa da seca nas Planícies do Sul. Já para o plantio de primavera, o USDA projetou uma recuperação significativa que permitirá que a produção total do trigo dos EUA aumente 0,5% em relação ao ano passado.
Chamou a atenção, o maior abandono registrado desde 2002 do trigo de inverno, com os patamares mais elevados no Texas e em Oklahoma. Em relação às exportações, cerca de 21,09 milhões de toneladas são estimadas, abaixo da safra 2021/22, continuando em ritmo lento e, caso se concretize, será o volume mais baixo desde 1971/72. Este cenário tende a continuar caso os EUA permaneçam não competitivos para a maioria dos mercados. Os estoques finais projetados para 2022/23 são 6% menores do que no ano passado, em 16,85 milhões de toneladas, o nível mais baixo em nove anos.
No cenário internacional, o WASDE seguiu chamando a atenção para os fatores altistas para os preços. Antes do conflito entre Rússia e Ucrânia, a estimativa era de que a Ucrânia iria exportar 24 milhões de toneladas, enquanto a Rússia se comprometeria com 35 milhões. Entretanto, com o avanço do conflito, a expectativa caiu para 19 e 33 milhões de toneladas, respectivamente, uma redução de 12% no total para a safra 2021/22.
Evolução das exportações de trigo (milhões de toneladas)

Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.
Vale lembrar que a Ucrânia é um dos maiores fornecedores de trigo no mercado internacional. Segundo as estimativas para a safra 2022/23, serão colhidos apenas 21,5 milhões de toneladas de trigo, 35% menos do que em 2021, e as exportações de 10 milhões seriam metade dos 19 milhões do ano comercial que está terminando.
Por outro lado, a Rússia se mantém como o principal país exportador de trigo e colheria 80 milhões de toneladas, com 39 milhões de toneladas a serem exportadas na safra 2022/23. Depois da Rússia, União Europeia, Austrália, Canadá e Estados Unidos ocupam o espaço de principais fornecedores.
Em termos de produção global, a redução da produção na Ucrânia, Austrália e Marrocos é parcialmente compensada por aumentos nas safras do Canadá, Rússia e Estados Unidos. O consumo mundial projetado para 2022/23 é ligeiramente menor, uma vez que os aumentos para o uso de alimentos são mais compensados pelo declínio da alimentação animal e do uso residual. As reduções para uso de ração e residual estão presentes na China, União Europeia e Austrália, bem como um declínio considerável no uso para alimentos na Índia.
Por fim, o USDA chamou a atenção para a redução das perspectivas dos estoques finais globais, para 267 milhões de toneladas (-5%), menor nível em seis anos. O destaque desta variação é para a Índia, onde a queda prevista é de 16,4 milhões de toneladas. Para agravar o cenário de oferta, a Índia anunciou que proibirá as exportações de trigo, pois o clima quente e seco aumentou as preocupações com o rendimento da safra 2022/23 do país, após consecutivas safras recordes. A Índia é o segundo maior produtor mundial de trigo e vem ganhando espaço como importante parceiro comercial após o início do conflito entre Rússia e Ucrânia, dado que os suprimentos indianos eram alternativas acessíveis e próximas para compradores asiáticos, norte-africanos e do Oriente Médio.
O relatório do WASDE movimentou o mercado de algodão após trazer projeções conservadoras quanto a oferta e demanda mundial para o ciclo 22/23. Estima-se que a oferta global de 26,36 milhões de toneladas não será suficiente para atender a demanda, mesmo esta apresentando uma queda em relação à safra anterior, o que levou ao aumento das precificações da fibra no dia em que o relatório foi divulgado.
A entidade revisou alguns indicadores do ciclo 21/22, reduzindo a produção mundial de algodão de 26,17 milhões de toneladas em abril para 25,79 milhões em maio. Isso é reflexo da quebra da safra indiana, afetada por fatores climáticos, levando a um aumento das importações do país e diminuição das exportações. O consumo global também foi revisado para baixo, atingindo 26,77 milhões de toneladas em maio contra 27,01 milhões estimadas em abril. Esse indicador tem sido impactado pela queda do consumo chinês, fruto dos lockdowns no país.
Os destaques, no entanto, são as primeiras projeções para o ciclo 2022/23. Estima-se que a oferta global aumentará, mas os Estado Unidos, um dos maiores exportadores da pluma, devem ter uma redução da produção interna - 3,59 milhões de toneladas na próxima temporada contra os 3,81 milhões ofertados no ciclo anterior. Isso significa que o USDA já considera uma possível quebra de safra decorrente do clima extremamente seco e desfavorável para o cultivo no Texas, maior ofertante no país. Diante do cenário norte-americano, o WASDE aponta que Brasil e Austrália irão aumentar o seu “market share”, exportando 2,18 e 1,24 milhões de toneladas respectivamente. Isso representa um aumento de 26% das exportações brasileiras e 29% das australianas.
O relatório também aponta uma queda da demanda global por algodão, 26,56 milhões de toneladas, contra as 26,77 milhões na safra 21/22. O consumo mundial já estava em tendência de queda, mas a nova atualização sinaliza que a desaceleração da economia global, com as taxas de inflação mais altas, e o aumento da precificação da pluma, podem afetar a demanda.
Acredita-se que a demanda mundial possa reduzir ainda mais caso os fatores baixistas se intensifiquem nos próximos meses, especialmente no que tange à desaceleração da economia global. Além disso, a oferta mundial também pode ser revisada para baixo, dadas as incertezas quanto à safra norte-americana e possíveis quedas de produtividade em outros importantes países exportadores.
Produção de algodão - EUA (milhões de toneladas)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.
Para o complexo de óleos vegetais, o relatório do WASDE de maio se mostrou relativamente conservador para os números da temporada 21/22, e não promoveu grandes revisões para a O&D do óleo de soja. Para o óleo de palma, no entanto, o Departamento precisou se ajustar aos recentes banimentos de exportação da Indonésia, maior produtor e exportador do óleo mais consumido no mundo.
Neste último relatório, o USDA removeu 3 milhões de toneladas de óleo de palma da estimativa de exportação da Indonésia em 21/22, encerrando o ciclo com uma expectativa de 25 milhões de toneladas exportadas. Diante do corte das vendas no país vizinho, o USDA elevou a expectativa das exportações da Malásia em 200 mil toneladas, para 16,42 milhões de toneladas, considerando que o país não conseguirá suprir totalmente a ausência do óleo da Indonésia no mercado. Com o menor fluxo de óleo de palma deixando o Sudeste Asiático, o consumo do óleo na China foi cortado em 1,6 milhão de toneladas, para 5,75 milhões de toneladas. Além da menor oferta disponível no curto prazo, o consumo chinês da palma foi significativamente prejudicado nas últimas semanas, em decorrência do preço pouco competitivo do óleo tropical no cenário internacional, mas principalmente pelos lockdowns impostos por Pequim sobre importantes cidades consumidoras.
Para 21/22, o USDA cortou a estimativa de estoques finais globais de palma de 48,2 milhões de toneladas em abril, para 45,5 milhões no relatório de maio.
Para a temporada 22/23, o USDA renova, novamente, a expectativa de oferta recorde de óleos vegetais, com uma produção global de 226,8 milhões de toneladas do complexo, contra o recorde do ano anterior de 220,6 milhões. O consumo dos óleos também deverá crescer, mas até o momento, o USDA vê um leve alívio na relação estoque/uso de óleos em 22/23, para 13,2%, após recuar ao menor nível em 5 anos em 21/22.
A demanda para o setor de biocombustíveis deverá seguir liderando o crescimento do consumo de óleos vegetais, de acordo com o USDA, e ganhando maior participar no consumo total. O volume de óleos destinado ao setor de combustíveis deverá crescer cerca de 5% em 22/23, em relação a 21/22, já o setor alimentício, deverá ter seu consumo de óleos 2,3% maior no próximo ciclo. Os óleos de soja e palma lideram o crescimento do consumo industrial de óleos vegetais em 22/23, e o USDA estima um crescimento de 5,5% e 6,2%, respectivamente, em suas demandas para fabricação de combustíveis. Apenas os EUA deverão elevar o consumo de óleo de soja para o setor industrial em 12%.
O&D Global do complexo de óleos vegetais
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.