O relatório de oferta e demanda do USDA trouxe ajustes para a safra da América do Sul de grãos. Para o trigo destaque para aumento das importações de alguns países. No caso dos óleos vegetais, houve recuo da expectativa de exportações da Indonésia. Já para o algodão, o relatório continuou indicando consumo aquecido.
Acompanhe mais detalhes a seguir!
Soja
Para a soja, havia grande expectativa para a atualização dos números da América do Sul, diante do cenário de perdas de safra e com as consultorias privadas fazendo cortes expressivos
O USDA cortou a safra brasileira 2021/22 para 134 milhões de toneladas e a argentina para 45 milhões. Mesmo assim, em relação aos números que vêm sendo divulgados, esses cortes foram moderados. A StoneX, por exemplo, estima uma safra de 126,5 milhões de toneladas para o Brasil.
A Conab divulgou seu levantamento mensal um dia após o USDA e reduziu a safra brasileira de 140,5 para 125,5 milhões de toneladas.
Mesmo que os cortes do USDA estejam aquém do que vem sendo divulgado por outras instituições, essas perdas resultarão em um rearranjo dos fluxos de soja ao redor do mundo. Por exemplo, o Departamento cortou as exportações brasileiras do ciclo 2021/22 de 94 para 90,5 milhões de toneladas. Contudo, no comparativo com a StoneX, o USDA ainda aposta em exportações muito elevadas. A StoneX estima 80 milhões de toneladas, mas lembrando que o período do ano safra é diferente.
Em meio a esse cenário, o USDA manteve a estimativa de exportações dos EUA para a safra 2021/22 em 55,8 milhões de toneladas, mesmo com as vendas e os embarques bem mais baixos que no ano passado. Com a menor disponibilidade de soja no Brasil, as exportações norte-americanas devem ganhar um impulso em períodos não tão usuais. Destaca-se, também, que o esmagamento dos EUA foi elevado para 60,3 milhões de toneladas, diante de um processamento aquecido de soja no país e com a possibilidade de se exportar mais farelo, em meio às perdas na Argentina.
Outro ponto importante do relatório foi o corte das importações chinesas, para 97 milhões de toneladas, destacando que as importações do país estão mais fracas no acumulado do ciclo 2021/22.
Considerando essas mudanças, a diferença entre o consumo e a produção mundial ficou ainda maior, com os estoques globais caindo para 92,8 milhões de toneladas.
Produção e consumo mundial de soja (milhões de toneladas)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.
Milho
Em relação ao milho, o Departamento não trouxe grandes surpresas em seus números de oferta e demanda, sendo que não houve nenhuma mudança no balanço da safra 2021/22 de milho dos Estados Unidos.
Pelo lado dos números para a América do Sul, que eram bastante esperados em função das recentes adversidades climáticas vivenciadas pela região, as revisões foram modestas. O USDA reduziu sua estimativa de produção da safra 2021/22 do Brasil de 115 para 114 milhões de toneladas, número levemente acima da média das estimativas do mercado, de 113,6 milhões de toneladas.
Já o número da safra argentina foi mantido em 54 milhões de toneladas, ao passo que a média das estimativas do mercado apontavam para um volume de 52,2 milhões de toneladas.
Os números para a safra sul-americana do próximo relatório de O&D do USDA ainda serão bastante importantes para o mercado, visto que o Departamento pode ter adotado uma posição mais conservadora e só venha a promover alterações mais expressivas nos próximos relatórios. A título de comparação, na semana passada a Bolsa de Cereales de Buenos Aires reduziu sua estimativa para a safra 2021/22 argentina de milho, para 51 milhões de toneladas, 6 milhões a menos que o estimado anteriormente.
O balanço mundial apresentou leve queda da produção e do consumo, para, respectivamente, 1.205,4 milhões e 1.195,17 milhões de toneladas. Com isso, os estoques finais 2021/22 recuaram para 302,2 milhões de toneladas, quase 2 milhões de toneladas acima da média das estimativas do mercado.
Além da safra sul-americana, outro ponto de atenção para o próximo relatório será a safra ucraniana. Na semana passada, a Casa Branca alertou que uma invasão russa poderia ser iniciada a qualquer. Neste último relatório, o USDA não promoveu nenhuma alteração no balanço 2021/22 do país e sua exportação segue estimada em 33,5 milhões de toneladas. De fato, até o momento, os canais de escoamento na região do mar negro não foram afetados, mas o início de uma operação militar poderia prejudicar a logística do produto e impactar os embarques ucranianos.
Evolução da produção de milho (milhões de toneladas)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.
Trigo
Para o trigo, no cenário doméstico dos EUA, o USDA manteve suas estimativas do lado da oferta (estoques iniciais, produção e importação) e realizou cortes sobre as estimativas de consumo interno e exportações, o que levou a um ajuste positivo sobre sua estimativa para os estoques finais.
De acordo com os dados divulgados na última quarta-feira (9), os EUA devem produzir 44,8 milhões de toneladas de trigo em uma área colhida de 15,05 milhões de hectares, o que resultaria em uma produtividade média de 2.979,15 kg/ha – desse total produzido, estima-se que 45,5% sejam da classe Hard Red Winter (HRW); 21,9% de Soft Red Winter (SRW); 18,0% de Hard Red Spring (HRS); 12,2% de White; e 2,2% de Durum. Como indicado, as principais revisões foram feitas no lado da demanda, com corte de 130 mil toneladas sobre o consumo doméstico total (30,84 mi) e de 410 mil toneladas sobre as exportações (22,04 mi). Vale destacar que o ritmo das exportações dos EUA vem abaixo do registrado no ano passado, acumulando um déficit anual de mais de 3,0 milhões de toneladas, até a semana encerrada no dia 03 de fevereiro.
No cenário internacional, como comentado em nosso resumo semanal de trigo, a atualização de fevereiro/22 trouxe algumas revisões para as estimativas globais, com destaque ao corte de 2,18 milhões de toneladas sobre a produção mundial, que está estimada em 776,4 milhões, e também a redução de 1,72 milhão sobre os estoques finais, estimados em 278,2 milhões. Como o USDA não revisou a produção dos principais países exportadores, o novo número pouco deve afetar o excedente exportável e o nível de oferta do cereal no mercado internacional. O corte sobre a produção mundial decorre da redução dos números de safra pequenas, como a do Reino Unido, Brasil, Cazaquistão, Síria e Iraque.
No que tange o comércio internacional, o USDA elevou suas estimativas para importações de alguns países, como Reino Unido (+300 mil toneladas) e Brasil e Cazaquistão (+200 mil cada). Pelo lado das exportações, as principais revisões se deram sobre os números dos EUA (-400 mil), Ucrânia (-200 mil), Cazaquistão (+100 mil), Brasil e Canadá (+200 mil cada) e Argentina (+500 mil). Por fim, as correções mais significativas ocorreram sobre as estimativas para os estoques finais, com destaque aos aumentos sobre os EUA (+540 mil) e a Ucrânia (+400 mil), e reduções sobre o Canadá (2,0 milhões) e a Argentina (630 mil).
Principais países exportadores de trigo (milhões de toneladas)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.
Para o algodão, o relatório WASDE repercutiu de forma neutra, embora tenha amparado a perda de força na tendência altista de curto prazo nos preços futuros. O USDA não promoveu grandes alterações no balanço de oferta e demanda e, onde mudou, foram em variáveis já aguardadas pelos agentes.
Em primeiro lugar, a produção indiana teve novo corte de 110 mil toneladas no ciclo 21/22, ficando em 5,88 milhões de toneladas. Em maio de 2021, quando o USDA trouxe os primeiros números da safra atual, se esperava uma produção de 6,31 milhões de toneladas na Índia. Ao longo do tempo, o país sofreu com chuvas irregulares e sua colheita da fibra enfrentou pestes naturais – principais motivadores para esse decréscimo de 7,3% no tamanho da safra indiana pelos meses. No momento, o mercado doméstico tem enfrentado disponibilidade apertada e as indústrias têxteis vão tendo dificuldades para receber algodão das beneficiadoras. O ritmo lento das entregas da pluma às fábricas pode vir por dois caminhos: os produtores estão segurando seus fardos para beneficiamento esperando preços ainda mais altos ou a produção em si de fato é menor do que se espera. O primeiro caso se limita uma vez que as cotações domésticas do algodão físico na Índia se encontram em recordes nominais, e é mais provável que, no mínimo, a situação seja uma combinação dos dois cenários.
Em segundo lugar, o USDA também cortou as exportações dos Estados Unidos pelo segundo mês seguido, agora em 3,21 milhões de toneladas (60 mil toneladas menor frente à previsão de janeiro). Até o dia 3 de fevereiro, o país exportou 998 mil toneladas de algodão, aumentando semanalmente o ritmo de embarques, vale ressaltar. Faltando, assim, 6 meses corridos para o final do ano-safra 21/22, é possível que esse número não se cumpra, mesmo ele estando mais coerente com o cenário atual, devido aos diversos problemas de logística pelo mundo, principalmente. No entanto, por mais que essa queda nas exportações indique um alívio nos estoques finais dos Estados Unidos, esse volume não exportado no ciclo 21/22 não fica “livre”, ou seja, de acordo com as vendas em passo mais acelerado da pluma norte-americana, esses estoques continuam comprometidos para embarque em algum momento depois de julho de 2022, sendo assim uma notícia não tão baixista quanto parece.
Por fim, o destaque continua para a figura apertada no balanço de O&D no mercado de algodão. As projeções de consumo continuam crescentes e atingindo recordes históricos globalmente, puxadas em especial pela recuperação das economias. Os estoques, declinantes, apontam para essa incapacidade da produção em acompanhar a demanda e, como mostra a evolução das estimativas do USDA, o mercado físico vem sustentando as escaladas em Nova Iorque, em que as cotações futuras continuam nas máximas dos últimos 11 anos.
Evolução das estimativas de oferta e demanda globais (milhões de toneladas)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX
Para o complexo de óleos vegetais, o principal destaque do WASDE de fevereiro foi a redução de 5,4% na expectativa das exportações de óleo de palma na Indonésia na temporada 21/22, em relação ao número de janeiro, somando 28 milhões de toneladas. A diminuição das exportações no maior produtor de palma do mundo já era algo esperado pelo mercado desde o final de janeiro, quando o governo local estabeleceu que as empresas exportadoras deveriam direcionar ao mercado interno 20% do volume anteriormente reservado para exportação. Bem como, neste momento em que as cotações do óleo de palma avançam sobre a máxima histórica, o governo definiu um teto para os preços, que passarão a ser subsidiados. Com isso, o WASDE/USDA também elevou a expectativa de consumo interno de óleo de palma na Indonésia para 15,98 milhões de toneladas, alta de 3,3%.
Ainda vale destacar que o WASDE não alterou as projeções de exportação da Malásia, substituto direto das exportações da Indonésia.
Os números da produção de óleo de soja em 21/22 seguiram as mudanças observadas para a soja, com redução do esmagamento, e produção de óleo de soja, no Brasil e na Argentina em -0,6% e -3,2%, em relação a janeiro. Com isso, as exportações brasileiras de óleo de soja foram reduzidas em 1,6%, em relação ao esperado em janeiro, porém seguem apresentando volumes recordes. A escalada de preocupações com a falta de chuva na porção Sul do continente é o principal limitante da oferta sul-americana de óleo de soja.
Ressalta-se, também, que, apesar do crescimento das tensões entre Rússia e Ucrânia nas últimas semanas, o WASDE/USDA não alterou as expectativas de produção e estoques de óleo de girassol nestes países, que são os dois principais players do mercado.
Para conferir os números completos de produção, consumo, exportação e estoques dos principais óleos vegetais acesse o relatório detalhado em:
https://stonex.link/wasdeoleosfev