Na sexta-feira (dia 08), o USDA divulgou seu relatório mensal de oferta e demanda, que é sempre muito aguardado pelo mercado. Apesar de o foco já estar na safra 2022/23, os números do Departamento para o novo ciclo começarão a ser divulgados somente a partir de maio. Assim, a divulgação de abril trouxe atualizações para a safra 2021/22.
Soja
Para a soja nos EUA, o USDA elevou novamente a estimativa de exportação 2021/22, para 57,6 milhões de toneladas, levando os estoques finais a recuar para 7 milhões de toneladas. A perspectiva de embarques do país tem subido em meio às quebras na América do Sul, mas o total esperado ainda é mais baixo que o registrado no ciclo 2020/21, em 61,5 milhões de toneladas.
No caso da América do Sul, como já esperado, houve mais um corte da safra brasileira de soja, que caiu para 125 milhões de toneladas, enquanto a produção argentina ficou estável em 43,5 milhões de toneladas.
Como tem sido tendência nos últimos relatórios, o USDA cortou, mais uma vez, o número de importações de China, passando de 94 para 91 milhões de toneladas. A justificativa para esse ajuste foi o ritmo mais fraco de esmagamento chinês no período entre outubro de 2021 e março de 2022, com o registro de 4,2 milhões de toneladas a menos que um ano antes. Além disso, é preciso lembrar que o país asiático comprou bem menos soja norte-americana até o momento, também quando comparado com o mesmo período do ano passado.
De qualquer forma, com cortes tanto na demanda quanto na oferta, o estoque final mundial 2021/22 mudou pouco, ficando em 89,6 milhões de toneladas.
No relatório de maio, as estimativas para a safra 2022/23 irão incorporar as intenções de plantio nos EUA, com uma produtividade na tendência histórica (número do Fórum Agrícola), o que vai indicar uma produção recorde para ao país. Contudo, até uma definição mais próxima da realidade, tanto em relação à área quanto ao rendimento, ainda tem muita coisa para acontecer, lembrando que a fase crítica de enchimento de grão nos EUA fica concentrada em agosto.
Importações de soja - China (milhões de toneladas)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX. *Estimativa.
Milho
No que se refere às mudanças realizadas nas estimativas de O&D de milho, começando pelos EUA, pode-se dizer que o USDA promoveu poucos ajustes em seus números. O Departamento aumentou o uso do cereal para a produção de etanol em 2021/22 para 136,5 milhões de toneladas, contra 135,9 milhões no último relatório. Por outro lado, o USDA fez um corte de mesma intensidade no consumo para ração, que passou de 143,5 para 142,9 milhões de toneladas. Com isso, o consumo doméstico total seguiu estimado em 315,8 milhões de toneladas. Sem mudanças nos demais elementos de oferta e demanda, os estoques finais norte-americanos permaneceram estimados em 36,6 milhões de toneladas.
No que diz respeito à safra ucraniana, cujos números eram muito aguardados em função da continuidade dos conflitos no país, o USDA promoveu mudanças significativas. Como já era esperado, em meio aos problemas logísticos provocados pela guerra contra a Rússia, as exportações da Ucrânia foram novamente reduzidas, de 27,5 para 23 milhões de toneladas. Por outro lado, o consumo doméstico no país foi elevado, em 2,3 milhões de toneladas, para 13,2 milhões. Com isso, os estoques finais ucranianos aumentaram 2,2 milhões de toneladas, para 6,55 milhões.
Pelo lado da safra sul-americana, o destaque foi o aumento na produção da safra brasileira 2021/22, de 2 milhões de toneladas, para 116 milhões. Em meio à expectativa de maior disponibilidade do cereal brasileiro e menores embarques ucranianos, as exportações do país foram elevadas em 1,5 milhão de toneladas, para 44,5 milhões. Além disso, o Departamento aumentou também sua estimativa de consumo doméstico, em 0,5 milhão de toneladas, para 73 milhões. Mesmo com a variação na produção tendo sido compensada pelas alterações na demanda pelo milho do Brasil, os estoques finais em 2021/22 sofreram uma leve redução, de 80 mil toneladas, para 5,15 milhões, reflexo de uma redução de mesma intensidade nos estoques finais da safra 2020/21, estimados agora em 4,65 milhões.
Em relação à Argentina, a única alteração realizada no balanço da safra 2021/22 foi um aumento de 160 mil toneladas nos estoques finais, motivado por uma variação de mesmo volume nos estoques finais da safra anterior.
Será muito importante acompanhar o WASDE do próximo mês, visto que o USDA trará seus primeiros números para a temporada 2022/23. Muito se tem questionado sobre a produção ucraniana, visto que o plantio de milho no país tem início em abril e, com a guerra em andamento, o impacto sobre os trabalhos de campo deverão ser expressivos. Segundo declarações do ministro da agricultura da Ucrânia, Roman Leshchenko, os agricultores do país deverão semear até 3,3 milhões de hectares do cereal, quase 40% a menos que o realizado na safra 2021/22. Além disso será interessante acompanhar como a preocupação em relação à disponibilidade internacional do cereal irá afetar o plantio do grão na próxima temporada. No relatório de Intenções de Plantio, o USDA apontou que os EUA plantarão 36,2 milhões de hectares de milho em 2022/23, 1,6 milhão a menos que o registrado na safra 2021/22 e 1 milhão a menos que o esperado pelo mercado. Contudo, vale destacar que grande parte da pesquisa foi realizada antes do conflito entre Rússia e Ucrânia, não contabilizando totalmente o rali que as tensões no Mar Negro provocaram nos preços do milho.
Evolução das exportações de milho (milhões de toneladas)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX. *Estimativa.
Trigo
Para o trigo no cenário doméstico dos EUA, o USDA manteve em boa parte de suas estimativas a tendência abordada no relatório de março. A oferta interna continua em patamar reduzido e com menor uso doméstico. Os estoques finais mais altos e a redução das estimativas para exportações foram mais contrastantes. As exportações seguem como as mais baixas desde 2015/16, que, se concretizando, serão da ordem de 21,36 milhões de toneladas, 410 mil toneladas abaixo da estimativa anterior, pois os EUA permanecem não competitivos para a maioria dos mercados. Os estoques finais projetados para 2021/22 aumentaram 680 mil toneladas, com projeção de 18,45 milhões de toneladas, o que ainda representa uma redução de 20% no comparativo anual.
No cenário internacional, o relatório WASDE seguiu chamando a atenção para fatores altistas. Antes do conflito entre Rússia e Ucrânia, a estimativa era de que a Ucrânia iria exportar 24 milhões de toneladas, enquanto a Rússia se comprometeria com 35 milhões. Entretanto, com o avanço do conflito, a expectativa caiu para 19 e 33 milhões de toneladas, respectivamente, uma redução de 12% no total.
Por outro lado, a oferta global para a safra 2021/22 obteve uma pequena alta, em decorrência de maiores estoques iniciais para o Paquistão, Brasil, Arábia Saudita e maior produção da Argentina, compensando a retração por parte da União Europeia. Entretanto, o consumo mundial projetado para 2021/22 teve o indicativo de um aumento da ordem de 3,8 milhões de toneladas, correspondendo assim ao total de 791,1 milhões.
Evolução das exportações de trigo (milhões de toneladas)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX. *Estimativa.
Em relação ao mercado de algodão, a divulgação do relatório WASDE de abril não gerou tanta volatilidade no mercado, como já era esperado, por pouco alterar as variáveis de oferta e demanda. O Departamento não trouxe nenhuma mudança para a safra 2021/22 dos EUA e, com isso, os estoques finais do país seguem estimados em 760 mil toneladas, com uma relação estoque/uso de 67,2%.
Caso exista alguma consideração nesse sentido de realizar uma influência nas cotações da fibra natural, a atualização do USDA pode ser considerada baixista pela expectativa de estoques mundiais levemente maiores se comparados às estimativas anteriores, que passaram de 17,98 para 18,15 milhões de toneladas. Isso ocorreu, especialmente, pela redução de 110 mil toneladas no consumo global de algodão, reflexo direto do corte na demanda chinesa, que passou para 8,49 milhões de toneladas. A gigante asiática já vinha importando menos algodão nos últimos meses e a escalada de casos da Covid-19 no país deve afetar a retomada de sua economia e, logo, a procura pela fibra natural.
No geral, o USDA também cortou as exportações de alguns países, como o Brasil e Índia, que devem ser prejudicadas por esse menor consumo chinês, e estão estiamadas agora em, respectivamente, 1,72 e 1,13 milhão de toneladas. Por fim, vale destacar a revisão na produção do Paquistão, de 1,26 para 1,31 milhão de toneladas, que puxou a produção global levemente para cima, passando de 26,09 para 26,17 milhões de toneladas, amparando o alívio na relação estoque/uso mundial no ciclo 2021/22, projetada em 66,3% em março e revisada para 67,2% - agora 4,39 pontos percentuais abaixo da safra 20/21.
Evolução dos estoques finais (milhões de toneladas) e da relação estoque/uso (%) mundial
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX. *Estimativa.