Infelizmente não é novidade, mas um dos maiores desafios do mercado de café é a grande discrepância entre as estimativas da produção de café no Brasil, o que, consequentemente, impacta as projeções para o balanço global de oferta e demanda de café (O&D) e gera grande volatilidade nos preços. Para a safra 2024/25, as estimativas divulgadas até o momento já têm uma variação que supera 12 milhões de sacas, indo de 58 milhões de sacas, de acordo com a Conab, até valores superiores a 70 milhões de sacas, de acordo com organizações privadas.
Neste contexto, a StoneX conduziu pela sexta vez consecutiva o Giro de Safra pelas regiões produtoras no Brasil. Foram mais de 100 municípios visitados nas principais regiões produtoras do país, nos estados da Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais e São Paulo.
A cafeicultura brasileira enfrentou momentos desafiadores nos últimos anos, reflexo de várias adversidades climáticas que ocorreram neste período. O La Niña, que ocorreu entre julho de 2020 e fevereiro de 2023, provocou atrasos nas chuvas no segundo semestre de 2020 e 2021, o que provocou sérios problemas na florada e impactou as produções em 2021 e 2022. Além disso, em 2021, houve a ocorrência de uma geada que provocou grandes perdas na produção de café arábica nas principais regiões do país. Após o La Niña, a temperatura das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial não deu trégua e logo o El Niño passou a impactar o clima do mundo todo, com os dados do NOAA indicando que a condição de El Niño teve início no trimestre abril, maio e junho de 2023.
Os efeitos do El Niño impactaram a produção de café no Brasil, assim como impactou em outros países produtores, como Vietnã, Indonésia e Colômbia. No Brasil, o El Niño provocou uma sequência de ondas de calor que ultrapassaram os 40ºC em grande parte do cinturão cafeeiro. Além disso, devido ao fenômeno, grande parte do cinturão cafeeiro teve volumes de chuva bem abaixo da média nos meses de setembro, outubro, novembro e dezembro de 2023, período de desenvolvimento crítico para a produção em 2024.
De forma geral, para o café, a ocorrência de temperaturas máximas acima de 34ºC em alguns períodos pode provocar perdas no desenvolvimento e na produção. Ademais, nesta condição de temperaturas elevadas, mesmo com o uso de sistemas de irrigação localizada, como gotejamento, o ritmo que a planta perde água para a atmosfera é maior que ela é capaz de absorver do solo, o que impacta o desenvolvimento e o potencial produtivo da planta. Todas as regiões enfrentaram volumes de chuva abaixo da média, mas as regiões do Sul da Bahia, Norte do Espírito Santo e Cerrado Mineiro foram as que mais sofreram com a condição, como pode ser observado no mapa do índice de vegetação VHI no comparativo anual em meados de novembro. Desta forma, o potencial produtivo da safra 2024/25 foi sem dúvida impactado pelas condições climáticas provocadas pelo El Niño.
Índice vegetativo VHI em novembro de 2023 e em novembro de 2022




Na região do Cerrado Mineiro, as lavouras apresentaram uma grande desuniformidade, com as lavouras mais ao sul da região com indicativos claros de que foram impactadas pelo clima seco e pela temperatura excessiva. Os dados históricos mostram que além dos volumes de chuva abaixo da média, a região enfrentou temperaturas máximas acima de 34º durante grande parte do último trimestre do ano passado, como temperaturas na casa do 40ºC em várias ocasiões. No entanto, as lavouras nas áreas mais ao norte da região apresentavam uma condição fito técnica melhor, com um bom crescimento e volumes de frutos satisfatórios.
Foram observados também áreas de renovação e áreas que foram convertidas para a produção de grãos. Além disso, a região está em seu ano negativo no ciclo bianual, tendência que reflete os impactos da geada de 2021, já que caso contrário, a região deveria estar em seu ano positivo do ciclo. Desta forma, a StoneX estima a produção do cerrado mineiro em 5,4 milhões de sacas em 2024/25, volume 27% menor que a produção do ano anterior.
Precipitação em relação à média dos últimos 10 anos

As lavouras na região Sul de Minas Gerais também podem ser caracterizadas pela desuniformidade. Claro, como a região é muito grande, é natural que as lavouras apresentassem diferentes condições. No entanto, as lavouras na região limítrofe com o Cerrado Mineiro e a Alta Mogiana apresentavam condições semelhantes a estas regiões, com menores volumes de frutos e visíveis impactos do clima. As lavouras nas outras microrregiões do Sul de Minas apresentavam condição satisfatória de desenvolvimento e volume de frutos.
Não foram observados grandes problemas fitossanitários na região. A produtividade média da região Sul de Minas foi estimada em 27 sacas/há e a produção total na região foi estimada em 16,2 milhões de sacas, representando um avanço de 4,7% se comparado com o ano anterior.
Precipitação em relação à média dos últimos 10 anos


Com relação a produção em 2023/24, foi realizada uma revisão na projeção com base nos resultados da safra até o momento. Para o café robusta, houve um pequeno ajuste, indo de 21,6 para 21,5 milhões de sacas. No entanto, a estimativa para a produção de arábica foi ajustada para 42,7 milhões de sacas, um incremento de 5% se comparado com a projeção anterior, que era de 40,7 milhões de sacas. Portanto, a produção brasileira de 2023/24 foi ajustada de 62,3 para 64,27 milhões de sacas (+3,2%).
Para 2024/25, a produção brasileira de café foi estimada em 67 milhões de sacas, indicando um avanço de 4,2%. A produção de café arábica foi estimada em 44,3 milhões de sacas, um aumento de 3,6% e a produção de café robusta em 22,7 milhões de sacas, um aumento de 5,5%.





