- Fatores baixistas
- Produção mundial 24/25 acima consumo, segundo o USDA;
- Preocupações com o ritmo da demanda mundial;
- Estimativa de produção recorde para a safra brasileira 24/25;
- Melhora das condições de safra na Argentina;
- China aumenta tarifas retaliatórias contra os EUA.
- Fatores altistas
- Novas medidas de incentivo adotadas pelo governo chinês;
- Safra do Rio Grande do Sul muito impactada pelo clima;
- Estimativa de queda de área na safra 25/26 dos EUA;
- Perda de potencial da safra argentina;
- Possível acordo entre setores de fósseis e biocombustíveis nos EUA.
As cotações da soja em Chicago encerraram a sexta-feira (dia 04) em 977 cents por bushel, um recuo considerável, voltando a ficar abaixo do patamar de USD 10,00, após a China anunciar retaliações às tarifas dos EUA. Apesar da questão tarifária entre os dois países ter sido o principal condicionante do movimento na bolsa, outros fatores também influenciaram o mercado da oleaginosa.
Foi divulgado o tão aguardado número de intenção de plantio para a safra 25/26 dos EUA, que trouxe perspectiva de área em 33,8 milhões de hectares, recuo em relação ao ano passado, como já era esperado, e cerca de 200 mil hectares abaixo do Fórum Agrícola. Mesmo não trazendo maiores surpresas, a safra norte-americana vai estar cada vez mais no centro das atenções. Considerando essa área plantada e os dados de balanço trazidos pelo Fórum Agrícola do USDA em fevereiro, a produção ficaria na casa de 118 milhões de toneladas, com uma produtividade média na tendência histórica, em 3,53 toneladas por hectare, não resultando em restrições no balanço. Contudo, caso haja qualquer questão climática que afete a produtividade, o cenário muda, com o balanço de oferta e demanda dos EUA ficando mais restrito. Por exemplo, se for observada uma produtividade em linha com o ano passado, em 3,41 toneladas por hectare, a produção já ficaria 4 milhões de toneladas menor, em 114,1 milhões, levando a um recuo dos estoques finais, com uma situação de aperto, caso as variáveis de demanda sejam confirmadas.

Fonte: USDA e StoneX. Elavoração: StoneX.
Assim, o período da safra norte-americana, que já traz bastante volatilidade ao mercado, deve movimentar os preços nos próximos meses, sem esquecer também do lado da demanda.
As perspectivas de que os mandatos de biodiesel e diesel renovável nos EUA poderiam avançar fortemente, após conversas entre empresas de biocombustível e o setor de fósseis continuou dando suporte aos preços, antes da retaliação chinesa às tarifas anunciadas pelo governo Trump. Caso haja um aumento importante dos mandatos, o esmagamento de soja nos EUA tenderia a avançar ainda mais, colocando mais pressão sobre a safra norte-americana, com qualquer perda de potencial produtivo podendo resultar em um balanço apertado para o país, também influenciando o equilíbrio global.
Ainda em relação à demanda norte-americana, as vendas de exportação na semana encerrada em 27/03 alcançaram 410,2 mil toneladas, levando o acumulado da safra 24/25 para 46,2 milhões de toneladas, 5,7 milhões de toneladas a mais que no ano passado, mantendo um ritmo acima do necessário para alcançar a estimativa de exportações do USDA, em 49,7 milhões de toneladas. Mesmo com as negociações mais aceleradas, as vendas para a China estão 1,3 milhão de toneladas mais baixas que um ano atrás, sendo que 600 mil toneladas do que foi negociado com o país ainda não tinha sido embarcado, segundo as últimas informações.


Com a escalada tarifária, as atenções às origens de compra de soja pela China devem estar no radar. Nesse período do ano, as exportações dos EUA tendem a ficar mais fracas, com o Brasil se destacando após a colheita. Em março, os dados oficiais indicaram o embarque de 14,7 milhões de toneladas de soja nos portos brasileiros, o que configura um recorde para o mês. A tendência é que esse padrão aquecido se mantenha, uma vez que o Brasil está finalizando a colheita de uma safra recorde.
Na semana passada, a StoneX atualizou seu número para o ciclo 24/25 do Brasil, trazendo uma redução de 800 mil toneladas frente ao divulgado anteriormente, ficando em 167,5 milhões de toneladas, nível que ainda é um recorde. Mais uma vez, ajustes negativos no Rio Grande do Sul foram o principal condicionante do recuo nacional. O estado sofreu com a falta de chuvas durante o desenvolvimento das lavouras, com o potencial de 23 milhões de toneladas, no início da safra, caindo para pouco abaixo de 15 milhões.
Mesmo com o aumento da oferta da oleaginosa no mercado nacional, destaca-se que os prêmios têm se mantido fortalecidos, situando-se acima do registrado no mesmo período do ano passado. Esse comportamento é justificado por alguns fatores, como a situação de conflito tarifários, que tende a favorecer a soja brasileira, e as vendas mais lentas por parte dos produtores.
De qualquer forma, por mais que a China tenda a concentrar ainda mais suas compras de soja no Brasil, o cenário é diferente do registrado no primeiro mandato Trump, quando também houve uma retaliação chinesa à soja dos EUA. Entre 2018 e 2019, a China enfrentou um enorme surto de Peste Suína Africana, que dizimou cerca de 40% do seu rebanho de suínos, contribuindo para reduzir suas importações. Atualmente, por mais que se espere uma demanda chinesa dentro da normalidade, o volume que o país importa anualmente cresceu relativamente pouco entre 2017 e 2024, cerca de 10 milhões de toneladas, enquanto o Brasil ampliou suas exportações em mais de 30 milhões de toneladas no mesmo período, tendo espaço para absorver mais facilmente uma demanda chinesa maior, mesmo que outros destinos sejam deslocados para comprar soja dos EUA.
Assim, por mais que esse cenário de guerra tarifária aumente a aversão ao risco nos mercados, pesando sobre as commodities, os impactos diretos sobre a soja podem acabar sendo mais limitados. Além disso, eventuais acordos entre EUA e China não estão descartados, uma vez que a escalada das tensões comerciais é muito recente.
Nessa semana, a situação das tarifas deve continuar dando o tom das negociações, além do clima nos EUA também estar ganhando relevância, à medida que o período de plantio se aproxima nos principais estados produtores do país.





