- Cancelamentos de vendas por parte da China;
- Dólar forte pressiona preços nos EUA;
- Boas condições climáticas no leste europeu.
- Preços no Mar Negro registraram primeira alta desde janeiro;
- Piora nas condições das lavouras europeias.
O trigo negociado em Chicago começou a semana conseguindo registrar altas após uma recuperação técnica frente às baixas das últimas semanas, no entanto, os futuros perderam tração ao longo dos dias seguintes, encerrando a semana mais uma vez em baixa, com o vencimento em maio encerrando a sessão de sexta-feira (15) sendo negociado a 528,5 cents/bu, uma queda semanal de 1,72%.
O movimento de alta se deu apesar de uma preocupação pelo lado da demanda que tomou conta das manchetes na segunda-feira após um cancelamento de compras no volume de 500 mil toneladas de trigo estadunidense por parte da China. No entanto, inevitavelmente esse fato pressionou o mercado nos dias seguintes, contabilizando até mesmo mais de 1 milhão de toneladas vendidas pela Austrália sendo canceladas pelo gigante asiático.
Além disso, houve uma redução no volume observado de novas vendas de exportação, conforme dados publicados na quinta-feira. No agregado, foram reportadas vendas líquidas de 83,8 mil toneladas de trigo da safra atual para a semana encerrada no último dia 7, o que indica 69% a menos no comparativo semanal, o que também pode ter injetado algum grau de pessimismo no mercado do lado da demanda. Acesse o resumo das exportações semanais de grãos dos EUA clicando aqui.
Para além dos fundamentos de oferta e demanda, um panorama cambial também pode ter impactado os preços nos mercados estadunidenses. Os dados do PPI (inflação ao produtor estadunidense), que vieram acima do esperado na quinta-feira, reforçaram um cenário de fortalecimento da divisa norte-americana, dada a resiliência da economia dos EUA e a abertura da curva de juros futuros no país. Um câmbio mais apreciado contribui para uma diminuição da competitividade dos produtos estadunidenses do ponto de vista do comércio internacional, pressionando as cotações.
Do lado da oferta, não houve muitas novidades, com a manutenção das condições boas a excelentes para as safras de trigo de Kansas, Oklahoma e Texas.


Em sentido contrário do que foi observado nos EUA, os futuros do trigo na Europa terminaram a semana em alta, sendo negociado a 195 euros/tonelada no encerramento da semana, uma alta de 0,65%.
Se bem é verdade que as já citadas preocupações com a demanda, seguindo os cancelamentos de vendas de trigo dos EUA por parte da China podem ter respingado no mercado europeu, também é verdade que preocupações com a oferta no velho continente e fatores cambiais puderam oferecer suporte às cotações; valendo também citar a alta dos preços do trigo no Mar Negro, que puderam entregar um pouco de competitividade para o cereal europeu.
As manchetes da semana focaram em perspectivas de uma produção mais prejudicada na Europa. Na França, por exemplo, apenas 66% das lavouras se encontram em condições boas/excelentes, contra 68% na semana anterior e 95% no ano passado, sendo o menor nível desde 2020. Além disso, também foram observadas reduções nas estimativas de produção na Alemanha, conforme os problemas climáticos relacionados ao regime de chuvas no país experienciados nos últimos meses parecem ter trazido um cenário pior do que vinha sendo esperado para a produtividade dos campos no país.
Além disso, o já citado fortalecimento do dólar pode ter levado, entre outros motivos, a um enfraquecimento relativo do euro, favorecendo um cenário mais competitivo para as commodities europeias. Tudo isso ajudou a fornecer suportes para as cotações apesar dar preocupações com a demanda que vêm tomando espaço.

A região do Mar Negro apresentou uma semana relativamente estável, com os preços do trigo russo continuando o movimento de desafiar as mínimas, tendo variado ao entorno do patamar de US$ 200/ton, mas encerrando o período em alta pela primeira vez desde o começo de janeiro. As exportações da Ucrânia se mantiveram relativamente lentas até agora. Durante o mês de março, foram 1,54 milhões de toneladas carregadas até a segunda-feira passada (11/03), contra 1,93 milhões de toneladas na semana de referência do ano anterior. Ainda assim, o país não se distancia das estimativas de exportação. O USDA estimou as exportações de trigo do país em 16 milhões de toneladas na safra 2023/24; até agora, foram carregadas 12,8 milhões de toneladas do cereal.
O clima continua sendo um fator favorável às condições das lavouras no leste europeu. Com boas condições climáticas sendo observadas na região do vale do Volga, no começo da semana. Além disso, algum nível de precipitação no sul ucraniano pode entregar de volta algum nível de umidade para a região que vinha enfrentando um regime climático relativamente mais seco nas últimas semanas. As boas condições das últimas semanas resultaram em uma área de trigo de apenas 4% em condições ruins, contra uma média histórica de 6%. Toda essa situação favoreceu as perspectivas de produção de trigo russo, com estimativas de consultorias do país apontando para uma produção de 93 milhões de toneladas de trigo na safra corrente (a estimativa mais recente do USDA aponta para uma produção de 91,5 milhões de toneladas).
Olhando para o cenário geopolítico, não houve muitas novidades. Fazendeiros poloneses que estavam bloqueando a fronteira entre Polônia e Ucrânia em Dorohusk abriram as fronteiras para a passagem de caminhões, o que pode ser um indicativo de um alívio das tenções na região, mas a situação ainda deverá ser monitorada. Além disso, foram observados ataques da Ucrânia contra refinarias dentro do território russo, o que sempre deve ser um fator de atenção dado o potencial de escalação do conflito. Ainda, ataques à estrutura portuária em Odessa também puderam fornecer algum suporte para os preços. Por fim, para não deixar passar, Vladimir Putin venceu as eleições na Rússia, conforme esperado, garantindo mais seis anos à frente do poder no país.






