- Vendas de exportação dos EUA com saldo líquido negativo;
- Dólar continuou se fortalecendo, pressionando preços nos EUA;
- Novas perspectivas de produção robusta na Rússia.
- Preços no Mar Negro ainda em alta;
- Intensificação do conflito no Mar Negro e expectativa de interrupção de rotas logísticas;
- Apesar de cancelamentos, China mantém bom ritmo importador
A semana foi de recuperação em Chicago, onde os preços do trigo conseguiram uma valorização semanal de quase 5%. Após um fechamento de 528,50 cents/bu na sexta-feira anterior (dia 15), no último fechamento semanal (dia 22) o preço foi para 554,75 cents/bu. Assim, logo de várias semanas de recuos e novos preços mínimos atingidos, a subida foi um respiro para os produtores e exportadores.
Depois dos anúncios realizados nos EUA, de que compradores chineses tinham cancelado envios do cereal estadunidense, as últimas estatísticas divulgadas pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) confirmaram o acontecimento. Na semana até o dia 14 de março, o saldo líquido de novas vendas de trigo dos EUA ficou em -109 mil toneladas, sendo pressionado principalmente pelos citados cancelamentos chineses. Lembrando que, na semana anterior, onde tinham sido publicados os envios até o dia 7 de março, já que se observou uma queda considerável das exportações. Acesse o resumo das exportações semanais de grãos dos EUA clicando aqui.
Na metade da semana, com a divulgação dos dados aduaneiros chineses sobre o primeiro bimestre de 2024, foi observado que o país aumentou as suas compras quando comparado ao ano anterior. Desta forma, apesar das incertezas em relação ao seu crescimento econômico, a China confirma sua posição como maior importadora de alimentos do mundo. Especificamente, em relação com a Austrália, nos dois primeiros meses de 2024, foi observado que o país quase duplicou as suas compras em relação ao mesmo período de 2023. Assim, houve uma maior diversificação de origens dos produtos, mas a demanda continua aquecida e com perspectivas de melhora.


No velho continente, as cotações do trigo encontraram diversos suportes no decorrer da semana. No encerramento da sexta-feira, acumulou-se uma alta de 6,3% nos preços, que terminaram o dia negociados a 207,25 euros/ton. Curiosamente, os fatores principais que entregaram a alta estiveram relacionados a eventos de fora das fronteiras da UE.
O grande evento que deu tração aos contratos no começo da semana foram novos ataques da Rússia contra a estrutura portuária Ucraniana ao longo do final de semana, o que fez com que os futuros do trigo abrissem a sessão da segunda-feira já registrando altas. O fato revelou expectativas de que o combate pudesse se acirrar, o que pode trazer complicações logísticas para que as exportações do Mar Negro possam chegar a outros mercados. Se de fato cadeias de exportação forem interrompidas, o trigo europeu se torna mais competitivo, o que explica os ganhos na bolsa de Paris. Os ataques do final de semana foram seguidos por um momento de relativa calmaria no conflito russo-ucraniano, mas, na sexta-feira, novos ataques à infraestrutura ucraniana despertaram mais uma vez o alerta de possibilidade de o conflito escalar, dando suporte para uma expressiva valorização no último pregão da semana, quando o trigo registrou alta de 3,6% em uma única sessão.
No meio, da semana, enquanto os ataques russos pareciam tem cessado, em algum grau, o mercado teve espaço para ser estimulado por outros fatores. As condições da safra continuaram sem grandes novidades, com 66% da safra francesa, por exemplo, em condições boas/excelentes, mesmo número da semana anterior. Assim, o balanço de oferta e demanda se manteve relativamente inalterado na semana passada.
Outro fato que pode ter dado alguma sustentação foi a valorização substantiva do dólar, o que acaba gerando uma desvalorização relativa do euro. O mercado de divisas repercutiu principalmente a expectativa de algumas análises de que a taxa básica de juros da economia norte-americana pode sofrer apenas 2 cortes ao final de 2024, contra uma expectativa anterior de 3 cortes. Isso se dá principalmente por algumas métricas de inflação que vieram mais aquecidas do que a expectativa do mercado, fortalecendo a visão de alguns agentes de que o fim do combate à inflação por parte do Fed ainda não está tão próximo quanto se esperava. O fato fortalece ativos de baixo risco, como a divisa norte-americana. O euro tende a ser depreciado nesse movimento, favorecendo a competitividade das commodities europeias.
Do lado geopolítico, os protestos dos agricultores europeus continuaram ao longo da semana, com novos bloqueios sendo registrados na fronteira entre Polônia e Alemanha no começo da semana. Ainda assim, os legisladores da UE fizeram sinalizações em favor das demandas dos produtores, podendo abrir margem para uma flexibilização das leis envolvendo o manejo ambiental das culturas agrícolas. Além disso, o parlamento europeu propôs, como premeditado, novas tarifas a diversos bens agrícolas vindo da Rússia e de Belarus na última sexta-feira.

Diferentemente do que vinha sendo observado nos últimos tempos, em que a região do Mar Negro vem exercendo pressão nos preços de trigo, em vistas de uma boa produção e competitividade do cereal produzido na região, nos últimos dias, a situação na Rússia e Ucrânia foi altista para o trigo. Em primeiro lugar, os preços FOB (Free On Board) do trigo 12,5% russo voltaram a registrar altas, sendo vendidos perto de US$ 203/ton. Trata-se da primeira alta desde janeiro. É verdade que os preços ainda estão em patamares historicamente baixos, tendo caído cerca de 16% em 2024 e quase 19% nos últimos 6 meses; ainda assim, o movimento ainda deve ser visto com atenção pelo mercado, principalmente se o trigo russo voltar a se valorizar. Nesse ponto, existe um boato de que os preços pouco atrativos podem fazer com que alguns produtores passem a dedicar menos área para o cereal, o que pode, no futuro, dar algum suporte para os preços. Ainda assim, as estimativas recentes continuam apontando para bons níveis de produção do maior país do mundo.
Em segundo lugar, os conflitos entre Rússia e Ucrânia voltaram a chamar atenção, fazendo efeito nas cotações pelo mundo no começo da semana. Os ataques russos à estrutura portuária no Mar Negro se intensificaram no final de semana passado, em reação aos ataques da Ucrânia a refinarias de petróleo dentro da Rússia, dando suporte aos preços no começo da semana ao deixar os agentes preocupados com a manutenção de um fluxo adequado de exportações de trigo na região. Ainda, na sexta-feira (22), os contratos apresentaram mais uma alta seguindo preocupações renovadas com o conflito na região. Os agentes se preparam para uma nova escalada de tenções, conforme novos ataques à infraestrutura energética da Ucrânia parece ter apresentado uma Rússia ainda mais engajada com o conflito; além disso, passado período de eleições na Rússia, renovando os poderes de Vladimir Putin por mais 6 anos, o foco de Moscou pode voltar a ser exclusivamente a invasão. Todo o contexto de atenção é fortalecido conforme o Kremlin reforça que a Rússia agora está em “estado de guerra”, superando a narrativa anterior de que o conflito era uma “operação militar especial”. O fato pode representar um momento de escalada nas tenções, dando espaço para maiores mobilizações, e passando um recado mais forte, tanto para o público interno quanto externo.





