- Safra russa de trigo se mantém forte;
- USDA aponta para uma maior área plantada na safra 2024/25;
- Estoques estadunidenses em alta, de acordo com posição semestral.
- Rumores de cancelamentos de envios desde a Rússia;
- Continuidade de bombardeios a infaestrutura energética e portuária na Ucrânica;
- Embora em patamares historicamente baixos, preços do trigo russo continuam subindo.
A semana foi positiva em Chicago, com uma valorização semanal de 1,25%. A recuperação foi se dando paulatinamente entre a segunda e a sexta-feira, tendo começado com 545,5 cents/bu para terminar em 567,25 cents/bu.
Um acontecimento que marcou a semana, foi a divulgação de rumores de cancelamentos de envios desde a Rússia, melhor detalhados mais abaixo na seção do Mar Negro. As preocupações com o maior exportador do mundo, sustentaram os preços nos EUA, que no pregão noturno da sexta-feira (dia 05) viu um aumento de mais de 12% na CBOT. Desta forma, as atenções do mercado internacional estarão voltadas nos próximos dias aos acontecimentos tanto fitossanitários como geopolíticos relacionados com as exportações russas.
Por sua vez, as preocupações com as exportações estadunidenses voltaram, uma vez que o saldo líquido das vendas voltou a apresentar uma forte baixa, totalizando 16 mil toneladas, abaixo das 339 mil toneladas na semana anterior. Acesse o resumo das exportações semanais de grãos dos EUA clicando aqui.


As operações em Paris continuaram paralisadas na segunda-feira da semana passada (01), seguindo o feriado de Páscoa. Os últimos dias foram movimentados nos mercados internacionais de trigo, e o mercado europeu não ficou distante disso. No acumulado, o contrato contínuo acumulou uma ligeira baixa de 0,12%. O futuro passou boa parte da semana em baixa, mas o mercado conseguiu uma recuperação na sexta-feira, limitando as perdas, seguindo Chicago.
O que persistiu como fator baixista aos contratos em Paris no meio da semana foi um fortalecimento relativo do euro em comparação ao dólar, que enfraqueceu a competitividade do trigo no velho continente, pressionando os preços. Além disso, uma perspectiva de melhora nas condições das lavouras de trigo pelo mundo também fortaleceu um sentimento baixista. Fato é também que a Rússia, por mais que tenha enfrentado problemas com seus carregamentos nas últimas semanas – conforme será mais bem explorado na seção de Mar Negro deste Relatório -, também vem mantendo um ritmo exportador relevante, com estimativas apontando para 4,9 milhões de toneladas carregadas no mês de março.
Ainda assim, uma grande parte da volatilidade vem se relacionando à capacidade da Rússia de manter as suas exportações. Uma interrupção no fluxo normal de cereais originais do país, o principal produtor e exportador de trigo do mundo, seja por motivos geopolíticos ou fitossanitários, pode incentivar um rali nos preços, gerado por um potencial de gargalos de oferta mundial. É o que veio sendo observado na última sexta-feira, onde os contratos fecharam em boa alta justamente por uma cautela maior dos investidores, conforme boatos de bloqueios de navios carregando trigo russo repercutiram no mercado, criando preocupações com a capacidade da produção russa de atingir os mercados consumidores.

A semana encerrou com o trigo de origem russa mantendo a alta dos preços, sendo cotado a 210 US$/ton. No cenário internacional, o trigo deve grande parte de sua volatilidade recente ao que vem sendo observado no Mar Negro. Do ponto de vista histórico, embora a oferta global não fica devendo em nada em relação à média recente – mesmo se colocando em patamares menores do que as perspectivas da demanda global. Isto é, o mundo vai, sim, produzir menos trigo do que será consumido, no entanto, a oferta do cereal ainda é satisfatória.
O que deve ser observado, no entanto, é o componente dessa oferta. Em uma análise de longo prazo, a produção fora da Rússia, que é o principal exportador de trigo do mundo, é uma das menores da série-histórica. Isso significa que o mundo se torna mais dependente das exportações russas em um contexto em que a capacidade de exportação efetiva pode ser contestada, por causa principalmente de conflitos geopolíticos, como a guerra na Ucrânia. Além disso, os preços internacionais acabam por ficar mais sensíveis à capacidade exportadora russa, em vista de bloqueios por determinações fitossanitárias dos carregamentos do país euroasiático, que é o que vem sendo observado nas últimas semanas e que vem oferecendo algum suporte aos futuros.
Falando nessas restrições às exportações russas, na semana passada esse foi um ponto crucial para o rali enfrentado pelos contratos de trigo. Na semana anterior, alguns carregamentos de uma importante empresa exportadora russa tiveram problemas em realizar embarques ao não corresponder a exigências de segurança e controle de qualidade. O fato surpreendeu o mercado na semana retrasada, limitando perdas. No entanto, as notícias nos dias subsequentes foram menos alarmantes, favorecendo uma visão de que isso era apenas um fenômeno circunstancial e que não deveria afetar o ritmo acelerado das exportações russas que vem sendo esperado. Ainda assim, na semana passada, os rumores foram reforçados com a notícia de que mais uma empresa russa estava com dificuldade de receber seus certificados fitossanitários para a exportação de trigo. O fato reforçou um sentimento de risco, dando tração aos preços. Ainda assim, é difícil distinguir o fato do boato no curto-prazo, com informações mistas vindas da região do Mar Negro.
Ainda assim, em um cenário adverso, justamente pela limitação da oferta de fora da Rússia já citada, qualquer movimentação que favoreça uma perspectiva de piora nas condições da safra, faz com que os agentes evitem o risco, favorecendo um movimento de cobertura de suas posições vendidas, que vem ajudando a oferecer suportes nas bolsas americanas. Além disso, o clima também vem sendo fator crucial a ser observado na região do Mar Negro. A região continua relativamente seca, embora mais quente. É esperado um regime relativamente mais úmido nos próximos dias na região de Belarus e no oeste ucraniano, o que pode favorecer alguma produtividade para o trigo de inverno na região.
Do lado geopolítico, a semana foi agitada, com um movimento forte de novas discussões acerca de rodadas de ajuda para a Ucrânia. Em primeiro lugar, o Ministro da Defesa francês disse que um novo pacote de ajuda militar deve incluir centenas de blindados até o começo do ano que vem. Além disso, discussões acerca da ajuda que a OTAN deve fornecer ao país invadido continuaram, com o Secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, falando na sexta-feira que eventualmente a Ucrânia deve vir a ser um membro da aliança militar. Por último cabe citar que os ataques cruzados à infraestrutura energética entre os países envolvidos no conflito continuaram: a Ucrânia continuou realizando ataques a refinarias de petróleo russas – com fontes da OTAN falando que os ataques podem ter atingido 15% da capacidade de refino russo –; a Rússia também seguiu com ataques ao atingir infraestrutura energética na região do porto de Odessa, bem como novos ataques à usina nuclear de Zaporizhzhia, a maior da Europa, também foram registrados.






