Na Europa, apesar de o boletim MARS indicar queda de produtividade, preços do trigo apresentam forte recuo em Paris
Os mercados futuros de trigo iniciaram a semana operando em alta com os mercados monitorando as estimativas de oferta global de trigo – veja a
matéria especial dessa semana sobre o tema. Na segunda-feira (23), os contratos com entrega para setembro/21 foram negociados a 719,60 USD cents/bushel, na Bolsa de Chicago (CBOT, da sigla em inglês). O reporte semanal de acompanhamento de safra, publicado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, da sigla em inglês), indicou uma taxa de colheita de 77% da safra de primavera - o que aponta para um ritmo bastante acelerado se comparado ao mesmo período do ano passado (46%) e à média dos últimos cinco anos, de 55%.
Ainda na segunda-feira (23), o USDA também divulgou seus dados semanais de inspeção das exportações, referentes a semana encerrada no dia 19 de agosto. De acordo com a publicação, foram embarcadas 657,85 mil toneladas de trigo – 17,3% acima do volume registrado na semana anterior, de 560,64 mil toneladas. O volume acumulado do ano comercial corrente é de 5.663.570 toneladas de trigo.
Intraday | Cotação do contrato em Chicago – setembro/21 (USD cents/bushel)
Fonte: CME. Elaboração: StoneX.
Na terça-feira (24), os futuros do trigo seguiram em tendência de queda, pressionados pelo avanço rápido dos trabalhos no campo para a colheita da safra de primavera. Modelos climáticos apontavam para novos volumes de chuvas no período de dez dias, muito tarde para recuperar parte da área de primavera, mas podendo contribuir com o plantio da safra de inverno. As regiões Noroeste Pacífico e das Grandes Planícies, nos Estados Unidos (EUA), costumam iniciar a etapa de plantio do trigo de inverno no começo do mês de setembro. Na CBOT, os contratos com entrega para setembro/21 fecharam a 718,00 USD cents/bushel.
Mais uma vez, o mercado futuro de trigo em Chicago fechou em queda na sessão de quarta-feira (25). Os contratos com vencimento em setembro/21 fecharam a sessão principal sendo cotados a 712,40 USD cents/bushel, uma variação diária de -6,6 USD cents/bushel. Apesar das expectativas de menor excedente exportável para os principais países exportadores do mundo, em especial a Rússia, o fechamento em campo negativo após uma sessão agitada foi reflexo do avanço das colheitas em países do hemisfério norte. Na quinta-feira (26), os futuros do trigo voltaram a registrar ganhos, com o contrato mais próximo (setembro/21) sendo negociado a 725,20 USD cents/bushel no fechamento da sessão principal em Chicago – variação diária positiva de 14,0 USD cents/bushel. Apesar dos dados de vendas do USDA bem abaixo do esperado pelos mercados, o movimento ganhou força com a perspectiva de menor volume de exportações provenientes da União Europeia. Por conta da queda de qualidade do trigo francês, gerada em grande parte pelas fortes chuvas no final do mês de julho, a safra francesa deve ficar fora das especificações para exportação. Vale lembrar que a França é o principal país produtor do bloco.
Os dados do USDA de vendas de exportação indicaram um volume total de 116,0 mil toneladas de trigo na semana encerrada no dia 19 de agosto – o menor valor registrado até o momento para a safra 2021/22, cerca de 62% abaixo da semana anterior.
Exportações semanais de trigo - EUA
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.
Na sexta-feira (27), os mercados futuros de trigo fecharam a semana em sentidos opostos. Enquanto Minneapolis registrou alta, as bolsas de Chicago e Kansas fecharam em campo negativo. Na CBOT, os contratos com vencimento para setembro/21 fecharam a 718,40 USD cents/bushel (varação diária: -6,6 USD cents/bushel). Neste momento da safra, novos volumes de chuva não devem mais trazer benefícios à produção, podendo inclusive causar prejuízos ao restante da safra de primavera que ainda está por colher nos EUA e no Canadá.
Na Europa, o relatório de acompanhamento de safra MARS foi divulgado na segunda-feira (23). Ele mostrou que as constantes chuvas nas regiões oeste e norte-central da Europa afetaram a produtividade das safras de trigo de inverno da França e da Alemanha, os dois principais produtores da União Europeia. Com isso, a estimativa de produtividade foi reduzida de 6,05 para 5,98 toneladas/hectare. Também contribuiu para essa queda a seca que afetou o sul, o leste e o norte da Europa.
Ao longo da semana, divulgações locais reforçaram a previsão apresentada no MARS de que o excesso de chuva causou danos na safra de inverno. Na França, a consultora Agritel estimou a safra 2021/22 em 34,93 milhões de hectares, valor abaixo das 36,7 previstas pelo Ministério da Agricultura francês no início de agosto. Na Alemanha, após a associação de fazendeiros anunciar por três vezes quedas nas suas estimativas, dessa vez foi o Ministério da Agricultura do país quem fez isso. O novo número é de 21,4 milhões de toneladas em 2021/22, valor 4% menor que o registrado ano passado.
Com esses novos valores para produtividade e produção, a Comissão Europeia cortou sua estimativa para a safra 2021/22 em 0,5 milhões de toneladas. Agora, a visão oficial da União Europeia é que o bloco irá produzir 127,2 milhões de toneladas, valor bastante abaixo das 138,6 milhões esperadas pelo USDA. A estimativa para as exportações se manteve nas 30,0 milhões. Apesar desses cortes, vale a pena mencionar que a safra atual ainda deve ser maior que a anterior, quando a produção foi de apenas 117,2 milhões de toneladas e as exportações somente 25,5.
Por fim, nessa semana, foi destaque na Europa e no mercado de trigo como um todo as fortes desvalorizações registradas no Marché à Terme International de France (MATIF), a principal bolsa de derivativos do continente europeu. Após encerrar na sexta-feira, dia 20, cotado a 273,25 EUR/t, o contrato para setembro/21 fechou o pregão da sexta, 27, sendo negociado por 250,00 EUR/t, uma desvalorização de 8,5%. Como visto, a bolsa de Chicago apresentou ganhos e o noticiário do trigo europeu foi altista. Sendo assim, pode se dizer que a forte queda do trigo no MATIF é resultado não da influência da CBOT ou de mudanças nos fundamentos do mercado, mas sim de um ajuste dos agentes após os ganhos consideráveis de 6,8% na semana anterior.
Intraday | Cotação do contrato em Paris – setembro/21 (EUR/tonelada)
Fonte: CME. Elaboração: StoneX.
Na última semana, o mercado de trigo do mar Negro seguiu refletindo a produção abaixo do esperado da Rússia. Segundo o Ministério da Agricultura do país, já foram colhidas 63,2 milhões de toneladas provenientes de 20,5 milhões de hectares, o que resulta em uma média de 3,08 toneladas/hectare (t/ha), valor bastante baixo daquele inicialmente projetado. Segundo informações da SovEcon, algumas regiões tiveram produtividade de apenas 0,45 t/ha. Para efeitos de comparação, foi mencionado acima que a produtividade na União Europeia esse ano está estimada em 5,98 t/ha.
Com a baixa produtividade gerando oferta menor que a esperada, os preços FOB seguem no patamar mais elevado para o mês de agosto em pelo menos uma década, apesar de uma desvalorização de dois dólares no início da semana. No momento, o trigo russo nos portos do Mar Negro está sendo negociado por 298,00 USD/tonelada, enquanto o ucraniano, principal concorrente dos russos, está sendo negociado por 280,00 USD/t.
Com essa desvantagem competitiva, as exportações da Rússia estão abaixo do normal. Entre o início do ano safra 2021/22, no dia 1 de julho, e o dia 19 de agosto, deixaram o país 4,6 milhões de toneladas de trigo, 21% menos do que no ano passado para o mesmo período. Entretanto, a Ucrânia também está com dificuldades para exportar. Até o dia 25 de agosto do calendário agrícola atual, haviam deixado o país 3,1 milhões de toneladas, com esse valor representando 20% menos do que o registrado em 2020.
Essa queda em ambos os países é um indicativo de que a demanda nos portos do Mar Negro diminuiu na comparação com o ano passado. Além disso, é um sinal de que o trigo da Romênia está ainda mais competitivo que o ucraniano, o que possibilita ao país ganhar espaço no mercado da região. Lembrando que os romenos anunciaram a maior safra de trigo desde que adentraram na União Europeia em 2007: 11,4 milhões de toneladas.
Além da diminuição da oferta, outro fator que impulsionou os preços russos foi a tarifa flutuante de exportação. Essa taxa é ajustada toda quarta-feira e é resultado de 70% da diferença entre um teto de duzentos dólares e o preço FOB médio de trigo registrado na semana anterior na Bolsa de Moscou. Esse cálculo resultou em uma tarifa de 30,40 USD/t na segunda (23) e na terça-feira (24), valor que mudou para 31,70 USD/t a partir de quarta-feira (25).
A preocupação dos produtores russos é que com o aumento dos preços essa tarifa também vai se valorizar, gerando um efeito em bola de neve que tornará o produto russo cada vez menos competitivo. Exemplificando, no dia 1 de setembro essa tarifa será reajustada. Nos dois dias que já foram e que irão contar para o cálculo da nova taxa, quinta (26) e sexta-feira (27), a média do preço FOB na bolsa de Moscou foi de aproximadamente 260,00 USD/t. Tirando o teto de duzentos dólares delimitados pelo governo russo, restam sessenta dólares. Pegando 70% desse valor, a tarifa a partir do dia 1 de setembro saltará para 42,00 USD/t caso a média desses dois primeiros dias se mantenha no restante da semana. Ou seja, um aumento de mais de 10,00 USD/t de um dia para o outro. Lembrando que o preço FOB registrado na Bolsa de Moscou sempre é menor que o preço realmente praticado nos portos. Por isso que no segundo parágrafo foi mencionado cotação FOB de 298,00 USD/t e agora foi citado que o preço na Bolsa de Moscou está próximo dos 260,00 USD/t.
Rússia - 12,5% | Preço FOB – contínuo (USD/tonelada)
Fonte: Cash Wheat Report. Elaboração: StoneX.
Com a manutenção do padrão climático registrado na semana anterior, a última semana na Argentina também foi marcada pela falta de chuvas, o que resultou em uma queda semanal de 5,3 p.p. sobre o percentual da safra em condição boa/excelente – na semana encerrada no dia 25 de agosto, os percentuais estimados foram de: 32% bom/excelente; 40% normal; e 28% regular/ruim. A revisão mais significa foi em relação a condição hídrica, que passou de 57% ótima/adequada e 43% regular/seca, na semana anterior, para 48% e 52%, respectivamente. Em relação às etapas de desenvolvimento da safra, estima-se que 81,5% estejam em fase de perfilhamento; 21,5%, desenvolvimento vegetativo; e 4,2%, espigamento. Vale destacar que a Bolsa de Cereais de Buenos Aires (BCBA) vem mantendo sua estimativa de 19,0 milhões de toneladas para a a produção nacional de trigo, do avanço da produção ter sido marcado por baixo crescimento e prejuízos por geadas e ventos.
No Brasil, no estado do Paraná, o Departamento de Economia Rural (Deral) divulgou o relatório mensal de acompanhamento de safra, no dia 26 de agosto, atualizando suas estimativas para a safra 2020/21 de trigo. De acordo com a publicação, apesar de a área total de plantio ter sido revisada positivamente, para pouco mais de 1,21 milhão de hectares, o Deral reduziu sua estimativa para a produção do estado, agora, estimada em 3.721.380 toneladas – a faixa de rendimento inicial médio para os 19 núcleos regionais está estimada em 3.118 a 3.466 kg/ha. Em relação as fases de produção, estima-se que 24% estejam em fase de desenvolvimento vegetativo; 35%, em floração; 40%, em frutificação; e 2%, em maturação. Os percentuais de condição de área são: 12% considerados ruim; 30% médio; e 58% bom.
Por fim, no estado de Rio Grande do Sul, a última semana foi marcada por baixa umidade, somada a grande variação de temperatura. De forma geral, a safra de trigo no estado segue com um lento ritmo de desenvolvimento, estima-se que 77% da safra esteja em etapa de germinação/desenvolvimento vegetativo; 20%, floração; e 3%, enchimento de grãos – no mesmo período do ano passado, as estimativas apontavam para 62%, germinação/desenvolvimento vegetativo; 29%, floração; e 9%, enchimento de grãos.
TRIGO NOS MERCADOS FUTUROS DOS EUA
Fonte: CME. Elaboração: StoneX.