Com a colheita do trigo dada quase por completa na França, grande parte da safra fica fora dos parâmetros de qualidade para moagem
Na segunda-feira (30), o mercado futuro de trigo em Chicago iniciou a semana registrando perdas – na Bolsa de Chicago (CBOT, na sigla em inglês), o contrato futuro com vencimento em dezembro/21 fechou a 723,40 USD cents/bushel, uma variação diária de -9,0 US¢/bu. Além de os preços terem acompanhado a tendência de queda observada nos futuros do milho, as cotações foram pressionadas sobretudo pela significativa queda semanal do volume de embarques físicos dos Estados Unidos (EUA), registrado pelo Departamento de Agricultura (USDA, na sigla em inglês) do país. De acordo com os dados divulgados, referentes a semana encerrada no dia 26 de agosto, foram embarcadas 316,84 mil toneladas, cerca de 56,55% abaixo do volume registrado na semana anterior. Com isso, o volume acumulado no ano comercial corrente é de 6.051.848 toneladas de trigo.
Intraday | Cotação do contrato em Chicago – dezembro/21 (USD cents/bushel)
Fonte: CME. Elaboração: StoneX.
Na terça-feira (31), os mercados futuros de trigo operaram em campo negativo – na CBOT, os contratos com entrega para dezembro/21 fecharam a 722,20 US¢/bu. O movimento de queda acompanhou o acelerado ritmo de colheita da safra de trigo de primavera, nos EUA. Ainda na segunda-feira (30), em seu relatório de acompanhamento de safra, o USDA indicou que 88% da safra foi colhida (ou seja, um avanço semanal de 11 pontos percentuais). Vale destacar que no mesmo período do ano passado, a taxa de colheita era de 66%, enquanto a média dos últimos cinco anos para o período analisado é de 71%.
Na quarta-feira (1), mais uma vez os futuros do trigo acompanharam os do milho e da soja, fechando em queda. Em Chicago, os contratos para dezembro/21 foram cotados a 714,20 US¢/bu, no fechamento da sessão principal. De forma geral, assim como para outras commodities exportadas pelos portos da região do Golfo, nos EUA, os agentes avaliam os danos causados pela passagem do furacão Ida e monitoram os esforços para recuperação das instalações e normalização das operações. Para o trigo, partes do volume foi redirecionado a outros portos, contribuindo para o aumento dos preços e consequente queda da demanda. Vale pontuar que, na semana anterior à passagem do furacão, encerrada no dia 30 de agosto, as exportações estadunidenses pelo Golfo do México computaram 32,7% do volume total de trigo embarcado naquela semana, cerca de 102.896 toneladas.
Os mercados futuros de trigo voltaram a se recuperar na quinta-feira (2). Ainda que com ganhos modestos (variação diária de +2,60 US¢/bu), os contratos com entrega para dezembro/21 fecharam a 717,00 US¢/bu. Em relação aos dados semanais de vendas de exportação, divulgados pelo USDA, na quinta-feira (2), esses ficaram dentro das estimativas do mercado, entre 200 e 450 mil toneladas, totalizando 295.303 toneladas de trigo – volume 154,65% acima do registrado na semana anterior, de 115,96 mil toneladas.
Exportações semanais de trigo - EUA
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.
Por fim, na sexta-feira (3), os futuros do trigo continuaram em tendência de alta, com os contratos com vencimento em dezembro/21 sendo cotados a 726,20 US¢/bu, ao final da sessão principal da CBOT. No comparativo semanal, sexta (27) contra sexta-feira (3), a variação foi de apenas -0,4%. Em relação aos contratos referentes ao trigo de inverno, negociados em Chicago e Kansas, esses encontraram apoio na perspectiva de nova alta da taxa de exportação do trigo russo. Além disso, na França, com grande parte da safra de trigo soft colhida, apenas 39% estão dentro dos parâmetros para moagem.
No mercado de trigo europeu, o grande destaque na semana passada foi o anúncio do Ministério da Agricultura da França (FranceAgriMer) de que a qualidade da safra do país está bastante abaixo do usual. Segundo estudo inicial do órgão, apenas 39% do que foi colhido ultrapassou a barreira dos 76 kg por hectolitro, valor que é o piso na França para a utilização do trigo como farinha já que valores abaixo disso indicam um rendimento muito pequeno. No ano passado, 98% da safra ultrapassou esse parâmetro. A principal hipótese é que as fortes chuvas que caíram sobre os campos franceses em 2021 são as responsáveis pela perda de qualidade. Essa divulgação foi feita com base na análise de apenas 70% da safra, portanto seu resultado ainda não é definitivo. Na semana atual, uma segunda estimativa será anunciada e a definitiva só ficará conhecida no final de setembro. Mesmo assim, temores de que os importadores não aceitarão o produto francês já são bastante reais.
Para além da questão francesa, alguns números importantes relativos à União Europeia foram anunciados pela Comissão do bloco. Em primeiro lugar, foi divulgado que desde o dia 1 de julho as exportações totalizam 3,68 milhões de toneladas, um aumento quando comparadas com as 3,28 milhões registradas no mesmo período de 2020. Além disso, foram revistas as expectativas de produção, que recuaram em 500 mil toneladas e agora totalizam 127,2 milhões de toneladas. As estimativas para as exportações se mantiveram em 30 milhões.
Em relação aos preços, no Marché à Terme International de France (MATIF), principal bolsa de derivativos do continente, a semana era de relativa estabilidade para os contratos, mas uma pequena queda na sexta-feira (3) fez o trigo fechar com leve desvalorização. Assim, de 246,75 EUR/ton na sexta, dia 27 de agosto, o contrato para dezembro/21 foi pressionado para as 244,50 EUR/ton na sexta, dia 3 de setembro. Assim, após ter disparado para valores próximos dos 275,00 EUR/ton em meados de maio, o trigo de curto prazo na Europa parece ter encontrado alguma estabilidade por volta dos 245,00 EUR/ton. Apesar de consideravelmente mais baixo do pico, esse preço atual ainda está elevado na comparação histórica.
Intraday | Cotação do contrato em Paris – dezembro/21 (EUR/tonelada)
Fonte: CME. Elaboração: StoneX.
Na última quinta-feira (2), foi reportado pela Rusagrotrans, principal operadora da rede ferroviária da Rússia, que no momento as exportações de trigo do país no ano safra 2021-22 (julho-junho) totalizam 6,9 milhões de toneladas, volume 11% menor que o registrado no mesmo período do ano passado. Apesar dessa expressiva diminuição, quando se analisa as vendas para fora do país apenas em agosto, percebe-se que as exportações em 2021 foram 1% maiores que as de 2020, totalizando 4,9 milhões de toneladas.
Essa recente aceleração das exportações é resultado não só do atraso da colheita, mas também do aumento do valor da tarifa que incide sobre as vendas externas. Foi relatado que quando esse imposto aumenta, a maior disponibilidade de trigo no mercado interno faz com que os preços caiam, diminuindo as margens de lucro dos produtores. Como foi anunciado que a partir do dia 1 de setembro, última quarta-feira, a taxa subiria para 39,70 US$/ton, aumento de 7,70 US$/ton, os fazendeiros tentaram vender de uma vez grande parte da produção que eles tinham estocado. É essa maior oferta de trigo uma das principais responsáveis pelo aumento das exportações.
Na próxima quarta (8), a tarifa irá subir ainda mais: 46,5 US$/ton. Assim, espera-se que os produtores sigam tentando vender o que já colheram. Resta saber se os exportadores irão encontrar compradores, já que o aumento da tarifa se refletiu nos preços nos portos do mar Negro, diminuindo a competitividade do produto russo: de 297,00 US$/ton na sexta, 27 de agosto, para 305,00 US$/ton na sexta, dia 3 de setembro. Essa baixa competitividade mais uma vez ficou evidente no leilão organizado pelo GASC, órgão egípcio responsável pela aquisição de commodities para o país. Com previsão de entrega entre os dias 15 e 25 de outubro, foi agendado que 120 mil toneladas partiriam dos portos romenos e outras 60 mil dos ucranianos, com a Rússia ficando de fora pelo quinto leilão egípcio consecutivo.
Importante lembrar que o atual formato da taxa sobre as exportações da Rússia gera um efeito em cascata de constantes aumentos nos preços. A tarifa é uma porcentagem do preço FOB reportado pela Bolsa de Moscou. Quando os preços nos portos inflacionam, a tarifa também aumenta, o que gera uma nova valorização no preço FOB e assim por diante.
O movimento inicial de aumento dos preços agora em 2021 foi impulsionado pela perspectiva de menor oferta mundial de trigo, tendência que ainda persiste no mercado. Na semana passada, a consultora SovEcon cortou sua estimativa para a safra russa pela quarta vez, com a previsão recuando de 76,2 milhões de toneladas para 75,4. Antes, as exportações já tinham sido revistas em 3,2 milhões de toneladas, com a expectativa caindo para 33,9 milhões.
Ainda sobre a Rússia, o Ministério da Agricultura do país anunciou que até o dia 1 de setembro haviam sido colhidas 66 milhões de toneladas de trigo advindas de 22 milhões de hectares, o que dá a baixíssima produtividade de 3,0 ton/ha. Caso a previsão da SovEcon de produção de 75,4 milhões de toneladas se mostre correta, os russos já colheram 87,5% da safra. Por fim, vale destacar que a Ucrânia já acabou sua colheita da safra 2021-22, que totalizou 32,8 milhões de toneladas de trigo. A expectativa do Ministério da Agricultura do país é que o volume das exportações fique na casa das 23,8 milhões. Até o dia 3 de setembro, 5,0 milhões já haviam deixado o país.
Rússia - 12,5% | Preço FOB – contínuo (USD/tonelada)
Fonte: Cash Wheat Report. Elaboração: StoneX.
Na Argentina, de acordo com os dados fornecidos pela Bolsa de Cereais de Buenos Aires (BCBA), estima-se que 58,9% da área plantada apresentam condição hídrica adequada/ótima. O incremento semanal de 10,5 pontos percentuais é resultado das chuvas registradas nas regiões Centro e Sul do país. Em relação aos dados de condição de cultivo, 31% da safra se encontra em condição considerada boa/excelente, enquanto normal e regular/ruim computam por 39% e 31%, respectivamente. Por fim, a BCBA ainda aponta que, na semana encerrada no dia 2 de setembro, 87,4% da safra se encontrava em etapa de perfilhamento; 28,0%, em desenvolvimento vegetativo; e 6,2%, em espigamento.
No estado brasileiro do Paraná, o Departamento de Economia Rural (Deral/PR) apontou o início da colheita nos núcleos regionais mais adiantados, porém de forma incipiente. Os núcleos de Londrina e Maringá colheram 5% e 2% da área, respectivamente. No estado todo, apenas 8% da safra se encontra em etapa de maturação, com grande parte (47%) em etapa de frutificação. Em relação a condição da área, o Deral/PR estima que 12% sejam considerados ruim; 32%, média; e 56%, bom. No estado de Rio Grande do Sul, de acordo com as informações disponibilizadas pela Emater/RS, na semana encerrada no dia 29 de agosto, foram registradas chuvas que contribuíram com a diminuição do déficit hídrico na região. Estima-se que 65% da safra do estado esteja em etapa de germinação/desenvolvimento vegetativo; 27%, floração; e 8%, enchimento de grãos.
TRIGO NOS MERCADOS FUTUROS DOS EUA
Fonte: CME. Elaboração: StoneX.