Apesar de uma semana bastante volátil, futuros do trigo em Chicago avançam apenas 0,7 p.p. em comparação a semana anterior
fatores baixistas
- Ritmo lento dos embarques físicos dos Estados Unidos;
- Queda da comercialização de trigo da Rússia.
fatores altistas
- Taxa de exportação russa sobre o trigo;
- Perspectiva de queda do excedente exportável global;
- Sinais de forte demanda internacional.
ESTADOS uNIDOS
Na segunda-feira (15), os futuros do trigo iniciaram a semana operando em campo positivo, em meio às expectativas dos agentes de uma piora da condição de safra – a estimativa média indicava 45% bom/excelente (B/E). Além disso, rumores de que o governo da Rússia deve revisar seu mecanismo de imposto sobre as exportações de trigo também forneciam apoio aos mercados futuros. Na sexta-feira (12), o Ministério da Agricultura russo havia anunciado um aumento de 10,3% o sobre a taxa, que passaria de 69,9 para 77,1 USD cents/tonelada a partir da então próxima quarta-feira (17). Ao final da sessão principal em Chicago, o contrato de dezembro/21 foi cotado a US¢ 826,20/bushel, ou uma valorização de US¢ 9,20/bu.
Os dados de inspeção das exportações, divulgados pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês), indicaram um crescimento semanal de 137,29 mil toneladas de trigo, ultrapassando 388,74 mil toneladas embarcadas, na semana encerrada no dia 11 de novembro. No comparativo anual, o USDA também registrou aumento, de 16,4%. Destaca-se que o acumulado do ano comercial corrente ainda se encontra abaixo (-1,73 milhão de toneladas) daquele registrado no mesmo período do ano passado, totalizando 10.307.783 toneladas de trigo.
Intraday | Preço contínuo – Chicago (USD cents/bushel)
Fonte: CME. Elaboração: StoneX.
As perdas registradas na terça-feira (16) mais do que apagaram os ganhos da véspera, com o contrato mais próximo (dezembro/21), na Bolsa de Chicago (CBOT, na sigla em inglês), recuando US¢ 16,0/bu – no fechamento do pregão principal, o mesmo contrato foi cotado a US¢ 810,20. Ainda na segunda-feira (15), o USDA divulgou os dados de
acompanhamento de safra. Para a safra de trigo de inverno, o Departamento indicou uma taxa de plantio de 94%, na semana encerrada no dia 14 de novembro, ou 2 pontos percentuais (p.p.) abaixo daquela registrada para o mesmo período do ano passado. Observa-se que a região leste do cinturão vem apresentando atrasos no ritmo de plantio, como nos estados de Illinois (10% abaixo da média dos últimos quatro anos), Ohio (-6%), Michigan (-5%) e Indiana (-2%), o que levanta questionamentos sobre a área plantada com trigo SRW. A taxa de emergência, por sua vez, foi estimada em 81%, abaixo do ciclo anterior (84%) e da média dos últimos cinco anos (83%). Em relação a condição de safra, o USDA estima que 46% da safra dos EUA esteja em condição considerada B/E, o que indica um avanço semanal de 1 p.p. Dentre os estados com melhor condição, destaca-se Illinois com 88% da safra B/E.
Na quarta-feira (17), os futuros do trigo voltaram a operar em alta em Chicago, com o contrato de dezembro/21 fechando a US¢ 822,2/bu (uma valorização de IS¢ 12,0/bu). Os ganhos foram sustentados pelo movimento de alta registrado no mercado futuro de soja e pelos sinais de demanda internacional aquecida. Além disso, enquanto o Ministério da Agricultura do Canadá prevê crescimento da área de trigo para a próxima safra, o Irã relata queda da produção nacional de trigo em decorrência da seca registrada no país – para 2021/22, o USDA estima uma produção de 13,5 milhões de toneladas (-1,5 mi frente a 2020/21) e importações na casa de 5,5 milhões, ou 3,3 milhões acima de 2020/21.
Quinta-feira (18), os futuros do trigo voltaram a registrar perdas, com o contrato mais próximo (dezembro/21) fechando a US¢ 810,20/bu, na CBOT. Apesar do aumento semanal das
vendas de exportação dos Estados Unidos (EUA), o ritmo ainda continua abaixo do ano passado. Os dados semanais de vendas de exportação, divulgados pelo USDA, indicaram crescimento de 39,5% no comparativo semanal e de 21% frente a média das últimas quatro semanas, totalizando 399,1 mil toneladas de trigo para 2021/22. Dentre os principais destinos, destacam-se Nigéria (84,2 mil t), Vietnã (66,0 mil t), Japão (66,5 mil t) e Filipinas (61,5 mil t).
Vendas de Exportação Semanais - EUA (mil toneladas)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.
Sem grandes notícias no mercado de trigo internacional e doméstico (EUA), na sexta-feira (19), os futuros do trigo de inverno fecharam a semana em campo positivo, com uma valorização de US¢ 3,0/bu sobre o contrato de dezembro/21, que fechou a US¢ 823,0/bu. De forma geral, o otimismo dos agentes quanto a demanda internacional levou a uma rodada de compras técnicas por parte de investidores, contribuindo com a alta dos preços do trigo de inverno. Em Minneapolis, onde é negociado o trigo de primavera, foi observado um recuo de US¢ 6,40/bu sobre o contrato mais próximo (dezembro/21), que fechou a US¢ 1.010,20/bu.
Na bolsa de Paris, pela segunda vez consecutiva o trigo encerrou a semana renovando sua máxima histórica. Apesar de quedas na segunda (15) e na terça-feira (16), significativos ganhos a partir de quarta (17) fizeram o contrato para dezembro/21 encerrar o período cotado a EUR 299,75/t, valorização semanal de 0,84%. Além da apertada oferta global do trigo, o principal fator responsável pelos constantes ganhos nos mercados futuros de trigo na Europa são as dificuldades encontradas pelos exportadores russos, que empurram compradores para os mercados vizinhos.
Isso se reflete nos números de exportação, que indicam importante queda nas vendas da Rússia e forte aumento nas vendas da União Europeia. Em sua última atualização, que data do dia 16 de novembro, a Comissão Europeia mostrou que no ano agrícola 2021/22 já deixaram o bloco econômico um total de 10,54 milhões de toneladas de trigo, volume 9,41% maior que o registrado em 2020 no mesmo período. Lembrando que os dados da França, maior exportador do bloco, não são computados desde julho e, portanto, o aumento nas vendas deve ser ainda mais significativo. Apenas para outubro, a Refinitiv estimou que deixaram os portos franceses 973 mil toneladas, o que seria o maior valor para o mês desde 2014.
Detalhando os dados, no momento os países do bloco que mais exportam são Romênia (33,6%), Bulgária (15,4%) e Alemanha (11,6%). Em relação aos destinos, os maiores mercados são Argélia (14,3%), Egito (12,0%) e Coreia do Sul (8,2%).
Olhando para a safra 2022/23, os números do FranceAgriMer mostram que o plantio no continente já está quase encerrado. Até o dia 15 de novembro, a França já tinha plantado 93% da área esperada, o que indica que até o final deste mês o processo pode estar encerrado. Em relação a qualidade da safra, os números primários são bastante promissores. Eles mostram que 99% da safra está em condições boas/excelentes, frente a 95% no ano passado para o mesmo período.
Intraday | Preço contínuo – Paris (EUR/tonelada)
Fonte: Euronext. Elaboração: StoneX.
Olhando para o mercado de trigo do Mar Negro, o panorama segue o mesmo dos últimos meses: na Rússia, os problemas da lavoura e as intervenções do governo mantém baixa a oferta, o que por sua vez impulsiona os preços e diminui a procura pelo cereal. Com isso, parte significativa da demanda se transfere para a vizinha, Ucrânia, que assim está aumentando seu volume de exportações.
Detalhemos esse processo. Em relação à lavoura russa, existia a expectativa de que os fazendeiros do país produziriam mais de 80 milhões de toneladas. Entretanto, estragos não antecipados causados pelo excesso de chuvas fizeram com o que o volume fosse muito menor que isso, com a última estimativa do USDA indicando 74 milhões de toneladas.
Sobre as intervenções do governo federal, a mais direta acontece através do imposto sobre as exportações, incidente desde o início de 2021. Na última semana, ele saltou para 77,10 USD/tonelada, o que sustenta uma desvantagem competitiva para os exportadores do país e faz com que produtores optem por ofertar no mercado interno. Para escassear ainda mais a quantidade de grãos à disposição de compradores internacionais, o Ministério da Agricultura sugeriu que a tarifa pode ser reformulada em 2022, resultando em novo aumento da carga tributária.
Com esses dois fatores limitando a oferta, os preços nos portos da Rússia não param de subir. Na última semana, eles saltaram de US$ 335,00/t para US$ 342,00/t, cotação recorde. Na esteira desse processo, as cotações da Ucrânia também têm valorização, saltando de aproximadamente US$ 330,00/t para US$ 335,00/t.
É exatamente essa diferença entre os preços russos e ucranianos a responsável pela diminuição das vendas de um e aumento das vendas do outro. Os dados do Serviço Federal Russo de Vigilância Veterinária e Fitossanitária mostram que, desde o início do ano agrícola (1° de julho) até o dia 11 de novembro, deixaram os portos da Rússia 16,6 milhões de toneladas, volume 16% menor que o de 2020. Já os dados do Ministério da Agricultura da Ucrânia mostram que até o dia 15 de novembro o país exportou 13,1 milhões de toneladas, um aumento anual de 16,9%.
Rússia - 12,5% | Preço FOB – contínuo (USD/tonelada)
Fonte: Cash Wheat Report. Elaboração: StoneX.
No estado brasileiro do
Paraná, o Departamento de Economia Rural (Deral/PR) estima que 97% da safra, ou 1,164 milhão de hectares, tenha sido colhida até o dia 16 de novembro. Da área restante (nos núcleos regionais de Curitiba, Guarapuava, Irati, Pato Branco, Pitanga, Ponta Grossa, e União da Vitória), estima-se que 15% e 85% estejam em condição média e boa, respectivamente. No estado de
Rio Grande do Sul, a Emater/RS-Ascar destacou o avanço de 15 p.p. sobre o percentual de colheita no estado, que chegou a 85% da safra. Apesar do avanço significativo, os trabalhos no campo estão abaixo do mesmo período do ano passado (97%) e da média dos últimos cinco anos (89%). Os dados de evolução de safra ainda indicam 1% em fase de enchimento de grãos e 14% em maturação.
Na
Argentina, a Bolsa de Cereais de Buenos Aires (BCBA) indicou avanço semanal de 5,9 p.p. sobre a colheita da safra de trigo no país, chegando a 17,6%. Se, por um lado, as chuvas têm causado atrasos na colheita, que está 2,2 p.p. abaixo do ano passado, por outro, contribuem com o alívio do estresse hídrico sobre a área ainda em desenvolvimento. A BCBA estima que 59% estejam em condição de cultivo B/E, e 88% em condição hídrica ótima/adequada. A produtividade média até a semana encerrada no dia 17 de novembro é de 1,62 tonelada/hectare.
TRIGO NOS MERCADOS FUTUROS DOS EUA
Fonte: CME. Elaboração: StoneX.