Na CBOT, fortes ganhos no início da semana foram apagados pelas incertezas geradas pelo surgimento de uma nova variante da Covid-19
fatores baixistas
- Ritmo lento dos embarques físicos dos Estados Unidos;
- Queda da comercialização de trigo da Rússia;
- Surgimento da variante Ômicron da Covid-19.
fatores altistas
- Aumento da taxa de exportação russa sobre o trigo;
- Perspectiva de queda do excedente exportável global;
- Sinais de forte demanda internacional;
- Atraso na colheita da safra australiana de trigo.
ESTADOS uNIDOS
Na segunda-feira (22), os mercados futuros de trigo dos Estados Unidos (EUA), União Europeia e Rússia registraram forte alta, impulsionados pela interrupção da colheita da safra de trigo australiana. As chuvas registradas ao longo do final de semana, de 19 a 21 de novembro, cobriram as regiões oeste e leste do cinturão, enquanto novos volumes de chuva eram aguardados para a região oeste. Na Bolsa de Chicago (CBOT, na sigla em inglês), o contrato de dezembro/21 chegou a ser cotado a 848,40 USD cents/bushel em sua máxima diária, fechando a US¢ 845,60/bu, ou uma variação de US¢ 22,60/bu em relação a sessão principal da sexta-feira (19) anterior. Vale destacar, contudo, que o forte movimento de alta pode ter redirecionado parte da demanda de trigo para o mercado de milho, uma vez que os preços do cereal nos EUA alcançaram os do trigo da Rússia.
De acordo com os dados semanais de embarques físicos estadunidenses, as inspeções de exportação do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês) registraram 177,8 mil toneladas de trigo – significativamente abaixo tanto em relação à semana anterior (-54,5%) quanto ao ano passado (-51,1%). O acumulado do ano corrente aponta para um total de 10.487.547 toneladas de trigo exportadas, pouco mais de 1,9 milhão de toneladas abaixo daquele registrado no mesmo período do ano passado.
Intraday | Preço contínuo – Chicago (USD cents/bushel)
Fonte: CME. Elaboração: StoneX.
Na terça-feira (23), os futuros do trigo seguiram em tendência de alta, com o contrato mais próximo (dezembro/21), em Chicago, fechando a US¢ 856,00/bu, uma valorização de US¢ 10,20/bu. O movimento de alta foi sustentado pela preocupação dos agentes com possíveis impactos das recentes chuvas sobre a safra australiana, além da queda semanal de 2 pontos percentuais (p.p.) sobre o percentual da safra de inverno dos EUA considerada em condição boa/excelente (B/E). Com base nos dados de
acompanhamento de safra, divulgados pelo USDA, na segunda-feira (22), 96% da safra de inverno foi plantada até o dia 21 de novembro, enquanto a taxa de emergência é de 86%. Em relação à condição registrada, estima-se que 44% da safra esteja em condição B/E.
Pressionados pela realização de lucros por parte de investidores, os futuros do trigo voltaram a operar em campo negativo, na quarta-feira (24). Na CBOT, o contrato futuro de dezembro/21 foi cotado a US¢ 836,60/bu no fechamento da sessão principal, o que aponta para uma variação diária negativa de US¢ 19,20/bu. Em razão do feriado nacional do Dia de Ação de Graças, nos EUA, os mercados não operaram na quinta-feira (25), voltando apenas para meia-sessão na sexta (26).
Vendas de Exportação Semanais - EUA (mil toneladas)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.
Na sexta-feira (26), os mercados futuros de trigo operaram em campo negativo, pressionados pelas notícias sobre a nova variante do vírus Covid-19, originária da África do Sul. Nomeada como Ômicron, pouco ainda se sabe sobre a nova variante, mas aparenta ser mais contagiosa, tendo sido identificada em quatro continentes (África, América do Norte, Ásia e Europa) e em mais de 14 países. Na CBOT, o contrato de dezembro/21 fechou a sessão principal a US¢ 825,40/bu, uma variação negativa de US¢ 11,20/bu. Os dados de
vendas de exportação, divulgados pelo USDA, na sexta-feira (26), indicaram um total de 567,5 mil toneladas de trigo, na semana encerrada no dia 18 de novembro. No comparativo semanal, isso indica um crescimento de 42%, enquanto, contra a média das últimas quatro semanas, esse aumento sobe para 70%.
Na última semana, a variação dos preços do trigo na Europa teve dois momentos distintos. Na segunda (22) e na terça-feira (23), o rali do cereal seguiu sendo a tendência dominante, com o contrato com vencimento para dezembro/21 negociado na bolsa de Paris saltando de EUR 299,75/t para EUR 309,00/t. Como há tempos vem sendo discutido, esse movimento responde não só a um cenário de oferta mundial apertada, mas também ao fato de que os preços especialmente altos na Rússia estão deslocando compradores para a União Europeia, o que produz forte demanda pelo trigo do continente.
A partir de quarta, entretanto, o trigo passou a perder valor. Ele encerrou a semana cotado a EUR 299,25/t, desvalorização semanal de 0,16%. Apesar de baixa, essa é a primeira desvalorização semanal do trigo na Euronext em meses, o que mostra a particularidade do momento. O responsável pela queda foi a Ômicron, nova variante do coronavírus que surgiu na África do Sul e causou pânico nos mercados mundiais, já que existe a possibilidade de ela ser mais infecciosa e mais resistente às vacinas. No curto/médio prazo, entretanto, os preços do trigo europeu devem retomar a tendência de alta. Isso porque, mesmo em um momento de lockdown, a demanda por trigo não é significativamente afetada, já que ele é um item básico da cesta de consumo de culturas de todo o mundo.
Além da questão da variante Ômicron, destaque na última semana para a divulgação do boletim MARS, relatório produzido pela Comissão Europeia, que traz um monitoramento das safras agrícolas do bloco econômico. A edição de novembro mostrou que o plantio do trigo de inverno caminha dentro da normalidade, com o clima ameno permitindo aos fazendeiros boas condições de trabalho. Assim, em quase todas as áreas destinadas à produção de trigo o plantio está totalmente ou praticamente finalizado. Além disso, a umidade adequada do solo permitiu rápido desenvolvimento das sementes, o que deu ao grão as condições para emergir conforme às expectativas.
Há, entretanto, algumas exceções dentro desse cenário otimista. Além de afetar áreas de baixa produção da Europa Central, a seca também atinge o norte da Romênia, país que no momento é o principal exportador da União Europeia em 2021/22. Essas regiões estão enfrentando atraso no plantio e emergência abaixo da média.
Por fim, as exportações da União Europeia. Os dados divulgados na última terça-feira (23) pela Comissão Europeia mostraram que 10,81 milhões de toneladas de trigo já deixaram o bloco em 2021/22, volume 5,54% maior que o registrado em 2020/21. Sempre importante destacar que as exportações francesas não são computadas desde julho, o que significa que o total deve ser ainda maior. Destrinchando os resultados, destaque entre os importadores para Argélia (13,3%), Egito (11,1%) e Nigéria (7,74%). Esse último ultrapassou recentemente a Coréia do Sul, país que há semanas estava dentro do top-3. Já entre os países de origem, seguem sendo os três principais Romênia (33,0%), Bulgária (15,4%) e Alemanha (12,4%).
Intraday | Preço contínuo – Paris (EUR/tonelada)
Fonte: Euronext. Elaboração: StoneX.
No Mar Negro, especificamente na Ucrânia e na Rússia, mais uma vez o trigo fechou a semana com valorizações. Estimativas mostram que nos portos russos a tonelada do grão encerrou a semana cotada a USD 345,25 e nos portos ucranianos cotada a USD 341,75. Esses valores representam ganhos semanais de USD 3,25 e USD 3,75, respectivamente. Como os preços em outros países produtores foram pressionados pela nova variante do coronavírus, o trigo da região do Mar Negro se tornou ainda menos competitivo, com especial destaque para o russo. No dia 23, o imposto sobre as exportações chegou a USD 78,30/tonelada.
Olhando para as exportações, dados do Serviço Federal Russo de Vigilância Veterinária e Fitossanitária mostram que desde o início do ano agrícola (1º de julho) até o dia 18 de novembro deixaram os portos da Rússia um total de 17,2 milhões de toneladas, volume 18% menor que o registrado em 2020. Os principais compradores foram Turquia (19,8%), Egito (15,1%) e Cazaquistão (5,8%). Pelo outro lado, as vendas ucranianas até o dia 22 de novembro totalizaram 14,0 milhões de toneladas, volume 22% maior que o de 2020.
Na safra 2021/22, o governo da Rússia divulgou que colheu 78,6 milhões de toneladas, volume abaixo das 88,1 milhões declaradas em 2020/21. Esses dois valores ficam acima dos indicados pelo USDA, mas é possível que isso se deva a diferentes métodos de análise: os americanos pegam o peso total final da produção, enquanto os russos consideram o volume antes da lavagem e separação. Já na Ucrânia, há meses que o ministério da agricultura anunciou que os fazendeiros do país colheram 32,3 milhões de toneladas.
Já para a safra 2022/23, há alguns fatores de preocupação. Na Rússia, o plantio da safra de inverno foi concluído em um momento de seca. A boa notícia é que, por enquanto, as sementes estão emergindo dentro da normalidade. Já na Ucrânia, o plantio está progredindo bem e está quase completo. Porém, a seca e o frio enfrentados em outubro estão prejudicando o bom desenvolvimento dos grãos, que estão apresentando baixa porcentagem de emersão.
Rússia - 12,5% | Preço FOB – contínuo (USD/tonelada)
Fonte: Cash Wheat Report. Elaboração: StoneX.
No estado do
Paraná, o Departamento de Economia Rural (Deral/PR) reportou que a colheita estava quase que completa, na semana encerrada no dia 22 de novembro, com cerca de 99% concluída, ou 1.184,66 mil hectares. Até então, a produção obtida foi de pouco menos 3,16 milhões de toneladas de trigo, cerca de 98,3% da estimativa inicial. O rendimento médio registrado é de 2,67 toneladas por hectare. Da área restante, ainda a ser colhida, estima-se que 88% estejam em boa condição e 100% em fase de maturação – os núcleos regionais que ainda não encerraram a safra 2020/21 são: Curitiba (90% da colheita concluída), Guarapuava (85%), Irati (98%), Pato Branco (96%), Ponta Grossa (99%) e União da Vitória (85%).
No estado brasileiro de
Rio Grande do Sul, a Emater/RS-Ascar reportou que 97% da safra tinha sido colhida até o dia 25 de novembro, enquanto 3% ainda se encontravam em fase de maturação. As estimativas estão em linha com o observado no ciclo anterior. Destaca-se que o tempo seco em grande parte do estado favoreceu o avanço da colheita.
Na
Argentina, a Bolsa de Cereais de Buenos Aires (BCBA) estima que 32,8% da área a ser colhida (que desconsidera a área perdida), ou um avanço semanal de 15,2 p.p. – o forte avanço foi beneficiado pelo clima seco e altas temperaturas. Com a finalização da colheita nas regiões Nordeste e Noroeste, que registraram rendimento médio de 0,84 e 1,06 tonelada por hectare, e rendimentos acima do esperado para regiões-chave no centro da área agrícola, a BCBA elevou sua estimativa em 500 mil toneladas, totalizando 20,3 milhões. Em relação a condição de cultivo, estima-se que 53% estejam em condição B/E, enquanto 83% apresentam condição hídrica considerada adequada/ótima.
TRIGO NOS MERCADOS FUTUROS DOS EUA
Fonte: CME. Elaboração: StoneX.