Rússia pretender estabelecer cota de exportação de trigo para o primeiro semestre de 2022 em 8 milhões de toneladas
fatores baixistas
- Ritmo lento dos embarques físicos dos Estados Unidos;
- Queda da comercialização de trigo da Rússia;
- Reflexos da variante Ômicron da Covid-19.
fatores altistas
- Alta taxa de exportação russa sobre o trigo;
- Queda do excedente exportável global;
- Sinais de demanda internacional.
ESTADOS uNIDOS
Na segunda-feira (13), apesar do baixo ritmo de exportações dos Estados Unidos (EUA), os futuros do trigo foram sustentados pelo movimento de compras técnicas por parte de investidores. Na Bolsa de Chicago (CBOT, na sigla em inglês), o contrato de março/22 negociou em alta, fechando a sessão principal a 788,60 USD cents/bushel.
As inspeções de exportação do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês) trouxeram mais uma semana de queda sobre o volume embarcado de trigo, apesar de mais suave do que a registrada na semana anterior. De acordo com os dados disponibilizados, os embarques físicos do cereal totalizaram 245,09 mil toneladas, na semana encerrada no dia 09 de dezembro. No comparativo semanal, isso representa uma queda de 0,47%, enquanto, no comparativo anual, a diferença aumenta para -6,97%. O acumulado do ano comercial corrente segue abaixo do registrado no ano passado, cerca de 11,39 contra 13,74 milhões de toneladas de trigo.
Intraday | Preço contínuo – Chicago (USD cents/bushel)
Fonte: CME. Elaboração: StoneX.
Na terça-feira (14), os mercados futuros de trigo voltaram ao campo negativo. Pressionados pelo movimento de queda nos mercados europeus e pela liquidação de contratos, os futuros em Chicago e Kansas City (KCBT) fecharam a sessão principal em leve queda. Enquanto isso, Minneapolis (MGEX) registrou leve alta. Na CBOT, o contrato de março foi cotado a US¢ 787,00/bu no encerramento da sessão. Ainda sob pressão da liquidação de contratos, na sessão seguinte, de quarta-feira (15), as três principais bolsas dos EUA registraram quedas mais acentuadas, com a CBOT registrando queda de US¢ 31,0/bu; KCBT, de US¢ 26,2/bu; e MGEX, de US¢ 11,6/bu.
Na quinta-feira (16), os mercados futuros de trigo nos EUA recuperaram parte das perdas acumuladas ao longo das duas sessões anteriores, com a KCBT apresentando a maior recuperação (US¢ 18,20/bu), seguida pela MGEX (US¢ 14,40/bu) e CBOT (US¢ 17,40/bu) – nessa última, o contrato de março/22 fechou a sessão principal a US¢ 770,40/bu. Além do aumento semanal expressivo do volume de
vendas de exportação, o movimento de alta também foi sustentado por condições climáticas adversas na véspera, em especial sobre regiões produtores de trigo HRW. Os dados de vendas de exportação do USDA, referentes a semana encerrada no dia 09 de dezembro, trouxeram a maior alta do ano comercial corrente. Para 2021/22, foram registradas vendas que totalizaram 650,6 mil toneladas de trigo, um aumento de 171,2% no comparativo semanal.
Vendas de Exportação Semanais - EUA (mil toneladas)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.
Apesar da recuperação na véspera e fechamento em campo positivo, na sexta-feira (17), os ganhos não foram suficientes para que Chicago apresentasse variação semanal positiva (-0,9%). Enquanto Minneapolis também registrou queda semanal (-1,6%), Kansas avançou 1,1%. Dentre os destaques da sessão, os agentes monitoraram os impactos das intempéries climáticas registradas na quarta-feira (15), que atingiu áreas responsáveis por quase metade da produção de trigo de inverno dos EUA. Além disso, a tensão no Mar Negro, entre Rússia e Ucrânia, segue no radar dos agentes, uma vez que pode gerar obstáculos ao fornecimento global de trigo.
Na última segunda-feira (13), a Comissão Europeia divulgou o boletim MARS de dezembro, relatório de monitoramento de safra oficial do poder executivo da União Europeia. Em grande medida, o boletim indicou que as lavouras europeias de trigo estão em boas condições para enfrentar o inverno. As temperaturas normais durante o outono possibilitaram o bom desenvolvimento da maioria da safra e permitiu aos agricultores trabalhar nos campos a fim de corrigir problemas.
Entretanto, algumas considerações foram feitas. Uma que preocupa é o atraso no desenvolvimento do trigo nas duas principais regiões produtoras do bloco econômico: França e Mar Negro. Na primeira, as temperaturas abaixo da média a partir de outubro prejudicaram o crescimento, fazendo com que apenas alguns campos tenham entrado em fase de perfilhamento. Já na região do Mar Negro, o trigo não está no estágio ideal em partes da Romênia e da Bulgária devido ao atraso do plantio, além das temperaturas acima da média a partir de novembro.
Um outro ponto de preocupação é o não fortalecimento do trigo, já que isso o torna suscetível a geadas. Naturalmente esse grão ganha tolerância a baixas temperaturas, o que permite a ele aguentar o frio do inverno europeu. Esse ano, entretanto, os dados da Comissão Europeia mostram que em diversas regiões esse fortalecimento não se deu de maneira ideal, especialmente no mar Negro e na França, regiões em que, como mencionado, o trigo está subdesenvolvido. Por enquanto, nenhuma região teve danos devido a geadas e a previsão para o curto prazo é de temperaturas toleráveis. Mesmo assim, é um ponto a se ficar de olho.
Apesar desses fatores de preocupação, ainda não aconteceram danos reais para as lavouras. Assim, mantém-se as perspectivas de uma boa safra para os produtores europeus. No último relatório WASDE, o USDA estimou que em 2021/22 a União Europeia irá ofertar um total de 138,7 milhões de toneladas. Além do Departamento norte-americano, diversas outras instituições públicas e privadas já divulgaram suas estimativas para a próxima safra. A Comissão Europeia espera 130,6 milhões de toneladas; a Coceral, associação das indústrias de grãos, estima 139,8 milhões; e a consultoria Strategie Grains prevê 127,6 milhões. Percebe-se uma diferença significativa entre os números, decorrência da distância que ainda existe para o período da colheita.
Em relação aos preços, pela quarta semana consecutiva os contratos de trigo negociados no Marché à Terme International de France (MATIF) registraram desvalorização. Mais uma vez, foi a perspectiva de arrefecimento da escassez de oferta a responsável pelas perdas, já que agora o mercado estima safras maiores para Canadá, Rússia e, principalmente, Austrália. Na sexta-feira (18), o contrato para março/22 encerrou a semana cotado a EUR 278,00/t, uma desvalorização semanal de EUR 5,50/t.
Por fim, as exportações. Nos sete dias que se encerraram 14 de dezembro, a União Europeia exportou apenas 313 mil toneladas de trigo. Para efeitos de comparação, nas duas semanas anteriores os embarques ultrapassaram 1,2 milhão de toneladas. Com a desaceleração do ritmo, as exportações em 2021 agora totalizam 13,74 milhões de toneladas, volume 7,2% inferior ao de 2019. Mesmo assim, elas ainda são 10,1% mais volumosas que as de 2020, sem falar que os dados franceses estão incompletos, o que significa que o número real das exportações é maior do que o divulgado.
Intraday | Preço contínuo – Paris (EUR/tonelada)
Fonte: Euronext. Elaboração: StoneX.
Na região do Mar Negro, a grande novidade da última semana foi a correção da cota de exportação da Rússia para o primeiro semestre de 2022. Em uma primeira divulgação, o governo russo havia afirmado que entre os dias 15 de fevereiro e 30 de junho os exportadores do país só poderiam vender 9 milhões de toneladas de trigo e um total de 14 milhões de toneladas de grãos. Porém, na última sexta (17), foi anunciado que os volumes para trigo e grãos serão de apenas 8 milhões e 11 milhões de toneladas, respectivamente. Em 2021, a cota foi de 17,5 milhões de toneladas de grãos, sem especificações para o trigo, volume significativamente maior que o do próximo ano.
A notícia traz a possibilidade de diminuição da oferta mundial, já que limita a capacidade de vendas do maior exportador do mundo. Entretanto, é possível que ela não impacte significativamente o mercado internacional, já que análises apontam que, para o período em que a medida foi adotada, o volume de trigo disponível para exportação na Rússia é próximo das 8 milhões de toneladas liberadas para deixar o país. Ou seja, mesmo em condições de livre mercado, os russos não conseguiriam ofertar muito mais do que a cota permite.
Mesmo assim, os agentes devem seguir acompanhando o noticiário da Rússia. Em novembro, a inflação anual no país alcançou 8,4% e um dos setores significativamente afetados é o de alimentos. Nesse contexto, o governo está fazendo do combate à inflação sua prioridade número 1, não tendo problemas em adotar medidas heterodoxas, por exemplo, a cota de exportação.
Além dela, uma outra medida não usual é a taxa flutuante sobre as vendas externas. Na sexta, o ministro da agricultura declarou que o país pode reformar esse sistema, ajustando o mecanismo que foi montado para aumentar a disponibilidade do grão no mercado interno. Na semana passada, essa taxa saltou de USD 84,90/t para USD 91,00/t.
No ano safra atual, as exportações russas já estão sendo severamente afetadas pelas medidas governamentais de incentivos às vendas no mercado interno. Até o dia 9 de dezembro, deixaram o país apenas 19,4 milhões de toneladas, volume que é aproximadamente 20% menor que o registrado no ano passado. Em contrapartida, as exportações ucranianas até 10 de dezembro cresceram 24% e totalizavam 15,0 milhões de toneladas, impulsionadas pela aquisição de antigos parceiros russos.
A notícia positiva para os exportadores é que os preços no Mar Negro seguiram a queda de outras regiões, ajudando a tornar o produto russo e ucraniano mais competitivo. Na última semana, nos portos da região, a tonelada de trigo do primeiro perdeu USD 5,00/t e está agora cotada a USD 335,00; enquanto a tonelada do segundo perdeu USD 2,50 e está agora valendo USD 329,00/t.
lhando para a safra 2021/22, as estimativas para a Rússia recentemente se tornaram mais positivas. Com as lavouras se desenvolvendo de maneira satisfatória, o USDA agora estima a produção em 75,5 milhões de toneladas (acréscimo de um milhão na comparação com a última divulgação), a consultoria IKAR em 76,7 milhões (acréscimo de 1,2 milhão) e a consultoria Sovecon em 75,4 milhões (acréscimo de 0,1 milhão).
Mesmo assim, é importante apontar que, de todo jeito, o volume segue significativamente menor que as 85,35 milhões de toneladas registradas em 2020/21. Além disso, também existem alguns pontos de preocupação apontadas pelo boletim MARS. Apesar de a maior parte do país estar com as lavouras saudáveis, algumas regiões foram afetadas por temperaturas acima do normal, o que pode ter prejudicado o fortalecimento do grão, essencial para que a planta sobreviva às geadas. Na Ucrânia, o USDA estima a safra em 33 milhões de toneladas e algumas regiões do país enfrentam os mesmos problemas russos relacionados com altas temperaturas.
Rússia - 12,5% | Preço FOB – contínuo (USD/tonelada)
Fonte: Cash Wheat Report. Elaboração: StoneX.
Na
Argentina, a Bolsa de Cereais de Buenos Aires (BCBA) estima que mais de 4,1 milhões de hectares já tenham sido colhidos, o que representaria 65% da área plantada (de 6,5 mi ha). O nível de produtividade segue surpreendendo, com a média nacional estimada em 3,14 toneladas por hectare, e caso se mantenha pode elevar a produção a 21 milhões de toneladas. Isso representaria um crescimento anual de 23,5%. Até o momento, a produção argentina de trigo está em pouco mais de 13,09 milhões de toneladas, sendo que oito regiões da área agrícola finalizaram os trabalhos no campo. Em relação às condições de safra, a BCBA estima que 81% da safra apresenta condição de cultivo bom/excelente, enquanto 94% apresentam condição hídrica ótima/adequada.
TRIGO NOS MERCADOS FUTUROS DOS EUA
Fonte: CME. Elaboração: StoneX.