Colheita na Argentina e na Austrália diminui as preocupações com a oferta global de trigo
fatores baixistas
- Alto rendimento da safra da Argentina;
- Queda da comercialização de trigo da Rússia;
- Reflexos da pandemia da Covid-19.
fatores altistas
- Intemperies climáticas nos Estados Unidos;
- Alta taxa e quota de exportação russa sobre o trigo;
- Queda do excedente exportável global.
ESTADOS uNIDOS
No final de 2021, duas tendências antagônicas atuavam sobre os preços futuros do trigo negociados na bolsa de Chicago. Por um lado, as melhores perspectivas para a produção no hemisfério sul pressionavam as cotações, com a revisão das estimativas mostrando produção robusta na Argentina e, principalmente, na Austrália. Pelo outro lado, impulsionava os contratos a seca que afetava a região sul das Grandes Planícies norte-americanas, principal região produtora de trigo dos Estados Unidos.
Na primeira semana de 2022, foram esses dois mesmos fatores que influenciaram as cotações na CBOT. Assim como em dezembro de 2021, acabou prevalecendo a tendência de baixa, que fez o contrato para março/22 recuar de US¢ 770,75/bu no encerramento do ano passado para US¢ 760,50/bu na sexta-feira (7). Olhemos detalhadamente cada um dos dias.
Na segunda-feira (3), o trigo abriu 2022 com desvalorizações. Em um dia em que o mercado ainda estava de ressaca depois do feriado de ano novo, os investidores não reagiram a nenhum fato específico, mantendo o movimento de queda que vinha do ano anterior. No encerramento do dia, o contrato para março/22 teve perdas de US¢ 12,75/bu, ficando cotado a US¢ 758,00/bu.
Intraday | Preço contínuo – Chicago (USD cents/bushel)
Fonte: CME. Elaboração: StoneX.
Já na terça-feira (4), o pregão foi de importantes ganhos para os futuros. Esse movimento ocorreu porque pela primeira vez desde o dia 13 de dezembro o USDA atualizou as condições da safra norte-americana. Com isso, os investidores não só lembraram que a produção dos Estados Unidos estava sendo afetada pela seca, mas eles descobriram que as condições haviam piorado ainda mais. Em Kansas, principal estado produtor do país, apenas 33% da lavoura estava em ótimas/boas condições, uma queda de 18% desde a última divulgação. Já em Oklahoma, segundo estado que mais produz trigo de inverno, apenas 20% da safra possuía boas/ótimas condições, uma forte queda de 28%. Isso aconteceu porque 50% de Kansas e 90% de Oklahoma foram afetados por algum tipo de seca. Com isso, o contrato para março/22 negociado em Chicago teve ganhos de US¢ 12,00/bu, alcançando os US¢ 770,00/bu.
Entretanto, na quarta (5) e na quinta-feira (6) o movimento de queda voltou ao mercado. De maneira geral, a diminuição das preocupações com a oferta global de trigo se mostrou dominante, pressionando significativamente os contratos. Lembrando que o Escritório Australiano de Economia, Ciências Agrárias e de Recursos (ABARES) estima uma produção australiana recorde de 34,4 milhões de toneladas de trigo e que a Bolsa de Cereais de Buenos Aires estima uma produção argentina de 21,8 milhões de toneladas, um crescimento anual próximo de 25%. Ambas as colheitas já estão avançadas. Com isso, o contrato para março/22 perdeu US¢ 24,00/bu nas duas sessões, recuando para os US¢ 746,00/bu, menor valor desde o final de outubro.
Também teve um papel nas perdas o relatório semanal de vendas de exportação do USDA, divulgado na quinta-feira e referente aos sete dias que se encerraram em 30 de dezembro. Os dados mostraram que os Estados Unidos exportaram apenas 48,6 mil toneladas de trigo, volume 87% menor que a média das últimas quatro semanas e o menor desde o início do ano safra (1° de junho). O mercado interpretou isso como um indício de que a demanda pelo produto norte-americano está bastante desaquecida.
Vendas de Exportação Semanais - EUA (mil toneladas)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.
Por fim, os contratos de trigo encontraram um ritmo na sessão de sexta-feira (7), conseguindo recuperar algumas, porém não todas as perdas da semana. Ao final da sessão, o contrato para março/22 registrou ganhos de US¢ 14,50/bu que impulsionou sua cotação para os US¢ 760,50/bu.
Para a próxima semana, a grande expectativa fica por conta do relatório de oferta e demanda do USDA, o famoso relatório WASDE, que será divulgado na quarta-feira (12). Até lá, o trigo deve ficar menos volátil, com os investidores aguardando a importante divulgação antes de tomar novas posições. A expectativa é que o USDA aumente suas estimativas para a produção global.
No Marché à Terme International de France (MATIF), os futuros do trigo fecharam a semana em leve alta, com o contrato mais próximo (março/22) fechando a 274,50 EUR/tonelada. Os preços têm apresentado tendência de queda desde 27 de dezembro, de forma semelhante a Chicago, muito em razão do período de festividades. Destaca-se, contudo, que, na terça-feira (4), os futuros do trigo apresentaram forte tendência de alta (+1,92 EUR/t sobre o contrato de março/22), sendo impulsionados pelo relatório altista de condições de safra nos Estados Unidos, que reportou danos significados as regiões produtoras de trigos de invernos.
De acordo com os dados disponibilizados pela Comissão Europeia, desde 01 de julho, o bloco exportou cerca de 14,01 milhões de toneladas de trigo soft, cerca de 380 mil toneladas acima do mesmo período do ano anterior. Contudo, cabe reforçar a defasagem dos números da Franca, maior país exportador do bloco, que se estendem apenas até novembro/21. Com isso, é difícil apontar com clareza o contexto em que se encontram as exportações europeias.
Intraday | Preço contínuo – Paris (EUR/tonelada)
Fonte: Euronext. Elaboração: StoneX.
Apesar de que a perspectiva dos agentes fosse um aumento das negociações do trigo russo antes de a nova quota de exportações entrar em vigor, a primeira semana do ano apresentou baixo volume de negociações na região do Mar Negro. Vale ressaltar que o governo da Rússia impôs uma quota de exportações de 8,0 milhões de toneladas de trigo, de 15 de fevereiro a 30 de junho de 2022. No que tange os níveis de preços observados no país, a tendência de alta segue sendo sustentada pela preocupação dos agentes com as condições climáticas, além do mecanismo de taxa flutuante sobre as exportações. A última atualização da taxa ocorreu no dia 30 de dezembro, quando foi revisada de US$ 94,9/t para US$ 98,2/t.
Por fim, vale lembrar que o governo russo revisou o cálculo da taxa de exportação, deixando-o mais sensível ao aumento dos preços. De acordo as novas regras, o multiplicador da tarifa será maior se o preço de referência ultrapassar US$ 375,00/t, enquanto a tarifa irá aumentar caso o preço de referência ultrapasse US$ 400,00/t.
Em relação à Ucrânia, no período de 01 de julho a 31 de dezembro, o país exportou 15,8 milhões de toneladas de trigo, ou 3,3 milhões acima do mesmo período do ano anterior. Já na primeira semana do ano, o volume total foi acrescido em 300 mil toneladas, totalizando 16,1 milhões de toneladas, de acordo com o Ministério da Agricultura ucraniano.
Rússia - 12,5% | Preço FOB – contínuo (USD/tonelada)
Fonte: Cash Wheat Report. Elaboração: StoneX.
Na Argentina, a Bolsa de Cereais de Buenos Aires (BCBA) elevou mais uma vez sua estimativa para a produção de trigo, passando de 21,5 para 21,8 milhões de toneladas. A revisão altista é em decorrência das altas taxas de rendimentos reportadas. Estima-se que 99,3% da área apta já tenha sido colhida, com bons rendimentos sendo observados em diversas regiões, sobretudo nas regiões: Centro-Norte (4,40 t/ha), Centro-Sul (4,75 t/ha), Oeste de Buenos Aires (4,49 t/ha), Centro de Buenos Aires (4,40 t/ha), e Sudeste de Buenos Aires (4,31 t/ha). Até o dia 05 de janeiro, a BCBA reportou uma produção total de 21,66 milhões de toneladas. Em relação a condição de cultivo, estima-se que 76% da área ainda a ser colhida seja considerada boa/excelente, enquanto, em relação a condição hídrica, 85% sejam considerados ótimo/adequado.
TRIGO NOS MERCADOS FUTUROS DOS EUA
Fonte: CME. Elaboração: StoneX.