Atualização do balanço de O&D do USDA provoca forte movimentação nos mercados futuros de trigo
fatores baixistas
- Alto rendimento da safra da Argentina;
- Queda da comercialização de trigo da Rússia;
- Reflexos da pandemia da Covid-19.
fatores altistas
- Intemperies climáticas nos Estados Unidos;
- Alta taxa e quota de exportação russa sobre o trigo;
- Queda do excedente exportável global.
ESTADOS uNIDOS
Na segunda-feira (10), os mercados futuros de trigo iniciaram a semana sem grandes notícias, com o contrato mais próximo (março/22) fechando a 762,00 USD cents/bushel, ou um aumento de US¢ 3,40/bu, na Bolsa de Chicago (CBOT, na sigla em inglês). Como de forma usual, no radar dos agentes esteve a divulgação dos números de inspeção das exportações. De acordo com o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês), os embarques físicos de trigo totalizaram 233,16 mil toneladas, na semana encerrada no dia 06 de janeiro de 2022. Apesar de isso representar um aumento singelo de 1,2% no comparativo semanal, na comparação com o mesmo período do ano passado, o volume embarcado apresenta uma queda de 20,7%. O acumulado do ano corrente está em 12.431,651 mil toneladas de trigo, um déficit anual de 2,87 milhões de toneladas.
Intraday | Preço contínuo – Chicago (USD cents/bushel)
Fonte: CME. Elaboração: StoneX.
A sessão de terça-feira (11) foi marcada por forte tendência de alta, sustentada pelo movimento de compras por parte de investidores. Ao final da sessão principal, o contrato de março/22 apresentou alta de US¢ 8,20/bu, fechando a US¢ 770,20/bu na CBOT. Contudo, já na sessão seguinte, de quarta-feira (12), todos os ganhos seriam apagados, com os futuros do trigo sendo pressionados pela nova perspectiva do USDA para a safra 2021/22. No fechamento da sessão principal, em Chicago, o contrato de março/22 foi cotado a US¢ 757,60/bu, totalizando uma queda de US¢ 12,40/bu. Para saber mais sobre as principais revisões do USDA para o mercado de trigo e outras commodities, acesse a
matéria especial dessa semana.
Na quinta-feira (13), os futuros do trigo seguiram em tendência de queda por conta da atualização mensal dos números do USDA para o balanço de oferta e demanda. Na CBOT, o contrato de março/22 acumulou perdas de US¢ 11,00/bu, fechando a US¢ 746,60/bu; enquanto Kansas registrou perdas de US¢ 18,20, fechando a US¢ 759,60/bu, e Minneapolis registrando perdas de US¢ 25,00, fechando a US¢ 895,40/bu. Além disso, outro fator que contribuiu com a queda dos preços foi a atualização dos dados de vendas de exportação do USDA. Na semana encerrada no dia 06 de janeiro, o Departamento apontou a venda de 264,4 mil toneladas, pouco acima das 221,9 mil toneladas registradas no mesmo período do ano passado. Se compararmos, agora, o acumulado de vendas, o déficit de compromissos chega a ultrapassar 5,0 milhões de toneladas de trigo.
Vendas de Exportação Semanais - EUA (mil toneladas)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.
Na sexta-feira (14), os futuros do trigo nos Estados Unidos fecharam a semana em queda. Em Chicago, o contrato mais próximo (março/22) foi cotado a US¢ 741,40/bu no fechamento da sessão principal. De forma geral, os agentes seguiram digerindo os números apresentados pelo USDA tanto para o balanço de oferta e demanda da safra 2021/22, quanto para as vendas de exportação. Com o segundo semestre do ano comercial corrente tendo apenas começado, os agentes devem se manter atentos a evolução do comércio internacional, bem como a possíveis eventos climáticos que acarretem danos à safra de inverno nos países do hemisfério norte.
Na última semana, os preços do trigo no mercado europeu seguiram a tendência mundial de desvalorização. Assim como em Chicago, as cotações na Bolsa de Paris ficaram praticamente estagnadas na segunda-feira (10), se desvalorizando a partir de quarta (12) após a divulgação do relatório de oferta e demanda do USDA. Como já mencionado, o relatório mostrou uma relação mais confortável entre oferta e demanda, indicando um aumento na produção e uma queda no consumo mundial. Assim, o contrato para março/22 teve um recuo semanal de EUR 11,00/t, encerrando o período cotado a EUR 263,50/t.
Além dos dados do USDA, foi fundamental para a queda nos preços europeus a atualização mensal das perspectivas de oferta e demanda para a safra francesa feita pelo FranceAgriMer, o ministério da agricultura do país. A divulgação reduziu as exportações da França para fora da União Europeia (UE) em 0,2 milhões de toneladas (agora totalizando 9,0 milhões); e cortou as vendas para membros da UE em 0,1 milhões de toneladas (agora totalizando 7,7 milhões). Com essa atualização, o ministério francês agora acredita que o estoque no final do ano safra 2021/22 será de 3,6 milhões de toneladas, o maior dos últimos dezessete anos. Esses números pressionaram os preços futuros do trigo em Paris, pois eles indicam que a demanda pela mercadoria europeia não está tão elevada como se imaginava no início da safra.
Em comunicado oficial após a divulgação, burocratas do FranceAgriMer mencionaram o volume abaixo do esperado das vendas para a Argélia - tradicionalmente o principal parceiro comercial da França e da União Europeia - como o principal fator responsável pelo corte nas expectativas de exportação para fora da UE. Na semana passada, exportadores franceses foram esnobados em um leilão argelino pela terceira vez consecutiva, com o país africano optando por mercadorias da América do Sul e da região do Mar Negro. Essa piora nas relações comerciais entre França e Argélia foi atribuída a um recente aumento nas tensões diplomáticas entre os dois países. A esperança dos franceses é que isso possa ser compensado pelo aumento das vendas para a China, Marrocos e Egito.
Em relação às vendas para outros membros da UE, foi citado como principal responsável pelo corte a queda da demanda de produtores de aves. Segundo os membros do FranceAgriMer, isso aconteceu porque o continente enfrenta um surto de gripe aviária. Essa doença está matando diversos animais e aumentando as incertezas, o que mantém os fazendeiros mais cautelosos.
Em relação às condições da safra de inverno, que no momento está em período de dormência, nenhum grande problema foi relatado. Assim, mantém-se a expectativa de uma boa safra, com o USDA estimando que a União Europeia irá colher 138,9 milhões de toneladas em 2021/22.
Por fim, as exportações, um dos fatores responsáveis pela desvalorização do trigo europeu. Os dados divulgados pela Comissão Europeia mostram que foram embarcadas 15,85 milhões de toneladas de trigo entre os dias 1 de julho de 2021 e 11 de janeiro de 2022, volume superior ao do ciclo passado (14,68 milhões), mas inferior ao do ciclo 2019/20 (16,94 milhões). No momento, os principais exportadores são França (26,8%), Romênia (25,5%), Alemanha (12,0%) e Bulgária (10,5%), enquanto os principais importadores são Argélia (15,9%), Egito (8,8%) e China (8,2%). Em relação às vendas para os argelinos, ano passado esse percentual era de mais de 20%.
Intraday | Preço contínuo – Paris (EUR/tonelada)
Fonte: Euronext. Elaboração: StoneX.
No mercado do Mar Negro, os preços do trigo recuaram na última semana. Nos portos da região, a tonelada com embarque imediato encerrou o período cotada a aproximadamente USD 330,00 na Rússia e USD 320,00 na Ucrânia, quedas semanais de aproximadamente USD 7,00. Esse movimento ocorreu em decorrência da pressão exercida pelos principais concorrentes de russos e ucranianos, com cotações se desvalorizando na bolsa de Paris e nos portos da Romênia e da Bulgária, países que também possuem litoral no Mar Negro.
Em relação às estimativas para a safra 2021/22, atualizadas pelo USDA na última quarta-feira (12), poucas alterações foram registradas para Rússia e Ucrânia. A produção manteve-se inalterada (75,5 milhões e 33 milhões de toneladas, respectivamente) e as exportações mostraram apenas uma queda de 0,5 milhões para a Rússia, agora estimando-se 35,5 milhões de toneladas para os primeiros e 24,2 milhões para os segundos. Vale destacar que esse corte nas vendas russas provavelmente está atrelado à cota imposta pelo governo, que limitará as exportações entre os dias 15 de fevereiro e 30 de junho a 8 milhões de toneladas.
Com a metade do ano safra já ultrapassada, a Rússia exportou 22,7 milhões de toneladas, uma queda anual de 18%, e a Ucrânia exportou 16,2 milhões, um acréscimo de 27%. Seguindo as previsões do USDA, ainda faltam as vendas de 10,8 milhões de toneladas provenientes da Rússia e 8 milhões provenientes da Ucrânia.
Rússia - 12,5% | Preço FOB – contínuo (USD/tonelada)
Fonte: Cash Wheat Report. Elaboração: StoneX.
Na Argentina, a Bolsa de Cereais de Buenos Aires (BCBA) deu por encerrada a safra 2021/22 de trigo, com uma produção recorde de 21,8 milhões de toneladas. Como comentado na semana passada, o bom resultado foi em decorrência das altas taxas de rendimentos reportadas em regiões-chave para a produção nacional – o rendimento nacional médio foi estimado em 3.440,0 mil toneladas/hectare, 0,1 t/ha acima do recorde anterior. Dentre as principais regiões, foram registradas taxas de produtividade acima das 4,0 t/ha em: Centro-Norte (4,40 t/ha), Centro-Sul (4,75 t/ha), Oeste de Buenos Aires (4,49 t/ha), Centro de Buenos Aires (4,40 t/ha), e Sudeste de Buenos Aires (4,30 t/ha).
TRIGO NOS MERCADOS FUTUROS DOS EUA
Fonte: CME. Elaboração: StoneX.