No início da semana, escalada da tensão entre Rússia e Ucrânia provocou forte alta nos mercados futuros de trigo
fatores baixistas
- Ritmo lento dos embarques físicos dos Estados Unidos;
- Queda da comercialização de trigo da Rússia;
- Reflexos da pandemia da Covid-19.
fatores altistas
- Escala da tensão entre Rússia e Ucrânia;
- Intempéries climáticas nos Estados Unidos e Canadá;
- Alta taxa e quota de exportação russa sobre o trigo;
- Queda do excedente exportável global.
ESTADOS uNIDOS
Na segunda-feira (17), os mercados futuros de trigo nos Estados Unidos (EUA) permaneceram fechados em razão do feriado nacional do Dia de Martin Luther King, Jr. Assim, os futuros voltaram a operar, na terça-feira (18), sob uma forte tendência de alta. O contrato mais próximo na Bolsa de Chicago (CBOT, na sigla em inglês), para março/2022, fechou a 769,00 USD cents/bushel, o que resultou em ganhos de US¢ 27,40/bu. Nas demais bolsas, de Kansas City (KCBT, na sigla em inglês) e Minneapolis (MGEX), movimentos semelhantes foram observados, com os contratos mais próximos sofrendo valorizações de US¢ 27,60/bu (fechamento: US¢ 772,60/bu) e US¢ 28,60/bu (US¢ 907,00/bu), respectivamente.
Pode-se afirmar que os ganhos da sessão foram sustentados, sobretudo, pelo noticiário em relação à escalada da tensão entre Rússia e Ucrânia. Além da movimentação militar próxima à fronteira, o Secretário de Estados dos EUA, Tony Blinken, afirmou que há a possibilidade de a Rússia invadir o território ucraniano ainda no mês de janeiro ou fevereiro, o que poderia inclusive levar o envolvimento de outros países, como os próprios EUA e países membros da União Europeia. Vale lembrar que um conflito entre Rússia e Ucrânia pode colocar em xeque o potencial de exportação de trigo de ambos os países, seja pelo redirecionamento da produção para cadeia doméstica, seja pelos danos materiais causados pelo próprio conflito armado. De acordo com o último balanço de oferta e demanda do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês), ambos os países juntos devem corresponder a 29,0% do total de exportações esperadas para o ciclo 2021/22.
Além disso, ainda na terça-feira (18), os dados de inspeção das exportações do USDA reportaram nova alta semanal (57,5%) de embarques físicos de trigo. O Departamento reportou a saída de 369,2 mil toneladas de trigo, o que também aponta um crescimento anual de 30,1%. Contudo, destaca-se que o acumulado do ano comercial corrente ainda se encontra abaixo daquele registrado no mesmo período do ano passado, totalizando 12.802.036 – cerca de 2,78 milhões de toneladas a menos.
Intraday | Preço contínuo – Chicago (USD cents/bushel)
Fonte: CME. Elaboração: StoneX.
O pregão principal de quarta-feira (19) deu continuidade ao forte movimento de alta, com as bolsas de Chicago, Kansas City e Minneapolis registrando ganhos de até US¢ 32,60/bu – fechamento: CBOT, US¢ 796,40/bu; KCBT, US¢ 800,00/bu; e MGEX, 939,60/bu. Mais uma vez, os preços futuros do trigo foram sustentados pela perspectiva de conflito na região do Mar Negro e seus possíveis reflexos na cadeia global do cereal. De acordo com o noticiário, as forças armadas da Bielorrússia iriam se juntar às russas ao longo da fronteira com a Ucrânia para promoverem exercícios militares na região, enquanto o governo da Rússia demandou à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) que suspendesse o envio de armamentos à Ucrânia.
Na quinta-feira (20), os futuros do trigo em Chicago e Kansas City voltaram a recuar, enquanto Minneapolis registrou ganhos menores. Na CBOT, o contrato de março/22 fechou a US¢ 790,20/bu. Sem novas manchetes em relação à tensão no Mar Negro, os agentes voltaram a avaliar que tipo de conflito e reflexos são esperados para o mercado global de trigo. Em sentido contrário, reduzindo a tendência de queda, os modelos climáticos indicavam um padrão de baixa umidade e altas temperaturas ao longo prazo para as regiões produtoras de HRW nos EUA e de CEHRW no Canadá – dois países que já vem sofrendo com essas condições.
Em relação às vendas de exportação dos EUA, referentes à semana encerrada no dia 13 de janeiro, o USDA reportou um total de 380,6 mil toneladas de trigo para 2021/22. Isso não só representa um crescimento semanal de 44%, mas também de 62% no comparativo com a média das últimas quatro semanas. Para o novo ano comercial, de 2022/23, foi registrada a venda de 72,0 mil toneladas, sendo o maior volume semanal até o momento.
Vendas de Exportação Semanais - EUA (mil toneladas)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.
Na sexta-feira (21), os futuros do trigo fecharam a semana em campo negativo nas três bolsas de referência dos EUA. Enquanto Chicago registrou perdas de US¢ 10,20/bu, fechando a US¢ 780,00/bu, Kansas City e Minneapolis registraram perdas de US¢ 3,20/bu e US¢ 8,60/bu, fechando a US¢793,20/bu e US¢936,00/bu, respectivamente. O movimento de queda ganhou força à medida que a perspectiva de um conflito entre países do Mar Negro diminuía, com sinais de retomada dos canais diplomáticos, por exemplo.
Assim como em Chicago, na semana passada os preços futuros do trigo na Bolsa de Paris foram impulsionados pela tensão existente na fronteira entre Rússia e Ucrânia. Tropas russas já foram mobilizadas e o Reino Unido e os EUA passaram a fornecer armamento para os ucranianos. Com a possibilidade de um conflito e reflexos nas cadeias de fornecimento nesses dois países, o contrato para março/22 disparou de EUR 263,50/t para EUR 273,00/t. Portanto, pelo menos momentaneamente, o mercado deixou de lado as questões da safra recorde na Argentina e na Austrália, focando nos aspectos altistas.
Para os próximos dias, o mercado deve se manter atento a novidades na região. Soluções diplomáticas não estão gerando resultados, o que aumenta a possibilidade de que o conflito assume um caráter violento. Nessa semana, o trigo deve mais uma vez ser balizado por essa questão.
Deixando de lado a questão do leste europeu, olhemos para os dados de exportação, que mostraram que, até o dia 18 de janeiro, deixaram a União Europeia um total de 16,1 milhões de toneladas de trigo. O volume segue sendo maior que o da fraca safra 2020/21, porém menor que o da 2019/20. De modo geral, são bons números, mas não tão positivos quanto se imaginava no início do período de vendas, indicando uma demanda morna.
Em relação aos principais destinos das vendas, o top 3 é ocupado por Argélia (15,8%), Egito (8,6%) e China (7,6%). Já sobre as origens, os principais exportadores são França (26,4%), Romênia (25,3%), Alemanha (12,3%) e Bulgária (10,3%). Destaque para o fato de a Argélia mais uma vez ter desprezado as ofertas francesas em seu leilão oficial. A fria relação diplomática entre o principal exportador e principal comprador da União Europeia é um dos principais responsáveis pela queda das vendas.
Por fim, o mercado deve se manter atento à divulgação do relatório MARS, que ocorrerá na terça-feira, dia 25 de janeiro. Ela trará as condições da safra europeia, devendo ter bastante influência no sentido dos preços. Em sua última divulgação, quase todas as regiões do continente enfrentavam boas condições, com algumas pequenas preocupações relacionadas ao mal desenvolvimento de algumas plantas.
Intraday | Preço contínuo – Paris (EUR/tonelada)
Fonte: Euronext. Elaboração: StoneX.
Como relatado inúmeras vezes neste relatório, as tensões na fronteira entre Rússia e Ucrânia produziram uma significativa valorização nas cotações do trigo, já que um conflito entre as duas nações poderia limitar a disponibilidade dessa commodity no mercado internacional.
A disputa entre os dois países está relacionada com a política internacional e de defesa russa. Na época da Guerra Fria, a União Soviética estrategicamente controlava grande parte do leste europeu, o que significava uma considerável área de influência e uma “muralha” entre ela e seus adversários ocidentais. No presente, a Rússia perdeu grande parte do prestígio que a União Soviética detinha, o que significa uma menor área de influência e a manutenção de alianças entre países do Ocidente e Oriente, já que com a desintegração do bloco socialista muitos de seus antigos aliados, como Romênia e Bulgária, entraram na OTAN, aliança militar liderada pelos Estados Unidos. Na visão do governo russo, a situação do país se agravou em 2014, quando uma antiga república soviética, a Ucrânia, passou a ser controlada por um governo pró-União Europeia e favorável à OTAN.
Frente a isso, percebe-se que a ameaça de invasão à Ucrânia se relaciona a uma tentativa da Rússia de retomar o poder geopolítico que antes detinha. Em outras palavras, o governo de Vladimir Putin busca deter o avanço da OTAN, garantindo para a Rússia a influência sobre as antigas repúblicas soviéticas e os antigos países socialistas do leste europeu, além de reforçar a divisão que existe entre ela e seus inimigos.
Apesar de toda a turbulência nos preços internacionais, o fato é que a tensão na fronteira ainda não chegou a afetar significativamente a dinâmica do mercado de trigo do Mar Negro. Os preços FOB nos portos da Rússia e da Ucrânia se mantiveram inalterados, em torno dos USD 330,00/t e USD 320,00/t, respectivamente. O ritmo das exportações, por sua vez, também parece não ter sido muito afetado. Desde o início do ano safra (1° de julho) até o dia 13 de janeiro, deixaram a Rússia 22,7 milhões de toneladas, volume 18% menor que o registrado no ano passado. Os maiores compradores são a Turquia (4,6 milhões de toneladas), o Egito (3,5 milhões) e o Cazaquistão (1,7 milhão). Já na Ucrânia, até o dia 17 foram exportadas 16,3 milhões, quantidade 28% maior na comparação anual.
Rússia - 12,5% | Preço FOB – contínuo (USD/tonelada)
Fonte: Cash Wheat Report. Elaboração: StoneX.
TRIGO NOS MERCADOS FUTUROS DOS EUA
Fonte: CME. Elaboração: StoneX.