Tensão entre Rússia e Ucrânia volta a chamar a atenção dos agentes e mercados futuros de trigo registram fortes ganhos
fatores baixistas
- Ritmo lento dos embarques físicos dos Estados Unidos;
- Queda da comercialização de trigo da Rússia;
- Reflexos da pandemia da Covid-19.
fatores altistas
- Tensão entre Rússia e Ucrânia;
- Condições de safra nos Estados Unidos;
- Taxa e quota de exportação russa sobre o trigo;
- Nível do excedente exportável global.
ESTADOS uNIDOS
Na segunda-feira (7), os futuros do trigo abriram a semana em alta, nos Estados Unidos (EUA), sustentados pelo movimento de alta registrado no mercado de milho – vale lembrar que o mercado de trigo apresenta correlação ao de milho, uma vez que pode ser um substituto na ração animal quando os preços desse último se encontram elevados. Nos EUA, as Bolsas de Chicago (CBOT, na sigla em inglês), Kansas City (KCBT) e Minneapolis (MGEX) registraram altas no contrato de março/22 de 5,40 USD cents/bushel, US¢ 6,00/bu, e Us¢ 8,20/bu, respectivamente – fechamento: CBOT, US¢ 768,60/bu; KCBT, US¢ 791,60/bu; e CBOT, US¢ 921,20/bu.
Além disso, na semana encerrada no dia 03 de fevereiro, as inspeções de exportação do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês) registraram um total de 417,75 mil toneladas embarcadas de trigo, o que representa uma queda anual de 14,0%. Como vem sendo anunciado semana após semana, o acumulado do ano comercial corrente segue abaixo do registrado no mesmo período do ano passado. Na última atualização do USDA, o déficit chegou a 3,03 milhões de toneladas.
Intraday | Preço contínuo – Chicago (USD cents/bushel)
Fonte: CME. Elaboração: StoneX.
Na terça-feira (8), os futuros do trigo seguiram em forte tendência de alta, com ganhos de dois dígitos sobre o contrato de março/22 na CBOT (Us¢ 10,00/bu) e na MGEX (Us¢ 19,20/bu), enquanto a KCBT registrou alta de Us¢ 9,40/bu. Na CBOT, o contrato de março/22 encerrou a sessão principal sendo cotado a US¢ 778,60/bu. O movimento de alta foi sustentado tanto pelo mercado de milho, quanto pela atualização da StatsCan dos estoques canadenses de trigo, que estão abaixo do antecipado pelo mercado (17,3 milhões de toneladas). De acordo com a atualização da agência de estatísticas, os estoques de trigo (todas as classes) totalizam 15,56 milhões de toneladas, cerca de 9,53 milhões abaixo do mesmo período do ano passado. Desse total, estima-se que 13,5% sejam de trigo durum e o restante (86,5) das demais classes.
Na quarta-feira (9), os mercados futuros de trigo nos EUA seguiram operando em campo positivo, com destaques aos ganhos na KCBT (US¢ 13,60/bu) e na MGEX (US¢ 13,20/bu). Em Chicago, o contrato de março/22 encerrou a sessão principal cotado a US¢ 785,00/bu. Como já era esperado, os futuros foram influenciados sobretudo pela atualização de fevereiro/22 do Balanço de Oferta e Demanda (WASDE, na sigla em inglês). A nível global, o USDA elevou os estoques de iniciais em 1,05 milhão de toneladas, totalizando 289,87 milhões, e reduziu a produção para 776,42 milhões (- 2,18 mi). Pelo lado da demanda, a perspectiva para o consumo total agora é de 160,69 (+ 610 mil), com o consumo animal representando 20,4% desse total. Com isso, os estoques finais são estimados em 278,21 milhões de toneladas de trigo, um recuo de 1,74 milhão. Para saber mais sobre as principais revisões do WASDE, acesse
aqui a matéria especial dessa semana.
Na sessão seguinte, de quinta-feira (10), sem grandes manchetes altistas no noticiário internacional e sem o apoio do mercado de milho, os mercados futuros de trigo não conseguiram manter a tendência de alta, apagando parte dos ganhos das últimas sessões. O contrato de março/22 fechou a US¢ 771,40/bu (- US¢ 13,40/bu), na CBOT; a US¢ 801,00/bu (- US¢ 14,00/bu), na KCBT; e a US¢ 942,20/bu (- US¢ 11,40/bu), na MGEX.
Outro fator que contribuiu para a tendência de queda foi o resultado mais uma vez abaixo das expectativas para a vendas semanais de trigo dos EUA (ano comercial atual, 2021/22). De acordo com o USDA, 84,77 mil toneladas foram vendidas, na semana encerrada no dia 03 de fevereiro, contra estimativas de 100 a 400 mil toneladas. Apesar de o comparativo semanal apresentar crescimento de 47,5%, o anual indica uma queda de 86,8%. Para 2022/23, o resultado semanal ficou dentro da banda de estimativa (de 25 a 300 mil), com o USDA marcando a venda de 48,4 mil toneladas de trigo.
Vendas de Exportação Semanais - EUA (mil toneladas)
Fonte: USDA. Elaboração: StoneX.
Na sexta-feira (4), o noticiário sobre a situação entre Rússia e Ucrânia voltou a movimentar os mercados. Apesar de parecer que o mercado já havia digerido o tema, novas declarações por parte do governo dos EUA e pedidos dos governos estadunidense e britânico para que seus nacionais deixem a Ucrânia instigaram forte movimento de alta nos mercados futuros de trigo. Nos EUA, a CBOT liderou os ganhos (US¢ 26,20/bu), seguida pela KCBT (US¢ 23,20/bu) e pela MGEX (US¢ 19,20/bu). No fechamento da sessão principal, nessas três bolsas, o contrato de março/22 fechou a US¢ 797,60/bu, US¢ 824,20/bu e US¢ 961,40/bu, respectivamente.
Na semana passada, os futuros do trigo na bolsa de Paris não variaram de acordo com Chicago, movimento não usual: enquanto no mercado norte-americano a commodity apresentou forte e constante valorização, no europeu a semana foi de perdas sensíveis, recuperadas apenas na sexta-feira (11) após um importante movimento altista. Assim, o contrato para março/22 encerrou o período cotado a EUR 268,75/t, uma alteração pouco significativa quando comparado com o encerramento da semana anterior (EUR 265,50/t).
Essa mudança em relação à Chicago decorreu do fato de não ter existido no mercado europeu um incentivo dado pelos grãos concorrentes. Ou seja, ao contrário do que ocorreu nos Estados Unidos, o milho negociado na Euronext não se valorizou no início da última semana, não existindo, assim, incentivos para o trigo. Na sexta-feira (11), quando o assunto voltou a ser as tensões russo-ucranianas, as duas bolsas voltaram a atuar em uníssono.
Para além das questões de preços, importantes atualizações de exportação e produção foram feitas na última semana. Começando pela primeira, os dados da Comissão Europeia mostraram que até o dia 8 de fevereiro deixaram a União Europeia um total de 16,9 milhões de toneladas de trigo soft, valor 4,3% maior que o registrado no ciclo passado para o mesmo período. Quando comparado com 2019/20, entretanto, o volume é 11,5% menor, indicando que as exportações não são tão significativas quanto se imaginava em meados de 2021. Isso levou a consultoria Stratégie Grains, uma das mais importantes do continente, a cortar sua estimativa de vendas: de 31,2 milhões de toneladas para 30,4 milhões.
Olhando para a safra de inverno em dormência, o FranceAgriMer, ministério da Agricultura da França, atualizou seus dados referentes à área de plantio do país. Agora, ele espera que 4,75 milhões de hectares sejam plantados com trigo soft de inverno, frente a expectativa anterior de 4,92. Essa nova área é 1% menor que a média dos últimos cinco anos.
Apesar de importante, essa divulgação não mexeu muito com os preços e com as expectativas para a produção do continente. Por exemplo, em seu último relatório de oferta e demanda (WASDE), o USDA manteve a produção e as exportações da União Europeia inalteradas: 138,9 e 37,5 milhões de toneladas, respectivamente.
Intraday | Preço contínuo – Paris (EUR/tonelada)
Fonte: Euronext. Elaboração: StoneX.
A possibilidade de uma solução diplomática para o conflito entre Rússia e Ucrãnia está se tornando cada vez menor. Nesta última semana, Moscou continuou enviando homens e armamentos para a fronteira e aumentou o tom nas conversas com o Ocidente. Apesar de negar que planeja uma invasão, o presidente russo Vladimir Putin segue insistindo em garantias de que a Ucrânia e outros países que ele considera zonas de influência russas não integrem a Otan, condições que os Estados Unidos e o restante de seus aliados não estão dispostos a aceitar.
Frente a isso, uma guerra entre dois dos principais exportadores de trigo do mundo está se tornando uma possibilidade cada vez mais real. Caso isso aconteça, a disponibilidade de trigo será prejudicada não só pela destruição de cadeias logísticas desses países. Também será resultado das sanções econômicas que diversas nações estão prometendo aplicar sobre a Rússia.
Na sexta-feira (11), a notícia de que vários países mandaram seus cidadãos abandonarem a Ucrânia frente a iminente invasão gerou um salto nos preços em Chicago e em Paris. Na própria região do mar Negro, entretanto, os preços nos portos não foram afetados. Os dados mostram que na verdade nos últimos dias os preços caíram na região, indo na direção contrária ao resto do mundo. Na Rússia, por exemplo, eles recuaram de USD 325,00/t para USD 318,00/t.
Voltando as atenções para o relatório de oferta e demanda do USDA, o famoso WASDE, ele não trouxe novidades para a Rússia, com a produção e as exportações se mantendo em 75,5 e 35,0 milhões de toneladas. Para a consultoria IKAR, esses valores estão muito baixos, já que ela estima que o país produzirá 82,5 milhões de toneladas, vendendo 46,0 milhões posteriormente.
Já em relação à Ucrânia, o USDA manteve a estimativa de produção (33,0 milhões) e diminuiu levemente as exportações (de 24,2 para 24,0 milhõses). Pelos dados oficiais, desde 1º de julho, até 9 de fevereiro deixaram o país ucraniano 17,2 milhões de toneladas, ou 71% da previsão do governo dos Estados Unidos.
Rússia - 12,5% | Preço FOB – contínuo (USD/tonelada)
Fonte: Cash Wheat Report. Elaboração: StoneX.
TRIGO NOS MERCADOS FUTUROS DOS EUA
Fonte: CME. Elaboração: StoneX.