Nos quatro primeiros dias da semana passada, os futuros do trigo negociados na bolsa de Paris atuaram em estabilidade, com o contrato com vencimento em maio/22 mantendo-se muito próximo dos EUR 364,00/t. Apenas na sexta-feira (8) que o complexo apresentou maior volatilidade, com os ganhos de 2,5% levando esse mesmo ativo para os EUR 372,75/t. Esse salto foi resultado da divulgação do relatório de oferta e demanda do USDA, que mostrou estoques globais menores do que o esperado e diminuição do volume de exportação proveniente da Ucrânia.
Em um contexto mais amplo, os preços do trigo no mercado europeu estão menos voláteis e sem uma clara tendência de alta desde o dia 11 de março, mantendo-se entre EUR 360/t e EUR 380/t. De modo geral, o mercado entendeu que a perspectiva de diminuição da oferta global de trigo foi precificada e ajustada depois das duas primeiras semanas de guerra na Ucrânia, o que fez com que os grandes saltos e correções típicos do início de março deixassem de existir. Tomando como referência o preço contínuo atual na MATIF e comparando-o com a cotação registrada no dia 16 de fevereiro, dia imediatamente anterior ao início do rally do trigo, o grão tem uma valorização de 41,7%.
Além da questão dos preços, algumas atualizações importantes foram divulgadas nos últimos sete dias. Ainda sobre o relatório WASDE do USDA, ele reduziu em 0,58 milhão de toneladas as estimativas de produção e em 3 milhões de toneladas as expectativas de exportação da União Europeia.
Essas importantes diminuições, em especial nos números de vendas no mercado internacional, refletem o novo cenário que se estabeleceu com o início da guerra na Ucrânia. Frente às incertezas, diversos países membros do bloco econômico colocaram barreiras para as exportações de trigo, visando garantir a oferta doméstica. Com isso, as vendas da União Europeia recuaram para volumes ínfimos nas últimas semanas. Por exemplo, na última divulgação, referente à 40ª semana do ano safra, as exportações de trigo soft do bloco econômico totalizaram apenas 174,3 mil toneladas.
Na semana equivalente dos ciclos 2019/20 e 2020/21, as comercializações foram de 707,3 mil e 458,4 mil toneladas, respectivamente.
Outra atualização importante da última semana diz respeito à qualidade da safra francesa de inverno. Pelas estimativas do FranceAgriMer, 92% do trigo estava em boas ou ótimas condições no dia 4 de abril, valor bastante elevado. Dado que cerca de 25% das exportações da União Europeia provêm da França, esse número serve como um bom parâmetro para a safra do bloco como um todo, indicando forte produção
Por fim, mexeu com as perspectivas de longo prazo do trigo europeu a primeira estimativa da Comissão Europeia para a safra 2022/23. A produção de trigo soft ficou em 131,3 milhões de toneladas, volume maior que as 130,0 milhões estimadas para 2021/22. O dado que mais chamou a atenção, entretanto, foi o referente às exportações. Argumentando que a guerra na Ucrânia afetará significativamente a capacidade de exportação desse país, a Comissão estimou as vendas da UE no mercado internacional em 40 milhões de toneladas, volume 7 milhões de toneladas maior que o estimado para 2021/22.