Na semana passada, a invasão russa à Ucrânia entrou em uma nova fase. Se em um primeiro momento a ofensiva russa se concentrou em Kiev, oficiais de ambos países afirmaram que a partir do dia 19 de abril as atenções se voltaram para a região leste da Ucrânia. Mais tarde na semana, o Ministério da Defesa da Rússia anunciou os objetivos do país nessa segunda fase da invasão, sendo eles o controle de todo o leste e sul ucraniano. Com isso, se almeja criar um corredor que conectará a Crimeia e a região separatista da Moldávia de Trans-Dniester ao próprio território russo. Frente a esse escalonamento e à continuidade das agressões, as tratativas de paz se encontram totalmente paralisadas, tornando mais distante a possibilidade do fim do conflito.
Tal conjuntura mantém o mercado de trigo do mar Negro sob constante tensão. Em sua última divulgação, referente ao dia 20 de abril, o índice de preços FOB organizado pela bolsa de Moscou mostrou que o embarque de uma tonelada de trigo nos portos russos do mar Negro está custando USD 370,20, uma valorização de 7,9% desde o final de março.
Entretanto, mesmo com esses ganhos, o trigo russo ainda é um dos mais atraentes no mercado internacional. Nos principais portos europeus, por exemplo, com destaque para os franceses, alemães e bálticos, o preço FOB da tonelada do trigo beira os USD 450,00, valor mais de 20% maior que o ofertado pelos produtores russos.
Com isso, as exportações do país eslavo seguem em ritmo bastante elevado, mesmo com as sanções ocidentais. Não é possível ter acesso aos dados oficiais do governo, já que eles pararam de ser publicados a fim de, segundo os russos, evitar especulações. Entretanto, a consultoria Sovecon divulgou que nas últimas três semanas foram exportadas 400 mil, 630 mil e 590 mil toneladas de trigo, volumes bastante significativos. Uma outra fonte, a Argus Media, relatou que os line-ups nos portos da Rússia mostram o embarque de 3,15 milhões de toneladas em um total de 35 navios somente em abril, volume 23% maior que a média dos últimos cinco anos para esse mês. Os principais compradores, segundo essa fonte, seriam Turquia e Irã, com compras de 901 mil e 588 mil toneladas, respectivamente. A Sovecon estima as exportações russas em 2021/22 em 33,9 milhões de toneladas.
Para a safra 2022/23, os prognósticos russos são bastante positivos. As lavouras de inverno se encontram em excelentes condições, se beneficiando de um clima ameno e úmido. E a produção de primavera, ainda nos estágios iniciais de plantio, também não enfrenta problemas, com a Sovecon estimando que 1,8 milhões de hectares foram plantados até o dia 19 de abril. Assim, as principais consultorias agrícolas russas, Sovecon e IKAR, anunciaram aumentos em suas estimativas para o próximo ciclo, com as estimativas de produção ficando em 83,5 e 87,4 milhões de toneladas, respectivamente. Algumas fontes chegam a dizer que a Rússia produzirá 90 milhões de toneladas, volume bastante superior às 76 milhões de 2021/22 e que se constituiria como recorde.
Frente a esse grande volume de produção, a Sovecon estima exportações significativas de 41,0 milhões de toneladas para o próximo ciclo. Além das boas condições das lavouras, contribuem para esse prognóstico otimista os estoques elevados (cerca de 13 milhões de toneladas), as perspectivas pessimistas para a colheita de países concorrentes (com destaque para a seca que aflige os campos indianos e norte-americanos) e os preços competitivos praticados pelos exportadores do país.
Na Ucrânia, há pouco para ser relatado. As exportações por via marítima seguem bastante prejudicadas pela guerra, enquanto as por meio terrestre são ineficientes e pouco exploradas. Acredita-se que a safra de inverno esteja em boas condições, mas não se sabe se existirão condições para que ocorra uma condução normal do processo de colheita. Sobre a produção de trigo de primavera, ela é irrelevante nos campos ucranianos.