Na semana que se estendeu do dia 2 ao 5 de maio, os futuros do trigo negociados na bolsa de Paris atuaram em alta. Em boa medida, tal movimento foi impulsionado pela conjuntura internacional, com os problemas nas lavouras indianas e norte-americanas e a guerra na região do mar Negro trazendo a perspectiva de uma oferta global mais apertada em 2022/23. Entretanto, o principal fator responsável pelos ganhos foi interno ao continente europeu. Na quinta-feira (4), ganhou grande repercussão uma declaração de que a seca que afeta partes da França produzirá danos irreversíveis para as lavouras, o que acabou impulsionando os futuros do trigo na MATIF. O contrato com vencimento em maio/22 ficou cotado a EUR 406,25/t.
Tal fala, feita por membros da Arvalis (uma organização voltada para pesquisa agronômica aplicada) à Reuters, causou tantos impactos, pois até o momento não haviam indícios de que a safra de inverno francesa estava enfrentando problemas, com todas as análises apontando para um bom desenvolvimento dos grãos. A inesperada estimativa de danos se baseou na previsão de que nenhuma chuva cairá no país nos próximos dez dias e no fato de que em 2022 a França recebeu um volume de chuvas 30% inferior à média dos últimos vinte anos.
Para corroborar as declarações dos agrônomos da Arvalis, na sexta-feira o FranceAgriMer, ministério da agricultura da França, anunciou que a qualidade da safra do país diminuiu 2%. Agora, 89% dos campos estão com qualidade boa/excelente, frente a 91% na divulgação anterior. O volume ainda é bastante elevado. Ano passado, por exemplo, apenas 79% das lavouras estavam em condições boas/excelentes nesse momento da safra. Entretanto, a redução mostra que a seca já estava afetando o trigo mesmo antes do período de dez dias sem nenhuma chuva. Portanto, foi aceso o farol de alerta quanto à safra da União Europeia. Lembrando que no final de abril a Comissão Europeia estimou a produção de trigo soft no bloco econômico em 2022/23 em 130,1 milhões de toneladas.
Além das questões acerca da qualidade da safra, vale olhar para as exportações da União Europeia. Com a redução significativa das vendas ucranianas e com a desvalorização do euro frente ao dólar, esperava-se um grande crescimento da participação do trigo do bloco no mercado internacional. Entretanto, não é isso que se tem observado. Nas últimas semanas, as exportações não têm ultrapassado as 300 mil toneladas, quando no mesmo período em 2021 elas ficavam em torno das 500 mil toneladas e em 2020 se aproximavam das 750 mil. Assim, após começarem o ano-safra de maneira bastante acelerada, as exportações da União Europeia em 2021/22 deverão encerrar o período com volumes menores que os registrados nas safras anteriores.
Até o momento, transcorridas 44 das 53 semanas, deixaram o bloco econômico um total de 21,95 milhões de toneladas de trigo soft. Para o mesmo período de tempo, esse volume era de 22,96 milhões em 2020/21 e de 29,99 milhões em 2019/20. Faltando apenas nove semanas, dificilmente as exportações alcançarão as 32 milhões de toneladas atualmente estimadas pela Comissão Europeia.