No dia 25 de maio, um funcionário do alto escalão do ministério das Relações Exteriores da Rússia, Andrei Rudenko, afirmou que seu país estaria disposto a aceitar a proposta da Organização das Nações Unidas (ONU) da criação de um corredor para as exportações ucranianas, passando a permitir o escoamento de grãos através do mar Negro. Em troca, entretanto, as nações ocidentais teriam que levantar pelo menos parte das sanções impostas à Rússia e a marinha ucraniana teria que retirar as minas que ela colocou em torno do porto de Odessa. Frente ao complicado cenário que emergiu no extremo leste europeu a partir do início da guerra, é necessário voltar alguns passos para entender como e por que se desenhou essa situação.
Desde o dia 24 de fevereiro, primeiro dia da invasão russa, os ucranianos se viram impossibilitados de usar seus portos no mar de Azov e no mar Negro, já que eles passaram a estar bloqueados pela marinha russa. Tal medida afetou diretamente o mercado mundial de grãos, pois 98% das cerca de 6 milhões de toneladas que deixavam o país mensalmente eram exportadas por via marítima. Assim, de uma hora para outra, uma série de países, em especial no Oriente Médio e no Norte da África, se viram sem acesso ao seu principal fornecedor de alimentos.
Com o passar do tempo, os ucranianos começaram a abrir rotas alternativas. Parte dos grãos começou a ser exportada via rodovias. Outra, mais significativa, passou a deixar o país via trens. E uma terceira modalidade foi o uso de pequenos portos existentes nos rios. Todas essas alternativas, entretanto, são limitadas por importantes problemas. Para as rotas rodoviárias, simplesmente não existe infraestrutura para exportar quantidades significativas. O uso de trens é limitado porque o tamanho dos trilhos ucranianos é diferente dos de seus vizinhos. Assim, quando o grão chega na fronteira, ele tem que ser descarregado e colocado nos vagões de um outro trem, tornando o processo lento e custoso. E o uso dos portos em rios envolve levar o grão até o rio Danúbio, na Romênia, de onde posteriormente ele tem que ser colocado em barcaças para então chegar ao porto marítimo de Costanza, também um processo caro e demorado. Assim, apesar das exportações terem crescido de 300 mil toneladas de grãos em março, para 1,0 milhão em abril e, possivelmente, 1,5 milhão em maio, o volume segue significativamente abaixo das 6,0 milhões registradas antes da guerra.
Frente a essa diminuição na oferta, a Organização das Nações Unidas (ONU) passou a observar um crescimento da fome, principalmente nos países pobres do Norte da África, onde a população não consegue arcar com o encarecimento da pouca mercadoria disponível. Assim, se tornou uma prioridade para a ONU a resolução da questão ucraniana. Ainda mais porque o período de colheita das lavouras de trigo (julho) e milho (agosto) do país eslavo está se aproximando, sendo necessário vender a safra antiga para abrir espaço nos silos para a nova. No momento, a consultoria APK-Inform estima que 20 milhões de toneladas de grãos estão prontas para exportação, com outras 40 milhões podendo estar a partir da colheita da nova safra.
A solução proposta pela ONU foi o estabelecimento de corredores de exportação através do mar Negro. Nesse possível acordo, a Rússia passaria a permitir o escoamento dos grãos da Ucrânia e, em troca, os países ocidentais retirariam as sanções atualmente impostas às exportações russas de fertilizantes - o que também ajudaria na crise mundial de alimentação. O problema é que para a Rússia tal proposta é muito pouco atraente. Em primeiro lugar, porque o país compete diretamente com a Ucrânia no mercado de grãos. Nesse sentido, a ausência de seu principal oponente em um cenário de preços mais elevados é bastante benéfico. E em segundo, porque os russos estão conseguindo exportar fertilizantes mesmo com as sanções ocidentais, embora em quantidades menos significativas.
Assim, as declarações do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, no dia 25 de maio, acontecem no sentido do país usar a crise mundial de alimentos como poder de barganha para melhorar sua situação. Ou seja, foi visando um acordo mais favorável que o proposto pela ONU que os russos pediram o fim de uma série de sanções - e não só as que incidem sobre a exportação de fertilizantes - e a remoção das minas na região do porto de Odessa.
Tal declaração teve impacto nas bolsas de Chicago e Paris, mas não tão significativo quanto se poderia esperar. Isso porque o mercado entende que a chance de acontecer a implementação do corredor de exportações é bastante baixa, pelo menos no curto prazo. Por um lado, porque é pouco provável que as nações do Ocidente aceitem a coerção russa e retirem suas sanções. Inclusive, muitas lideranças já deram declarações negando tal possibilidade. Por outro, porque a retirada das minas que atualmente defendem o porto de Odessa não é uma opção para os ucranianos. Sem elas, uma invasão híbrida russa se torna bastante provável. Assim, embora autoridades turcas tenham alegado que estão em conversas com russos e ucranianos, não parece que as negociações levarão a lugar algum.
Em território russo, as condições para a safra 2022/23 seguem bastante promissoras. Com condições climáticas favoráveis, o trigo de inverno se encontra em ótima condições e o plantio do trigo de primavera caminha de acordo com o planejado. Na última atualização governamental, 80% dos 10,4 milhões de hectares planejados já estavam plantados. Segundo estimativa da Reuters, os agricultores russos produzirão 86,9 milhões de toneladas, bastante acima das 76 milhões registradas em 2021/22.
Por fim, sobre as exportações de trigo, elas seguem em ritmo expressivo, apesar das sanções. Em maio, elas caminham para totalizar 1,2 milhões de toneladas. Para junho, a estimativa é de 1,0 milhão.