Desde o início do conflito na Ucrânia, o trigo russo estava entre os mais baratos do mundo. Assim, apesar das sanções impostas pelos países ocidentais, o país conseguia exportar quantidades significativas. Nesta última semana, entretanto, a Rússia perdeu sua vantagem. Isso porque a desvalorização generalizada do trigo nas bolsas de Chicago e Paris, discutida nas seções acima, não foi acompanhada por desvalorização nos portos russos. Pelo contrário, o grão se tornou mais caro. Agora, o preço porto do trigo 12,5% da Rússia é de USD 445,00/t, valor superior aos USD 441,20/t do 12% norte-americano e aos USD 403,50/t do 11,5% francês. Um mês atrás, esses valores eram de USD 410,00/t, USD 515,40/t e USD 453,00/t respectivamente.
Dois fatores são responsáveis pelo encarecimento do trigo russo. Em primeiro lugar, a valorização da taxa de câmbio, movimento que vem acontecendo desde que Moscou impôs aos países europeus o pagamento em rublo pelo gás natural. E em segundo, a taxa sobre as importações, no momento de USD 142,00/t.
Para dificultar ainda mais as exportações neste final de safra 2021/22, o país está muito próximo do limite da quota de 8,0 milhões de toneladas, imposta pelo governo para durar entre os dias 15 de fevereiro e 30 de junho. Assim, com preços elevados e baixa disponibilidade, as exportações em junho devem totalizar algo em torno de 1,2 milhões de toneladas, volume inferior às cerca de 2,0 milhões registradas nos meses anteriores.
Para a próxima safra, as perspectivas de exportação são incertas. Por um lado, o país deixará de estar limitado pela quota e, mais importante que isso, caminha para produzir uma das maiores safras da sua história. As consultorias IKAR e Sovecon estimam 87,0 e 89,2 milhões de toneladas, respectivamente, volume significativamente superior aos 76,0 milhões produzidos em 2021/22. Pelo outro, além da questão dos preços, existe o sério problema relacionado com a disponibilidade de empresas dispostas a aceitar os riscos e os custos de mandar seus navios para o mar Negro.
No momento, a IKAR e a Sovecon estimam as exportações em 41,0 e 42,3 milhões de toneladas, respectivamente, volume significativamente superior aos 33,0 milhões que devem ser exportados até o final de 2021/22. Entretanto, dado o contexto de guerra e sanções, os exportadores russos podem encontrar problemas na hora de encontrar compradores.
Na Ucrânia, os agentes do mercado de trigo seguem focados na questão da capacidade de armazenamento. Antes da guerra, o país conseguia armazenar 57,0 milhões de toneladas de grãos e oleaginosas. Agora, a estimativa é que esse valor tenha sido reduzido para 44,0 milhões. Possuindo 22,0 milhões de toneladas já em estoque, com a perspectiva de colher outras 65 e com baixa capacidade de exportação, as perspectivas são de um déficit na casa das 12,0 milhões de toneladas
Visando aliviar essa situação, os Estados Unidos anunciaram o financiamento da construção de silos na Polônia. Apesar de trazer melhores perspectivas, a medida não resolve o problema. Em primeiro lugar, porque a conclusão das obras deve acontecer apenas depois do período da colheita de trigo. E em segundo, porque isso não aponta caminhos para o escoamento dos grãos para os portos da Romênia. Este país também começará a colher sua produção e já anunciou que está atuando com capacidade logística pressionada.