Após meses de negociação, Rússia e Ucrânia chegaram a um acordo para o estabelecimento de um corredor de exportação de grãos no mar Negro. As assinaturas foram feitas na última sexta-feira (22) e trouxeram a perspectiva de aumento significativo na disponibilidade global de trigo, produzindo desvalorizações importantes nos contratos negociados em Chicago e em Paris.
Com o acordo, os russos concordaram em permitir que navios transportando grãos possam entrar e sair dos portos ucranianos de Odessa, Chornomorsk e Yuzhny. Para evitar as minas, pilotos ucranianos serão designados para guiar os navios mercantis. Ademais, ambas partes concordaram em não atacar embarcações contendo produtos alimentares, dando garantias de segurança para aqueles que se aventurarem pelo mar Negro. Por fim, vale dizer que um centro de controle gerenciado conjuntamente por ucranianos, russos, turcos e membros da ONU foi estabelecido em Istambul. Sua principal função será a de vistoriar os navios, garantindo que eles não estarão carregando armas para os ucranianos.
No momento, se estima que exista algo entre 8,0 e 12,0 milhões de toneladas de grãos presas nos portos ucranianos. Segundo oficiais da ONU, esse enorme volume deve começar a ser negociado nas próximas semanas.
Entretanto, ainda existem desafios antes de volumes significativos realmente começarem a deixar a Ucrânia. Em primeiro lugar, é necessário observar se a Rússia realmente cumprirá os compromissos assumidos no acordo. No sábado, menos de 24 horas depois das assinaturas, um míssil atingiu o porto de Odessa. Além disso, é preciso ver se existirão companhias dispostas a mandar seus navios para a região. Frente aos riscos significativos, apenas lucros elevados devem levar compradores para a Ucrânia. Com os altos custos com seguro, esse cenário não parece tão provável.
Com corredor de exportação ou não, o fato é que no curto prazo a Ucrânia continuará dependente de meios alternativos para as suas exportações. Nas primeiras duas semanas do ano agrícola 2022/23, deixaram o país um total de 131 mil toneladas de trigo. Este volume é 47% menor que o registrado no ciclo passado no mesmo período. No momento, a maior parte está sendo exportada através dos pequenos portos localizados nos rios ucranianos. Complementando essas vendas, há trigo sendo exportado por transporte ferroviário e rodoviário.
Na Rússia, o governo não publica os dados de exportação desde o início da guerra. Na ausência de dados oficiais, o mercado está tendo que se virar com estimativas de instituições privadas. Para julho, a perspectiva é de exportações de 2,0 milhões de toneladas de trigo. Para agosto, os embarques podem chegar a 4,0 milhões. Esses volumes são significativos, mas eles têm que se manter neste nível durante todo o ano agrícola para alcançar as mais de 40,0 milhões de toneladas estimadas pelas principais consultorias russas.
Sobre a colheita, o Ministério da Agricultura da Ucrânia divulgou que já foram colhidos 3,8 milhões de toneladas em 1,2 milhões de hectares. Estes valores correspondem a 25% da área de plantio. Na Rússia, 23,7 milhões de toneladas já estão fora do solo. Esse volume corresponde a cerca de 5,5 milhões de hectares, ainda menos de um terço da área de plantio.