- Excedente de oferta russa e preços FOB vantajosos em relação ao oferta dos EUA;
- Ucrânia encontra alternativas para garantir suas exportações.
- Aumento da produção russa pelo USDA.
- Redução na estimativa de produção de trigo argentino e brasileiro;
- Preocupações com o clima em outros produtores, como a Índia;
- Preços mais baixos podem atrair compradores.
As cotações do trigo em Chicago terminaram a semana anterior no lado positivo. O vencimento para dezembro em Chicago encerrou a sexta-feira (dia 10) em 575,5 cents por bushel, ganhos de 0,5% no período.
Um acontecimento importante de semana foram as atualizações do relatório WASDE fornecido pelo USDA, que manteve uma tendência entre neutra a ligeiramente baixista no caso do trigo. A produção global foi reduzida por perdas na Índia, Argentina, Reino Unido, Brasil e Cazaquistão.
Pelo lado da oferta, se espera uma redução de 1,5 milhões de toneladas (com um total de 1.051,5 milhões de toneladas). Em sentido contrário, a Rússia aumentou a sua produção em 5 milhões de toneladas, totalizando 90 milhões de toneladas.
Em relação à demanda, estima-se uma exportação global ligeiramente inferior, com queda de 1,3 milhão de toneladas (totalizando 205 milhões de toneladas). Esta diminuição se dá como consequência principalmente nas possíveis reduções nas exportações da Argentina, do Egito e da Índia.
Fatores climáticos diversos afetaram as estimativas de produção. Sobre as causas nas perdas argentinas, o USDA indica que o trigo é produzido principalmente em três províncias: Buenos Aires (42% da produção), Córdoba (20%) e Santa Fé (18%). E foi justamente nestas regiões onde a precipitação tem estado abaixo da média. Por sua vez, na Índia, o calor extremo regressou à zona norte do cinturão do trigo, no entanto, os danos causados pelo calor foram menores que no ano passado.
No Cazaquistão, o clima úmido ameaça ainda mais a colheita, onde fortes chuvas no mês de outubro trouxeram umidade adicional e prematura a grandes partes da faixa de cereais, atrasando a colheita. Desta forma, espera-se não somente queda na produção, mas também diminuição na qualidade dos grãos.
No que tange ao Brasil, o recorde de precipitações no sul do país reduziu também a qualidade dos grãos e o potencial de produtividade. Com alta umidade e as temperaturas altas, aumentaram os números de doenças nos grãos, nos maiores produtores do cereal no Brasil, com destaque para o Rio Grande do Sul.

As vendas de exportação de trigo da safra 23/24 dos EUA alcançaram 354,3 mil toneladas na semana encerrada em 02/11, nível dentro das estimativas do mercado, mas mais próximo do piso, que estava em 250 mil.
No acumulado, foram negociadas 11,7 milhões de toneladas, nível um pouco abaixo do registrado no mesmo período do ano passado, em 12,5 milhões. O trigo russo continua com uma oferta confortável e bastante competitivo, o que tem sido o principal fator a pesar sobre os preços.

Na bolsa MATIF de Paris, os futuros do cereal iniciaram a última semana em alta, com o contrato com vencimento em dezembro de 2023 encerrando o pregão de quarta-feira (8 de novembro) a EUR 235,76/t, acumulando uma valorização de 1% em relação ao encerramento da semana anterior.
Parte da alta observada nos primeiros dias da semana pode ser atribuída ao atraso do plantio na França, a principal produtora de trigo da União Europeia. Segundo dados da FranceAgriMer, a autoridade francesa para agricultura e produtos marítimos, a semeadura do cereal no país havia atingido 67% até o dia 6 de novembro, 6 p.p. a mais que uma semana antes, mas 24 p.p. a menos que no mesmo período do ano passado e 16 p.p. abaixo da média de 5 anos. Chuvas praticamente ininterruptas ao longo das últimas semanas têm dificultado significativamente o avanço do plantio em diversas partes da França, o que pode prejudicar o rendimento das lavouras do país.
Outro importante fator de suporte foi a elevada compra feita pela Agência Estatal de Grãos da Argélia, reportada na quarta-feira. Acredita-se que a agência tenha comprado entre 600 mil e 690 mil toneladas de trigo. Além do elevado volume adquirido, indicativos de que o produto russo não tenha dominado o leilão também contribuíram para a elevação das cotações na bolsa europeia. Em função dos baixos preços do trigo russo e de sua elevada oferta, esperava-se que o leilão seria dominado por ele, mas grãos de outras origens, em especial da França, parecem ter tido participação relevante.
Contudo, após a alta na primeira metade da semana, o relatório de oferta e demanda do USDA voltou a dar um tom mais baixista para o cereal na bolsa francesa. O aumento de 5 milhões de toneladas na estimativa do Departamento para a produção russa em 2023/24, para 90 milhões de toneladas, e dos estoques finais globais, para 258,69 milhões de toneladas, acima da média das estimativas do mercado de 257,8 milhões, mais que compensaram os dois fatores altistas acima citados.
Com isso, após a divulgação do WASDE, o Dezembro/23 devolveu todos os ganhos obtidos até então na semana, finalizando a última sexta-feira (10 de novembro) cotado a EUR 232,25/t, uma queda de 0,5% na semana.

A semana teve menos fatos relevantes do que o normal na região do Mar Negro. Do lado geopolítico, o conflito entre Rússia e Ucrânia se intensificou na quinta-feira, quando foi reportado mais ataques ao porto de Odessa por parte de drones russos. Os ataques não parecem ter exercido danos significativos na infraestrutura portuária ucraniana.
Ainda na geopolítica, o corredor de escoamento de grãos do Mar Negro parece continuar funcionando com normalidade, o que é visto com bons olhos. Ainda assim, o Ministro de Relações Internacionais da Rússia, Segei Lavrov, deu declarações públicas de que os esforços das Nações Unidas para reviver o Tratado de Grãos do Mar Negro não estava conseguindo alcançar resultados. A notícia traz mais desconfianças sobre a capacidade de a Ucrânia de manter o ritmo das exportações de trigo pelo mar. O acordo, que vigorou de julho de 2022 a julho de 2023, garantia volume mais significativos de exportações de grãos da Ucrânia pelo Mar Negro. A Rússia optou por não renovar o acordo após não ter suas demandas, como a reintegração ao sistema financeiro internacional, atendidas.
De qualquer forma, a Ucrânia continua exportando um volume de grãos expressivamente menor do que o ano passado.
O relatório WASDE trouxe algumas revisões para a região. A Ucrânia sofreu revisões positivas somente em suas exportações, em detrimento dos estoques finais. Além disso, a produção russa de trigo foi revista positivamente. O volume estimado pelo USDA agora é de 90 milhões de toneladas, 5 milhões a mais do que nas estimativas de outubro, mas ainda abaixo da safra 22/23.






