- USDA aponta para uma maior área plantada na safra 2024/25;
- Elevada competitividade do trigo russo e argentino;
- Estoques globais menos apertados, segundo USDA;
- Guerra comercial gera receio entre os compradores de trigo dos EUA.
- Alerta pelos conflitos no Mar Vermelho geram incertezas para a logística do Mar Negro;
- Excesso de chuvas ameaça safra francesa;
- Tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos.
A semana entre os dias 31 de março e 04 de abril foi marcada por cenário de acentuadas incertezas no campo econômico global. A última quarta-feira (2), intitulada como “Dia da Libertação” pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não trouxe grandes surpresas em relação às expectativas iniciais, ao menos no que diz respeito aos potenciais efeitos sobre o mercado do trigo. Na verdade, o anúncio das tarifas recíprocas pelos EUA se comportou mais como um capítulo inaugural de uma longa novela que ainda deve trazer novas reviravoltas ao comércio internacional. Nos dias seguintes, o foco do mercado se voltou às reações dos países afetados pelas tarifas, que passaram a dar início às tratativas de negociações, com o objetivo de minimizar os impactos da nova política comercial estadunidense sobre suas balanças comerciais. Em outros casos, como da China, as tratativas não avançaram para um cenário mais favorável, tendo sido anunciadas retaliatórias contra os Estados Unidos, pelo país asiático.
A China aplicou tarifas adicionais de 34% sobre todos os bens importados dos Estados Unidos – o mesmo montante aplicado pelos Estados Unidos sobre o país asiático - que passam a valor a partir do dia 10 de abril. Apesar da China já estar comprando um volume reduzido neste ciclo, ainda assim a nova política comercial impactou negativamente as expectativas para as exportações de trigo dos Estados Unidos para a China para o restante do ano comercial em vigência. Espera-se que o país asiático procure atender sua demanda comprando trigo de outras origens, como a Austrália, por exemplo. Nesse sentido, o impacto deve ser muito menor do que caso o ritmo de importações estivesse se comportando como nos anos safras anteriores, em torno de 11 ou 12 milhões de toneladas.
No agregado, os preços futuros do trigo para o seu contrato mais ativo em Chicago demonstraram flutuações acompanhando a instabilidade, principalmente, de seus principais concorrentes, como milho e soja. No entanto, seu fechamento se manteve próximo da estabilidade, valorizando-se 0,14%, encerrando a sexta-feira (04) avaliado em 529 cents/bushel. Os preços do cereal foram sustentados por fatores como relatório de exportações semanais indicando aumento notável nas vendas líquidas de trigo dos EUA, assim como alguns incentivos à demanda, vindos a partir de licitações do Japão e da Síria, apesar da instabilidade macroeconômica e cambial verificada.
Os principais importadores do trigo estadunidense são México, Filipinas, China, Japão, Coreia do Sul e Taiwan. Há dúvidas sobre o início da validade das tarifas impostas contra o México, de 25%, após o país não ter sido mencionado na quarta-feira (02). Os demais países, todos asiáticos, terão que lidar com taxações entre 17% e 34%, alguns deles responderam com medidas retaliatórias, como a China que devolveu os 34% impostos à ela, e outros tentam negociar por uma taxação mais branda.


Na União Europeia, apesar da valorização dos preços futuros do trigo na Bolsa de Paris, o cenário também é de grande instabilidade. O contrato futuro de maio/25 se valorizou em 1,72%, encerrando a sexta-feira (04) no patamar de 222,25 cents/bushel. As tarifas impostas pelos Estados Unidos também geraram incertezas no mercado europeu, duramente afetado. Os impactos das tarifas ainda são calculados, contribuindo para uma atmosfera de cautela global.
No campo cambial, o euro se fortaleceu frente ao dólar americano, contribuindo para tornar as exportações europeias menos competitivas, afastando a demanda pelo cereal do velho continente. Apesar das exportações semanais de trigo da União Europeia terem ficado em linha com as expectativas do mercado, o acumulado para o ano de comercialização 2024/25 atingiram cerca de 15,7 milhões de toneladas, uma redução de 36% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Na região do Mar Negro, observou-se uma melhora das condições climáticas, o que se refletiu positivamente sobre as perspectivas para a safra local. As chuvas registradas na Ucrânia e no sul da Rússia acabaram elevando as expectativas para a próxima safra de trigo da região. As perspectivas de maior oferta do cereal contribuíram para um declínio dos preços localmente.
Em meio ao cenário de incertezas causado pelas tarifas dos Estados Unidos contra importantes parceiros comerciais, observou-se uma ausência de demanda significativa por trigo na região do Mar Negro, com os compradores e vendedores aguardando por maior clareza sobre os impactos da nova política comercial sobre o mercado global.
As limitações de embarques de trigo impostas pelo governo russo estão previstas para se encerrarem em junho, quando a nova safra começa a ser colhida. A instabilidade nos mercados globais também impactou as cotações dos combustíveis fósseis. Embora o petróleo tenha sido isento das tarifas de importação, seus preços seguem pressionados pelo temor de uma retração na atividade econômica global e pelo risco inflacionário em importantes economias mundiais — fatores que podem reduzir a demanda pelo produto em nível global. Este cenário pode ser prejudicial à economia russa, com menos recursos entrando na economia por uma potencial baixa nas exportações de petróleo, podem precisar enviar mais commodities ao mercado externo para financiar sua economia. Tudo isso, considerando um cenário duradouro do quadro atual, com a possibilidade de que o cenário seja revertido, considerando os meses que virão pela frente.






