
Análise dos estoques de açúcar nas principais regiões importadoras até o final de setembro de 2025
Na última terça-feira (23), a StoneX divulgou sua segunda revisão para o saldo global de açúcar na temporada 2025/26 (out-set). Com a proximidade do final oficial do ciclo 2024/25, consolida-se o déficit no período, estimado em 4,7 milhões de toneladas (em valor bruto), levando os estoques finais para a mínima desde 2016/17 – ao redor de 72,5 MMt. Mas, afinal, como o mercado tem trabalhado com tamanha retração de estoques na temporada, em contraste com a queda nos preços na bolsa de Nova Iorque?
No presente relatório, a Inteligência de Mercado da StoneX trará uma análise sobre as exportações nos três maiores players, e as importações e estoques nas principais regiões compradoras de açúcar do mundo, assim como um resumo das novas estimativas divulgadas no início da semana.
Exportações, importações e estoques de açúcar pelo mundo
Nos relatórios da Equipe de Inteligência de Mercado da StoneX, desde o início do ano, tem sido reforçado o cenário de importações pouco ativas no mercado global, e como isso impactaria (e continua impactando) os preços nas bolsas. Já no primeiro trimestre de 2025, o ritmo de negócios diminuiu drasticamente, e os volumes importados pelo mundo foram dos menores já vistos nos últimos 10 anos.
Uma das hipóteses desse cenário era, naturalmente, a situação da safra 2024/25 (out-set) global, deficitária, e que naturalmente teria um menor excedente exportável nos polos vendedores. Contudo, esse fator não se confirmou, pelo comportamento de diversos indicadores ao longo do ano, valendo destacar:
- O prêmio do branco operou em uma média de US$ 97/ton no primeiro trimestre do ano, indicando demanda enfraquecida pelas refinarias e/ou oferta suficiente de refinado no Hemisfério Norte;
- Prêmios de exportação no Brasil e na Tailândia enfraquecidos;
- Entregas nos vencimentos dos contratos de março, maio e julho de 2025 em patamares elevados e contando com uma ampla diversidade de entregadores;
- A própria queda posteriormente do açúcar em NY sob ampliação firme do posicionamento vendido dos fundos recusava a tese de importação caindo devido ao déficit na safra global.
Nesse sentido, o cenário que se desenhou foi a diminuição do ímpeto comprador até o terceiro trimestre de 2025 em uma intensidade maior do que a diminuição do excedente exportável ao redor do globo. No Brasil, por exemplo, as exportações dentro do calendário outubro-setembro de 2024/25 devem fechar em 33,7 milhões de toneladas (tel quel), com uma queda anual de 4,9 MMt (frente ao recorde em 2023/24). Esse recuo, por sua vez, é maior do que a retração produtiva no país – de cerca de 3,0 MMt em 2024/25 (out-set), devido à menor produção registrada no segundo semestre de 2024, que sofreu com o aumento de impurezas na cana do Centro-Sul brasileiro.
Exportações brasileiras no calendário internacional out-set (milhões de toneladas)

Fonte: MDIC. Elaboração e *Estimativas: StoneX.
Em resumo, esse cenário impõe ao Brasil acúmulo de estoques, que devem terminar o período com reservas pouco acima de 11,0 MMt, alta anual de 9,4%. Apesar de ter vivido um ano de 2025 majoritariamente de estoques em queda, o terceiro trimestre de 2025 deve caminhar para a maior produção de açúcar no período em toda história, em 21 milhões de t, acima até de 2023/24, elevando tanto o volume de exportação quanto das reservas domésticas. Porém, o Brasil ainda tende a escoar cifras abaixo de seu excedente exportável de fato, o que tem se confirmado ser uma questão de demanda por importações mais fraca – a ser tratado posteriormente.
Na Tailândia, o cenário é similar, de exportações beirando as 7,0 milhões de toneladas em 2024/25, mas ainda abaixo do potencial para o período – mais perto das 7,5 MMt. Na Ásia, porém, o que traz mais curiosidade é a Índia. Na safra, a sua produção caiu 6 milhões de toneladas (em valor branco), e, mesmo assim, o governo indiano liberou cota de exportação – e o país embarca no ciclo 800 mil t no total. Contando com leve recuo do consumo interno, a Índia verá uma queda de quase 3,0 MMt nos estoques finais de 2024/25. Ou seja, do déficit global de 4,7 (valor bruto), 2,95 MMt é na Índia (que, paradoxalmente, exportou 1,0 MMt a mais).
Os três países mencionados são praticamente 70% das exportações globais, e podemos concluir que dois deles viram exportações abaixo do potencial (acumularam estoques) e o outro exportou acima do potencial, mas viu queda de estoque.
Do lado da demanda, como já adiantado, houve um dos piores primeiros trimestres de importação dos últimos anos e um segundo trimestre melhor, mas fundamentalmente puxado pelas compras chinesas. De fato, como já era esperado, as importações crescem de forma robusta no terceiro trimestre e, mesmo assim, não tem sido capazes de gerar alta nos preços – ao passo que uma safra 2025/26 (out-set) superavitária bate na porta, e os fundos continuam confortáveis em seu posicionamento liquidamente vendido.
Observando as principais regiões importadoras de açúcar do mundo, a queda nos estoques de açúcar em 2024/25 é robusta. No Oriente Médio, estima-se um recuo de 455 toneladas (valor bruto), ou -12%, nas reservas domésticas, devido principalmente às menores importações dos Emirados Árabes Unidos, do Irã e do Iraque. O recuo é similar por toda a África Subsaariana (Sul, Leste, Centro e Oeste do continente), que vê uma retração de quase 700 mil t nos estoques finais em 2024/25.
Além dessas regiões supracitadas, Estados Unidos e União Europeia também convivem com queda de importações e de estoques internos. Por outro lado, países importadores que vem acumulando estoques em 2024/25 via crescimento das compras são o Egito e, principalmente, a China, que caminha para um dos terceiros trimestres mais volumosos em termos de importação dos últimos 15 anos.
Importações de açúcar nos principais polos compradores do mundo* (milhões de toneladas)

* Em valor tel quel considerando: Oriente Médio, China, Indonésia, Índia (tolling), Egito, Marrocos, Argélia, África Subsaariana, União Europeia, Estados Unidos, Canadá, Bangladesh e Paquistão – praticamente 80% do volume global.
O que se pôde ver, portanto, foi a preferência e a aposta dos compradores em esperar os preços cederem, sob expectativa de oferta firme posteriormente, para elevar as importações – dado a expansão robusta dos estoques em 2023/24, como poderá ser ilustrado no gráfico abaixo. No caso deste ano, a aposta foi certeira, como visto anteriormente na exposição sobre a produção brasileira no terceiro trimestre de 2025.
Estoques de açúcar nos principais polos compradores do mundo* (milhões de toneladas)

* Em valor branco, considerando: Oriente Médio, China, Indonésia, Índia (tolling), Egito, Marrocos, Argélia, África Subsaariana, União Europeia, Estados Unidos, Canadá, Bangladesh e Paquistão.
Ponderando esse cenário, de demanda por importação abaixo do excedente exportável em 2024/25, a temporada 2025/26 pode ser um desafio. Isso porque, teoricamente, os países agora enfrentam níveis menores de estoque e poderão continuar comprando de maneira relevante pelo menos ao longo do quarto trimestre do ano, início ainda das colheitas no Hemisfério Norte. Caso a demanda por branco/refinado cresça, ela encontrará menor estoque disponível por parte das refinarias em comparação com o ano passado – o que é observado pelo balanço dos EAU e da Índia (tolling), principalmente.
Esse contexto tende a gerar estresse no mercado de branco, o que poderá ser visto no comportamento do White Premium após a virada da tela do outubro/25 para o março/25. Apesar de ainda ser incerto, esse é um risco que o mercado corre daqui para frente, com ênfase para os meses de novembro e dezembro, quando haverá menor disponibilidade de açúcar pelas usinas do Centro-Sul (em entressafra) e ausência da Tailândia das exportações, ao passo que sua colheita tem início apenas em meados de dezembro.
Resumo das estimativas para o saldo global de açúcar publicadas dia 23 de setembro
Ásia
Para a Ásia, não houve revisões substanciais. De maneira geral, o continente deve conhecer um crescimento produtivo em 2025/26, com os principais players obtendo um avanço anual em suas safras (com exceção da China que deverá obter um leve recuo anual de 0,9%).
Na Índia, o cenário climático se manteve estável nos meses de julho e agosto, com chuvas próximas à média. Agosto, observou melhores precipitações (5% acima da média) e reforçou o cenário de boa disponibilidade hídrica, com nível nos reservatórios em alta capacidade, o que é essencial para a colheita em 2025/26 e também para o plantio de 2026/27. Deste modo, a StoneX mantém a estimativa de produção de açúcar pela Índia em 32,3 MMt (+23% y/y), após 4,5 milhões de toneladas de desvio para o etanol. O foco de atenção agora é a possibilidade de exportação de 2 MMt, todavia, a paridade de exportação indiana está em torno de US¢ 17-18/lb (a depender dos preços praticados em plena safra), o que não justifica economicamente novas cotas.
Na China, o ano pouco chuvoso gera um risco em Xinjiang (ao Norte) para o desenvolvimento das beterrabas sacarinas, porém, a produção de açúcar nacional deve obter apenas um leve recuo de 0,9%, atingindo 11,1 milhões de toneladas. Na Tailândia, até o momento, as chuvas têm sido benéficas. Com isso, a produção tailandesa de açúcar deve ser 11,4 MMt (tel quel).
O Paquistão é o país que traz mais incertezas para as safras asiáticas. Após a quebra de safra em 2024/25, a temporada 2025/26 deve ser de recuperação produtiva. Porém, as enchentes em Punjab trazem maiores alertas. A produção paquistanesa de açúcar deve conhecer um aumento anual de 11,3% e finalizar a safra 2025/26 em 6,5 MMt.
Europa
No que tange o continente europeu, não houve revisão na estimativa de produção. A safra 2025/26 deve obter uma retração de 9,4% em sua área de cultivo, devido aos menores preços internos do adoçante pela Europa que desmotiva os produtores. A projeção para a produção de açúcar na UE27 + UK se mantém em 16,0 MMt. (-9,6% y/y).
Por um lado, o plantio começou de maneira adiantada na Europa, o que dá um maior tempo de desenvolvimento para as beterrabas sacarinas. Contudo, o clima mais seco e as temperaturas acima da média geram um alerta para a qualidade e a recuperação de sacarose das raízes. Outro motivo que gera alerta são as doenças pelos campos, principalmente na Alemanha e que vem avançando pela França também.
Na Rússia, a produção de açúcar deve aumentar 3,2% em termos anuais, e a StoneX mantém sua projeção de 6,5 milhões de toneladas para o ciclo 2025/26. Na Ucrânia, a produção de açúcar deve diminuir cerca de 200 mil toneladas, alcançando 1,5 MMt.
América
Na América, a StoneX alterou suas projeções para a safra 2025/26. A estimativa para produção de açúcar no Centro-Sul brasileiro foi revisada para 41,7 MMt. (+4,4% y/y), e no Norte-Nordeste, a produção foi revisada para 3,7 MMt (-3,3% y/y). Para o ciclo 2026/27 (abril-março), o Centro-Sul deve conhecer um crescimento de 20 MMt na moagem, uma recuperação do ATR e um mix açucareiro ainda elevado, embora com leve queda.
Nos Estados Unidos, o USDA permanece otimista para a safra 2025/26. Com chuvas dentro ou acima da média, as beterrabas sacarinas se encontram em bom estado de desenvolvimento. Com isso, a estimativa de produção de açúcar nos EUA é de 8,6 MMt. Para o México, o cenário climático também é favorável para a cana-de-açúcar, o que leva para uma estimativa de produção de açúcar de 5,1 MMt (tel quel).
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Tabela de indicadores

Fontes: ICE, CEPEA, B3, ANP, NYMEX, CBOT, Banco Central do Brasil, California Air Resources Board (CARB), CONSECANA, StoneX. Elaboração: StoneX.