O sentimento de aversão ao risco deve permanecer entre os investidores globais. Na semana passada, os Estados Unidos avançaram nas sanções impostas à Rússia, proibindo a importação de petróleo russo pelo país e bloqueando a importação de uma série de outros produtos, com destaque para vodca, frutos do mar e diamantes. O Reino Unido também se pronunciou que eliminará a importação de petróleo até o final deste ano. As medidas buscam atingir ainda mais a economia russa, uma vez que o óleo representa uma fatia significativa das receitas com exportações. Pelo outro lado, o Kremlin restringiu as exportações e importações de uma lista de produtos, incluindo matérias-primas, a nações que considera “hostis”, como Estados Unidos, Reino Unido, e integrantes da União Europeia
Neste contexto, a moeda brasileira vem sendo favorecida. Apesar da aversão ao risco global e busca por ativos de segurança, como o dólar e títulos do tesouro americano, devido à forte valorização de grande parte do complexo de commodities, ativos brasileiros relacionados a estes produtos tem recebido maior procura por investidores. Também há uma expectativa de que o Brasil possa se posicionar como uma alternativa tanto devido à interrupção do comércio dos países com a Rússia, seja através de sanções, seja pelo medo de serem “mal-vistos” por negociarem com o país ou pelo receio de sofrerem calotes após a retirada dos bancos russos do sistema financeiro global Swift.
No entanto, os efeitos da guerra tendem a refletir na inflação de grande parte dos países. Na última semana, o Departamento de Estatísticas do Trabalho (BLS) dos Estados Unidos revelou que o Índice de Preços ao Consumidor (CPI) registrou aceleração de 0,8% em fevereiro. Apesar de dentro das expectativas, o acumulado nos últimos 12 meses chegou a 7,9%, maior valor desde 1982. É provável que março registre uma aceleração ainda maior, uma vez que o mês captará mais dos efeitos da guerra, iniciada no final de fevereiro, sobre os preços das commodities energéticas, alimentícias e metálicas. Vale lembrar que a meta buscada pelo banco central americano é de em média 2,0% ao ano.
Assim, cria-se uma maior expectativa para a reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC), que ocorrerá nesta quarta-feira (16). A expectativa de que o Fed seguirá com o aumento de 0,25 ponto percentual sinalizado previamente, o que deve contribuir para continuar elevando a atratividade do dólar no atual cenário global. Todavia, será importante acompanhar o posicionamento dos membros do Comitê sobre como o Fed deve se comportar no contexto da guerra entre Rússia e Ucrânia, e quais ações podem ser tomada em caso de a inflação sair fora do controle no país. A reunião também será marcada pela divulgação das primeiras projeções trimestrais dos membros do FOMC para os principais indicadores da economia americana, que costumam funcionar como um balizador para as expectativas dos agentes para o ano.
No Brasil, o IBGE divulgou o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de fevereiro, que marcou uma alta de 1,01% no mês, levemente acima das expectativas. Desta forma, o acumulado em 12 meses passou de 10,38% em janeiro para 10,54%.
Segundo o relatório, o preço do café moído sofreu um ajuste de 2,51% ao consumidor final, avanço inferior ao observado em janeiro, de 4,75%, e menor alta mensal desde maio de 2021, quando registrou aumento de 1,57%. Todavia, o acumulado em 2022 já chega a 7,38%, com o acumulado dos últimos 12 meses passando de 56,87% em janeiro para 61,19% no último mês. Já os preços de café solúvel ao consumidor, segundo o IBGE, avançaram 1,81% em fevereiro, com o acumulado no ano chegando a 3,93% e com o acumulado em 12 meses avançando de 13,81% em janeiro para 15,43%.
Evolução dos preços de café torrado e moído no Brasil
nos últimos 12 meses
Fonte: IBGE. Elaboração: StoneX.
Os impactos da guerra também devem ser observados nos preços ao consumidor brasileiro. Na última semana, a Petrobrás anunciou um reajuste de 18,7% nos preços da gasolina, 24,9% no diesel e 16% no gás de botijão, em função das fortes altas dos preços do petróleo no mercado internacional. Desta maneira, espera-se que em março o IPCA continue registrando avanço expressivo dos preços no Brasil.
O foco dos agentes no país deve ficar para a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) que ocorrerá também nesta quarta-feira (16). A sinalização na última reunião do colegiado foi de que o Banco Central deve elevar a taxa básica de juros (Selic) em 1 ponto percentual, indo de 10,75% para 11,75% ao ano. Todavia, devido à expectativa de que os efeitos da guerra irão promover um crescimento nos preços maiores que o esperado, será importante acompanhar qual será a postura do Copom para seus próximos encontros. O Boletim Focus do Banco Central desta segunda-feira mostrou um forte reajuste nas projeções do mercado, com as apostas da semana passada de que o IPCA terminará 2022 em 5,65% passando para 6,45%, já significativamente acima do limite superior da meta do BC, de 5,0%. As apostas de que a taxa Selic ao final de 2022 também sofreram reajustes, passando de 12,25% para 12,75%, o que deve implicar em reajustes no ritmo planejado pelo Copom para suas próximas reuniões.