Com cenário quase inalterado no campo dos fundamentos, o mercado de café continuou a ser impactado por fatores macroeconômicos e técnicos. Como foi apresentado, o mercado de café arábica em Nova Iorque obteve suporte em meio a recuperação da moeda brasileira e queda do dólar no mercado nacional. Além disso, o mercado ainda sente os impactos causados pela guerra entre a Rússia e a Ucrânia, como já foi apresentado em outras edições deste relatório.
Para o mercado de café arábica, houve um importante fortalecimento dos diferenciais nas praças brasileiras com relação a bolsa de referência em Nova Iorque. O avanço dos diferenciais se deu principalmente devido a forte queda do dólar no mercado brasileiro. Além disso, o recuo das máximas do ano em Nova Iorque em meio aos impactos da guerra contribuiu para essa movimentação – o diferencial do café tipo 6 entre São Paulo e a bolsa de Nova Iorque foi de US₵ -30 /lb em meados de fevereiro para US₵ -25 /lb na última semana.
SAZONALIDADE DOS DIFERENCIAIS DE CAFÉ ARÁBICA EM SÃO PAULO (US₵/LB)
Fonte: ICE, CEPEA. Elaboração: StoneX.
Com relação ao robusta, vale ressaltar que as estimativas de exportação do Vietnã divulgado pelo escritório geral de estatística (GSO, sigla em inglês) indicaram um aumento de 0,2% nas exportações do mês de março, que totalizou 2,83 milhões se sacas, se comparado com o mesmo mês do ano passado. O acumulado do ano-safra (out-mar) totalizou 12,91 milhões de sacas, postando um aumento de 1,41%.
O aumento das exportações de café robusta do Vietnã ocorre em meio à forte queda nas exportações brasileiras para o tipo, como reflexo da condição dos diferenciais. Devido à forte restrição na oferta de café no Brasil, e a alta nos preços do arábica, houve o aumento da demanda de café robusta por parte das indústrias, resultando em diferenciais positivos no mercado doméstico brasileiro; na última semana, o diferencial entre o indicador Cepea para o robusta e a bolsa de Londres atingiu valores acima de R$ 750,00.
Secex: exportações brasileiras de café recuaram 15,9% em março
Os dados preliminares da balança comercial brasileira em março, divulgados pela Secretaria de Comércio Exterior (SECEX), indicaram que o Brasil exportou 3,38 milhões de sacas em março, representando um recuo de 15,9% se comparado com o mesmo mês do ano passado, quando o país exportou 4,02 milhões de sacas. O forte recuo nas exportações é resultado da menor disponibilidade de café em meio a reduzida produção em 2021/22 e aos problemas logísticos que ainda continuam impactando as exportações.
Nas próximas semanas, o mercado de café deverá ser impactado pelas movimentações nos campos macroeconômico e do câmbio – no caso de contínua recuperação da moeda brasileira, as cotações em Nova Iorque tendem a reagir positivamente, enquanto o mercado doméstico continuaria pressionado. Devido as grandes incertezas ligadas ao conflito entre a Rússia e a Ucrânia, o mercado de café, assim como outras commodities, seguirá reagindo aos eventos ligados a guerra.
Como foi comentado, os dados de exportação da Secex já indicam que as exportações em março tiveram forte redução. Nas próximas semanas, o Cecafé divulgará os dados oficiais para as exportações brasileiras, que tendem a ficar em linha ao que foi divulgado pela Secex. O reduzido volume de exportação no Brasil corrobora com a perspectiva de menor oferta, o que junto dos problemas logísticos trazem um tom altista para o mercado.
Além disso, os agentes acompanharão de perto o clima nos países produtores e a divulgação da probabilidade de manutenção do La Niña que será publicado no dia 14 de abril pela agência americana NOAA. A última atualização divulgada pela agência Australia BOM indicou que o La Niña permanece ativo, porém o pico do fenômeno já passou. Ademais, de acordo com a agência, a maioria dos sete modelos climáticos internacionais apontam que o La Niña perderá força nos próximos 3 meses e retornará para uma condição neutra mais provavelmente no fim do outono ou início do inverno no hemisfério sul. Uma confirmação deste cenário, com melhora nas condições climáticas nos países produtores, pode atuar de maneira a pressionar os preços nas bolsas.
Anomalia mensal da temperatura da superfície do mar para a região do
NINO 3.4
Fonte: Departamento Australiano de Meteorologia.
Correlação inversa entre cotações de dólar e café se destaca
nas últimas semanas
Atuando como fator de suporte para impulsionar novamente os preços de café na bolsa de Nova Iorque, o par real/dólar encerrou a última semana com queda de 1,7% no mercado cambial brasileiro, cotado a R$ 4,667. Desta maneira, a divisa americana engatou sua quinta semana consecutiva em queda, acumulando no ano uma retração de 16,3%. O dólar também registrou leve recuo frente a uma cesta de moedas de economias avançadas, com o dollar index recuando 0,2% para terminar a última sexta-feira (1) contado a 98,6 pontos.